As sombras do Natal

Por Maya Santana
Os  pássaros continuam a cantar bem cedo... O sol é o mesmo lá fora

“Os pássaros continuam a cantar bem cedo… O sol é o mesmo lá fora”

Déa Januzzi

Os  pássaros continuam a cantar bem cedo, anunciando um novo dia. O Sol é o mesmo lá fora. Apenas mais quente, mais árido, mais devastador, mas mesmo assim continua Sol. Frida, porém, está mais triste, late menos do que antes, ao entrar no quarto e sentir um cheiro estranho de ausência A casa já não é mais a mesma, sem o ruído da bengala, sem o jeito manso e doce daquela velha senhora. Os outros habitantes da casa se tornaram reféns dos boletins médicos de cada dia. Viraram andarilhos na própria casa, andam de um lado para o outro como errantes, sem rumo. Não sabem mais se moram para lá ou para cá. Vagam sonambulamente, por causa da saudade que tortura o peito, arranha o coração.

Ela pede perdão por tudo que deixou de fazer pela mãe de 91 anos que está internada no hospital há dias. Pede desculpas pelo cansaço que, às vezes, se abatia sobre ela por ter que trabalhar, cuidar da mãe já idosa e do filho que vive incomodado com um mundo tão cruel e pesado. O filho não encontra lugar no mundo e urra a sua dor de não ser como todo mundo. Os seus gritos ultrapassam as barreiras da casa, saem pelas frestas das portas, invadem os apartamentos vizinhos. Ela não tem explicação, não tem como se desculpar por causa da dor infinita, incurável, que atravessa as fronteiras do entendimento.

O neto não foi visitar a avó no hospital, mas sua dor é grande e ele geme dia e noite, como se estivesse perpassado por uma lança. A casa toda é angústia, sente falta da habitante antiga, mas tão forte que está internada num hospital pela primeira vez em 91 anos.  A casa não é mais a mesma, sem o barulho do chuveiro de manhã, quando a senhora toma banho intensamente como se tivesse 20 anos. Há uma tristeza escondida em cada canto, há um desajuste no ar, uma falta de sintonia que beira a loucura.

Os moradores da casa enlouqueceram. Nada mais é como antes e ela tem a sensação de que nunca mais vai ser igual, que a casa está mais pesada e estranha para todos, que não há mais o mesmo ritmo, a mesma sinfonia. O livro que a avó estava lendo sobre a vida de Paulo Coelho ficou aberto na mesma página. Ninguém tem coragem de tocar nele, até que ela volte para continuar a leitura.

A vontade é de ficar com as janelas e as cortinas trancadas o dia inteiro, para não revelar o abismo que vai dentro da alma. Ela não tem mais vontade de sair nem de conversar. Vai fazer greve de fome até que a senhora esteja de volta, se recupere de um baque tão grande. Afinal, desde o dia 10 de maio deste ano, quando o seu único filho homem, partiu, ela também não é mais a mesma. A luz do abajur sempre ficava acesa à noite, sem que ela desse um pio, presa nesta gaiola do viver depois da morte de um filho.

Nada mais é igual à antes, apesar de tudo continuar aparentemente igual.  Não há mais brilho nessa casa. A vontade é de trancar as portas e ir embora para bem longe, quem sabe para algum lugar em que as pessoas soubessem viver, acima dos interesses, das doenças, das perdas e do sucesso. Quem sabe, num lugar mais calmo, sem tanto barulhos internos e externos, sem tanta aflição.

Quem sabe o Shangri-lá seja mesmo apenas um sonho difícil de realizar e que a gente tenha mesmo de ficar entre a poeira do asfalto, as freadas dos carros, o quebra e quebra de novo do piso da garagem, dos raps dos pedreiros às seis da manhã e os gritos furiosos de dor e tédio do neto que não encontra um lugar neste mundo. Que surta diante da incompreensão, que não se encaixa, que não se alinha, que não sabe ainda costurar os pedaços perdidos no seu caminho.

Ela passou a ter um sentimento que nunca morou dentro dela: o medo da vida, de não dar conta, de não conseguir preencher esse buraco enorme que se abriu por todos os lados. Sem voz, sem desculpas para o que está acontecendo, envergonhada de si mesmo e de tudo, ela está quieta, calada, como se um poço sem fundo tivesse aberto sob os seus pés.    Lá fora, o dia continua lindo porque o Natal se aproxima como todos os anos, a sua árvore já está montada, as luzes piscam, os anjos abrem suas asas nos galhos mais altos. A borboleta dourada não atrai mais tanto quanto antes, porque não há mais Natal dentro dela.

(Esta crônica da jornalista e escritora Déa Januzzi foi publicada no jornal Estado de Minas)


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