
Márcia Lage
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Ah, os termos médicos! São, às vezes, mais assustadores que o diagnóstico. Escondem, na sua terminologia, referências gramaticais que geram analogias duvidosas, às vezes até repulsivas. Impedância, por exemplo. Minha médica me pediu esse exame.
Achei um insulto a palavra. Parecia referir-se a uma exploração impiedosa do meu corpo; a um pedantismo sem tamanho da médica que o exigiu; e a uma grande petulância de quem o ia realizar.
O dicionário só atrapalhou: “Impedância é o acúmulo dos efeitos da reatância e da resistência em um circuito; a carga da resistência total de algum circuito de corrente alternada”.
Ôxe! A médica queria saber se eu dava choque? Li outra vez o pedido do exame. Não era Impedância. Era Bioimpedância. Seria a medida da minha reatância e resistência biológica? Para que, meu Padim Ciço?
Pesquisei de novo. Era só a medida da minha composição corporal. Quanto eu tenho de músculos, gorduras, ossos e água no meu organismo. Coisa que a academia faz a cada três meses. Só que agora era mais preciso. Com nutrionista e tudo.
Então tá. Fui lá fazer o tal teste. Médico pede, a gente obedece. Há mais dúvidas na cabeça deles do que crises de idade em nossa vã caminhada por esse planeta em ebulição política/geográfica/humanitária, liderada psicóticamente pelos mandatários da vez.
Fiquei até na dúvida se valia a pena buscar saúde física e mental, já que uma Terceira Guerra Mundial pode eclodir a qualquer momento. Numa guerra – penso eu – o melhor é ser velho e fraco para não ser convocado e doido de pedra para matar ou morrer sem muita crise de consciência.
O resultado do exame foi outra palavra de arrepiar os cabelos. Deu que eu era Eutrófica. Vixe Maria, deve ser doença grave! Me lembrei de Eugenia, aquele experimento horroroso de busca de uma raça pura na Segunda Guerra Mundial; e de Hipertrofia, que é a formação exagerada de músculos, muito comum em bichos de academia e gente nervosa que mata gari.
O prefixo “eu” em grego significa bom (há controvérsias no caso de Eugenia) e o sufixo Trofia, também grego, significa nutrição, desenvolvimento. Ou seja: Eu estava bem alimentada e minha saúde muito boa e equilibrada, com um corpo físico de 63 anos para os meus reais 70. Nem gorda nem magra, nem dura nem mole.
Pronta para a guerra!
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