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"Assusta descobrir nossa orfandade original"

Por Maya Santana

Aos 77, a escritora mineira lança livro de poesia "Miserere"

Aos 77, Adélia Prado lança livro de poesia “Miserere”


Depois de três anos sem publicar nada, aquela que é considerada a “maior poeta brasileira viva (ao lado de Ferreira Gullar e Manoel de Barros)” encanta seus milhões de admiradores com a notícia de que está lançando mais um livro: Miserere. Aos 77 anos de vida, Adélia Prado acredita que, apesar de todas as guerras, o mundo não só é propício à poesia, “mas está faminto dela”. Por isso, produziu o seu melhor: 38 poemas, para este mundo sedento da própria poeta.
Leia o artigo de Ubiratan Brasil para o Estadão:
A poesia, para Ferreira Gullar, nasce de um espanto. Já para Adélia Prado, ela vem da “terceira margem da alma”. Ambos concordam, porém, que os momentos inspirados vêm subitamente, sem controle, reservando ao poeta a função de instrumento para decodificá-los em versos. Por isso é irregular o período que separa cada novo livro de poesia. Adélia, por exemplo, não publicava nada havia três anos, quando saiu A Duração do Dia. O jejum termina na quinta-feira, quando chega às livrarias Miserere (editora Record).
São 38 poemas, em que a maior poeta brasileira viva (ao lado de Gullar e Manoel de Barros) tanto flerta com a metafísica como se atém aos detalhes do cotidiano, mas, acima de tudo, aposta na grandeza das pequenas coisas. E, como não poderia ser diferente, sua poesia estabelece um diálogo com Deus, uma ponte com a transcendência e uma crença na perenidade da carne e na eternidade da alma.
Por que os poemas de Miserere são mais escuros que seus habituais? O título do livro foi definido por conta disso?
Primeiro porque os olhos se turvam na velhice e a privação de regalias da juventude trazem consigo, de maneira não idealizada, as realidades do sofrimento e da morte. Abrir os olhos dói: morrer de tuberculose, que eu achava o máximo na maioria dos poetas que admirava na escola e de muitos santos que me encantavam com seus martírios, é de fato coisa tenebrosa e dificílima. Hoje, quando digo ‘miserere nobis’ (tem piedade de nós), sei um pouquinho mais do que estou falando. Assusta descobrir nossa orfandade original. Mas nada se apresenta sem remédio por causa da fé e da poesia, que considero uma forma estupenda de fé e esperança. O título Miserere foi escolhido porque me parece o que mais revela o espírito do livro.
A senhora faz duas citações de Marie Noël, poeta francesa que viveu a separação entre a fé e o desespero, e cuja obra culminou com um grito blasfemo, mas particularmente comovente. O que lhe atrai na poesia de Noël?
Exatamente o que você citou. Seu sofrimento me deixa perplexa e eu não conheço sua poesia – certamente o que lhe permitiu viver. Sabe onde encontro sua obra? Só conheço Notas Íntimas, que me impressionou muitíssimo e onde me reconheci de corpo inteiro em alguns aspectos. Ler esse livro bastou-me como ingresso em sua tribo.
O mundo atual, perturbado pelo terrorismo e pela guerra, ainda é propício à poesia?
Não apenas propício à poesia, mas faminto dela. Clique aqui para ler mais.
No vídeo, Adélia fala de amor, do erótico, desejo carnal, opressão. Assista, porque é muito bom:

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