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Atentado: 1ª impressão é de vitória do extremismo

Por Maya Santana

Wolinski, amigo de Ziraldo - um dos quatro cartunistas mortos no atentado em Paris

Wolinski, amigo de Ziraldo – um dos quatro cartunistas mortos em Paris

Zuenir Ventura

A primeira impressão é de vitória do extremismo, de recrudescimento do radicalismo, já que a barbárie calou a liberdade de expressão.

Os jornais “Le Monde” e “Le Figaro”lembraram que o pior ato de terror em Paris foi o que ocorreu em 1961, durante a guerra pela independência da Argélia, quando a Organização Armada Secreta, a OAS, de direita, explodiu uma bomba no trem Estrasburgo-Paris, descarrilando a composição e matando 28 pessoas. Em número de vítimas, sim, foi bem maior do que o de agora, com 12 mortos. Mas não em efeito moral e emocional, em impacto e comoção. Passei os anos 1960/61 como correspondente na capital francesa, e pude vivenciar o clima de paranoia da época, devido aos atentados. Até o presidente De Gaulle escapou por pouco de um. Era comum uma ameaça esvaziar uma sala de cinema ou uma estação de metrô.

A homenagem de Ziraldo ao   amigo francês

A homenagem de Ziraldo ao amigo francês

Mesmo assim, agora, distante, fiquei mais chocado, pela brutalidade e frieza da ação e porque sabia o quanto Wolinski, um dos cartunistas barbaramente assassinados, era amigo de Chico Caruso e Ziraldo. Acompanhei a reação deste último: primeiro de incredulidade ao receber a notícia, e em seguida de inconformismo e dor. “Quando eu ia a Paris, ele me levava para jantar em sua casa”, recordou o nosso cartunista. “Você sabe o que isso significa para um francês?” Uma das charges guardadas como relíquia é uma bela mulher nua com a legenda: “Olha o que o Ziraldo fez comigo”. Os dois gostavam de desenhar mulher. Aliás, não só de desenhar.

Uma das charges com Maomé feita por Wolinski

Uma das charges de Wolinski com Maomé: “É duro ser amado por idiotas”

À parte as memórias afetivas, o que fica? Naquela época, o terrorismo saiu derrotado, De Gaulle foi vitorioso e a Argélia tornou-se independente. E agora? A primeira impressão é de vitória do extremismo, de recrudescimento do radicalismo, já que a barbárie calou a liberdade de expressão: o fuzil venceu o lápis e o país pode sair partido. Esses fanáticos são tão insanos e obtusos que não percebem que, com suas ações, dão razão à extrema-direita e fortalecem a islamofobia. Mas, por outro lado, a atitude das lideranças muçulmanas condenando a violência e a impressionante reação dos franceses indo para as ruas de forma indignada, mas pacífica, lançando a palavra de ordem que correu o mundo — Je suis Charlie — alimentam a esperança de que o sacrifício dos mártires do massacre do “Charlie Hebdo” sirva para impedir que os fundamentalistas façam valer sua estratégia, a de uma França polarizada pelo ódio étnico e religioso.

A solução contra isso está anunciada nos cartazes empunhados nas últimas passeatas: “Je suis Charlie, Je suis musulman, Je suis juif, Je suis catholique”. Ou seja, a solução é a pluralidade, a tolerância, a liberdade de expressão.

Veja as charges de brasileiros em solidariedade aos colegas franceses mortos:

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Esta crônica de Zuenir Ventura foi publicada na edição deste sábado, 10 de janeiro, de O Globo.

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1 Comentários

Ana 10 de janeiro de 2015 - 17:35

A solidariedade, a certeza queao ódio não resolve problemas, é o lado humano deste atentado. Je suis Charlie

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