fbpx

Ativo aos 85, a ciência quer explicar Adib Jatene

Por Maya Santana

Ele tem uma rotina diária de trabalho

Ele tem uma rotina diária de trabalho

O mais conhecido cirurgião cardíaco do Brasil, Adib Jatene, 85, tem um histórico de vida impressionante no que se refere a cuidar de si mesmo. Fez exercício a vida inteira, sempre prestou atenção à alimentação, nunca pôs um cigarro na boca e, se bebeu, foi sempre com moderação. Resultado: É um octogenário com um cérebro brilhante, como mostra este artigo de Cristiane Segatto para a revista Época.

Leia:

À mão, como sempre, Adib Jatene escreve seu próximo livro. Chamará O Brasil que vi crescer. Começa com a descrição do percurso cumprido por ele, em 1939, desde o Acre, onde nasceu, até Uberlândia, em Minas Gerais. O trajeto feito em dois meses hoje pode ser percorrido, de avião, em poucas horas. Apesar de relembrar o passado, Jatene não vive nele. “O presente é fantástico”, diz. O interesse genuíno pelo novo ajuda a explicar seu envelhecimento ativo, assim como o estilo de vida saudável. Jatene sempre fez atividade física. Na juventude, remava no Rio Tietê e praticava atletismo. Nunca fumou.

Há três anos ainda caminhava e fazia musculação. Sente falta. Casado com a nutricionista Aurice há 60 anos, segue uma alimentação equilibrada. Em 2012 sofreu um infarto no hospital. Ele mesmo fez o diagnóstico. Quatro stents (próteses metálicas) desobstruem três artérias. Diz que elas são ruins. Entopem facilmente. Acha que estaria morto há muito tempo, caso não tivesse se cuidado sempre. E não perde a chance de relembrar o mantra: “Somos o que comemos”.

Para descobrir a idade de alguém, observe as mãos. Essa estratégia, quase sempre infalível, não funciona com Adib Jatene, de 85 anos, o mais célebre dos cirurgiões cardíacos brasileiros. Com poucas rugas e unhas muito bem aparadas, as mãos dele parecem 20 anos mais jovens. Comandadas por um cérebro admirável, elas executaram 40 mil operações. Há poucos meses, Jatene abandonou as salas de cirurgia. Tem consciência das limitações físicas impostas pelo tempo.

Isso não significa a aposentadoria. Sua agenda continua lotada. Todos os dias, atende pacientes no Hospital do Coração (HCor), em São Paulo. Circula pelos corredores numa cadeira motorizada ou apoiado numa bengala. Há três meses, foi submetido a uma cirurgia de coluna. Um estreitamento na medula provocava-lhe dores terríveis. Está em recuperação. “Se fosse dar valor a isso, ficaria inutilizado”, diz. “Nunca me queixo.”

Sempre que pode, ele dá uma escapada até a oficina do Instituto Dante Pazzanese, hospital cardiológico que mantém um laboratório de equipamentos médicos. Jatene tem lugar cativo e seu nome está inscrito na bancada. É lá que se revela uma de suas vocações mais genuínas e pouco conhecidas: Jatene tem cabeça de engenheiro e espírito de Professor Pardal. Trabalha, com entusiasmo, na criação de uma versão barata da caríssima bomba implantável capaz de substituir, temporariamente, o coração de pacientes inscritos na fila de transplante.

Jatene é um caso que a ciência quer explicar. O que garante o alto desempenho intelectual e a produtividade na velhice? Por que alguns octogenários mantêm o domínio das capacidades mentais, a criatividade e o interesse pelo trabalho, enquanto tantos estão em casa ou sofrem de depressão ou de alguma forma de demência? Por que gente ativa como ele ultrapassa a expectativa de vida do brasileiro (71 para os homens; 78 para as mulheres) e continua com motivação e capacidade mental para completar um século?

O Projeto 80+, uma parceria do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP) com outras unidades da USP, investiga se há algo de especial nos genes e no cérebro de octogenários saudáveis, como Adib Jatene.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

5 × 4 =