fbpx

Ave, mães que seguem aquecendo o fogo da vida

Por Maya Santana
Um biscoito frito que só ela sabia fazer

Um biscoito frito passado no açúcar como só ela sabia fazer

Déa Januzzi

Ingredientes: saudade, muita saudade do neto que amanheceu com vontade de comer biscoito frito feito pela avó, que partiu em 15 de dezembro de 2008. Lágrimas misturadas com um gosto conhecido de vazio. Quanto mesmo de farinha de trigo? Qual será a medida do açúcar refinado? São dois ou três ovos? Ah, ela ia se esquecendo da pitada de bicarbonato de sódio e do fermento em pó, por causa da dor que ainda não passou, apesar de estar completando sete anos sem a presença dela. Uma dor que estraçalha por dentro e dá lapsos de memória. Será que as tias mais velhas, que aprenderam a cozinhar com a mãe, ainda têm a receita?

A mãe liga para as irmãs, porque o neto de Amélia está com gosto de biscoito frito no céu da boca. Ele precisa acabar com essa sensação de perda que ficou grudada na língua, no afeto de cada dia.  Neste Dia das Mães, os habitantes desta casa amanheceram querendo matar a saudade dela com biscoito frito no café da manhã, nhoque no almoço e de sobremesa, cocadinha branca, que tem de ser espalhada pelo granito da pia da cozinha e só depois cortada em forma de losango – receitas de dona Amélia para espantar esse buraco que se abriu no estômago depois de sua partida.

Hoje a casa amanheceu com cheiro de biscoito frito passado no açúcar com canela. E que me perdoem os defensores da comida natural e da saúde, porque tem momentos que biscoito frito com açúcar e canela é o único remédio para a alma de quem sente falta. O neto principalmente, que conviveu com a avó até os últimos dias dela, que desde pequeno a via na cozinha fazendo os rolos de nhoque que, em seguida, eram cortadas e jogados na água fervente. Para o neto, era pura alquimia ver os nhoques subindo para a superfície depois de cozidos. Acrescente à receita, o molho de dona Amélia que transbordava no pirex por cima das porções generosas de nhoque.

A mãe liga para as irmãs mais velhas que confessam que se esqueceram da receita, mas prometem procurar nos cadernos antigos. Será porque as irmãs mais velhas se esqueceram de uma receita tão importante, que faz parte da culinária de família? Será que ainda não curaram as feridas pela partida da mãe? Será que ainda estão tentando esquecer os piores momentos? E por isso não se lembram das melhores recordações?

Mas o neto insiste, quer a receita para matar a saudade do biscoito frito com açúcar e canela. A tia mais velha, a primeira das filhas de Amélia, liga para dizer que não achou a receita. A outra também diz que não sabe, mas ri sem graça, tenta lembrar-se de um ingrediente ou outro. Mas a terceira das filhas de Amélia também desencantou-se da cozinha faz tempos. Ainda emudecida pela dor, a terceira filha parece dizer: e você, porque não tem a receita?. Ela, então, se surpreende com a própria falha, de não ter caprichado num caderno de receitas ditadas pela mãe.

Surpreendentemente, a caçula da família diz que tem todas as receitas da mãe anotadas. A caçula herdou não só as receitas, mas o jeito de fazer rápido, de cozinhar em seis trempes de uma só vez. Ela herdou a alegria da mãe em cozinhar, em fazer pratos que hoje ninguém ousa mais como frango com quiabo, língua cozida com legumes e tantas outras perdidas com os self-services, mas que não têm o tempero de avó.

Com orgulho, a caçula da família dita os ingredientes um a um, depois o modo de fazer. Tem que misturar tudo, amassar com as mãos, enrolar e fritar em óleo bem quente e, então, passar numa mistura de açúcar com canela. Pronto! O neto vai para a cozinha fazer os biscoitos fritos da avó. Ele faz e devora em segundos o conteúdo do prato. Mata a fome de comida da avó, se lambuza de afeto, espanta o medo de perder a referência, se aquece, e grita para a mãe: “Copia no seu caderno de receitas. Guarda, mãe, como se fosse segredo de estado”.

Com letra redonda e bordada, a mãe vai escrevendo e, de repente, percebe as mãos da própria mãe misturando os ingredientes, deixando pingar nas páginas restos de alegria, de união, dos almoços de domingo que não existem mais. Ela vê a mãe copiando as receitas: “Bolo de fubá, de Juracy”, “peixada, de Beatriz”, “suflê de cenoura, da dona Geralda” e de todas aquelas mulheres que passaram receitas umas para outras através de gerações, que eternizaram ingredientes repletos de amor, em forma de alimento, que saciaram a fome de filhos, netos e bisnetos, que confeccionaram manjares em nome dos deuses, que se inspiraram e recriaram, cada uma à sua maneira, o fazer cotidiano dos almoços, jantares, lanches e aniversários.

Ave Amélias, Claras, Juracys, Anas e Marias e tantas outras que se foram, mas continuam mexendo esse caldeirão de cheiros, de ervas, de temperos misturados com o doce e o azedo, suculentas comidas, que continuam a despertar os netos nas manhãs do presente. Ave, mães e avós que continuam a aquecer o fogo da vida no coração dos descendentes. Ave, Amélias, cujo modo de fazer não pode e não deve ser esquecido pelas futuras gerações. Ave, Amélias, que continuam deixando esse perfume pelo túnel da vida!

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

oito + 4 =

2 Comentários

Avatar
Ligia 10 de maio de 2015 - 02:35

por favor, vocês podem passar a receita do biscoito de açucar?
Escreveu uma história tão linda, mas esqueceu de dar a receita, com segredo e tudo.
Um grande abraço
Ligia

Responder
Avatar
Carmen Netto Victória 9 de maio de 2015 - 23:10

Ninguém escreve como você! Como essa crônica tocoumeu coração e trouxe minha mãe de volta! Feliz Dia das Mães!

Responder