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Bárbara Heliodora e a arte de fazer planos aos 90

Por Maya Santana

Com a grande amiga, Fernanda Montenegro

Com a grande amiga, Fernanda Montenegro

Jorge Félix, brasileiros.com.br

Não ia escrever sobre Barbara Heliodora. Mas no fim do dia de sua morte, aos 91 anos, ela insiste em me trazer para o computador. Minha resistência explica-se pelo tipo de convivência que tive com ela. Bem diferente dos leitores ou dos colegas do teatro. Não era uma relação profissional. Era uma relação de aluno para professora. Durante mais de cinco anos, aproveitei muito de seu envelhecimento ativíssimo e de seu conhecimento infinito. Sua classe social, sua geração, sua dedicação e amor aos livros a fizeram uma intelectual brasileira de nível internacional.

De 2001 a 2006, frequentei seu grupo de discussão sobre literatura shakespeariana, em São Paulo. Barbara, naquela época com 77 anos, desembarcava um sábado por mês em Congonhas, logo cedo, e invadia a sala onde nos reuníamos para ler o bardo arrastando sua mala e sempre com uma tirada sobre sua idade. Em nossa última conversa, por telefone, ela repetia a frase bem-humorada: “Fora o estado avançado de putrefação, estou bem e vou lançar outro livro”. Eu sabia que lá vinha mais Skakespeare, teatro grego, críticas.

Como sabia de meu interesse pelo envelhecimento, ela mandava, sem pena: “Escreve aí que envelhecer é uma merda”. Que nada. Os últimos anos foram duros com ela. Mas seu exemplo é excelente. Diz um pouco do Brasil, do ponto de vista de que poucos têm a chance de adquirir seu conhecimento. Por outro lado, nos ensina que só a Educação pode garantir mais possibilidades de trabalho quando o corpo avisa sobre o avanço de suas limitações. Mas Barbara jamais esmoreceu. “Eu preciso ganhar a vida até hoje e só sei fazer isso”. Fazia também por amor e, principalmente, por escolha.

Sobre a velhice, conversamos à época da estreia de Paulo Autran em sua última peça, “O avarento”. Barbara me confidenciou que assistiria, mas não queria escrever sobre a peça. Era duro para ela e para ele. “É difícil ver sua geração envelhecer”, me disse. Depois de ver a montagem me enviou um email. “Paulo não tem mais fôlego para o grito do avarento!” Como se sabe, o personagem de Molière precisa mostrar toda a sua indignação quando seu dinheiro é roubado. Mas Barbara ficou feliz em ter a oportunidade de escrever sobre os figurinos das 219 peças de sua amiga Kalma Murtinho, em livro da Funarte, em 2013. “Aos 93 anos, ela continua trabalhando!”, me escreveu.

Filha de Marcos Carneiro de Mendonça, o primeiro goleiro do Brasil e fundador do Fluminense, nossa paixão em comum, Barbara adorava futebol e era tão severa com o seu time quanto com os maus atores. “O Fluminense é uma praga com time pequeno, será possível? Parece que tem prazer em perder para time pequeno!”. Ou escrevia feliz quando o nosso Nense ganhava e colocava no assunto do email: “saudações tricolores”. Clique aqui para ler mais.

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1 Comentários

SAMUEL UEDA 16 de abril de 2015 - 21:09

Bárbara idade….

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