Bárbara Heliodora: poeta e mulher bem singular para sua época

Por Maya Santana

Mulher de Alvarenga Peixoto, Bárbara Heliodora é vista aqui em óleo sobre tela encontrado nos porões da antiga Fazenda Boa Vista, em São Gonçalo do Sapucaí

Elza Cataldo – 50emais

Mulher do poeta e inconfidente Inácio José de Alvarenga Peixoto. A associação ao marido vem quase sempre em destaque quando abordamos a história de uma mulher. Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira é mais um exemplo dessas mulheres casadas com homens que ficaram registrados na nossa historiografia.

Mas ao focar na sua trajetória de vida (Bárbara viveu de 1759 a 1819), encontramos uma mulher bem singular para a sua época. E com características que lhe conferem brilho próprio.

 

Para começar, ela já vivia com Alvarenga Peixoto com quem tinha uma filha de três anos, Maria Efigênia, antes do casamento. Atitude bem rara na época, no contexto conservador de São João del-Rei, em Minas Gerais, principalmente se for considerada a sua origem familiar ilustre.

Casa na cidade de São João Del Rei onde Bárbara Heliodora (1759 a 1819) viveu

Mais tarde, em 1789, quando eclodiu uma rebelião em Minas, ela demonstrou ter formação e discernimento suficientes para compreender a legitimidade das causas do movimento conhecido como Inconfidência Mineira e para respeitar a ousadia dos envolvidos.

Se não podemos lhe atribuir uma participação mais direta nas ações dos revoltosos, não podemos deixar de valorizar o fato de ter acolhido em sua casa as suas reuniões. Ou que, diante das ameaças de punição do governo português, de ter convencido o marido a não denunciar seus companheiros, demonstrando coragem e espírito de lealdade. O que não é pouca coisa tanto na época quanto agora.

Bárbara Heliodora pode também ser considerada uma mulher histórica por sua produção literária pioneira que, embora não extensa, marca a rara presença de mulheres escritoras na nossa literatura do século XVIII. Sua memória tem sido pesquisada e valorizada por outras escritoras que lhe sucederam.

Sua poesia é marcada pelo sentimento da maternidade e afeição à filha e aos três filhos. E acaba não escapando ao desejo de proteção e à necessidade de dar conselhos, muitas vezes inúteis, o que também compartilhamos enquanto mães, mas de intenção encantadora.

Meninos, eu vou ditar
As regras do bem viver;
Não basta somente ler,
É preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz saber é o pensar.

Atriz Christiane Antuña no papel de Bárbara Heliodora, no filme Vinho de Rosas, escrito, produzido e dirigido por Elza Cataldo

A maternidade também vai lhe inspirar uma outra poesia, desta vez tristemente dedicada à perda da filha Maria Efigênia, morta precocemente aos dezoito anos, em consequência de uma violenta queda de cavalo. Tal episódio foi abordado no meu filme Vinho de Rosas que traz a bela atriz Christine Antuña no papel da bela Bárbara Heliodora.

Tudo o mais são ideias delirantes;
procura ser feliz na Eternidade,
que o mundo são brevíssimos instantes.

Bárbara denominava sua filha “princesa do Brasil”, o que foi posteriormente objeto de uma delação formalizada nos Autos da Devassa da Conjuração Mineira. Entretanto, o professor de música de Efigênia, ele próprio também denunciado, em um ato de cumplicidade, salvou sua antiga patroa do infortúnio de ser também acusada do crime de lesa-majestade ao dizer que Bárbara Heliodora recomendara simplesmente que ele tratasse Efigênia de “princesa” e não de “princesa do Brasil”.  

Quando Alvarenga Peixoto é preso e condenando ao degredo perpétuo na África, Bárbara perde os bens do casal. Registros indicam um estado de loucura, possivelmente confundido com uma profunda depressão. Não era incomum a medicina da época, sistematicamente desconhecedora do corpo e da psiquê das mulheres, diagnosticar como demência o que seria uma imensa tristeza decorrente muitas vezes de lutos e perdas reais.

Efigênia, única filha de Bárbara Heliodora, morreu aos 18 anos. Esse óleo sobre tela também foi encontrado nos porões da antiga Fazenda Boa Vista

Há quem considere ainda sua pressuposta demência como uma manobra para reaver os seus bens, arquitetada junto com seu compadre e amigo João Rodrigues de Macedo. Este, sim, um amigo leal e solidário. Eles chegaram mesmo a estabelecer sociedade em propriedades destinadas à exploração de minério e agricultura.

Bárbara passou, então, a morar com seus filhos e uma irmã, Maria Policena, cujo filho ilegítimo fora criado por Hipólita Jacinta, o que, conforme já mencionei no texto sobre sua trajetória, aponta um possível vínculo entre as duas “mulheres de inconfidentes”.

Finalmente, todos os fatos da existência de Bárbara Heliodora talvez tenham sido ofuscados pelo poema de Alvarenga Peixoto, escrito já do seu exílio, que a coloca no papel não muito original de musa e que acabou por consagrá-la no universo literário no qual ela teria possivelmente preferido ser lembrada como poeta.

Bárbara bela,

do Norte estrela,

que o meu destino

sabes guiar,

de ti ausente,

triste, somente

as horas passo

a suspirar.

Isto é castigo

que Amor me dá.

 

Bárbara viveu seus ultimos anos na vila mineira de Campanha da Princesa, atual município de São Gonçalo de Sapucaí. Morreu de tuberculose, “tísica”conforme atesta sua certidão de óbito, e foi enterrada na Igreja Matriz da cidade.

Trailer do filme Vinho de Rosas:

Em meados da década de 1920, seus ossos foram transladados para o cemitério local e ali enterrados em vala comum. Não se sabe até hoje o paradeiro certo dos seus restos mortais.  Mais um mistério entre tantos outros que cercam as mulheres históricas brasileiras.

Ouça o áudio de Elza Cataldo:

 


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