Beth Goulart torna-se a própria Clarice Lispector

Por Maya Santana
Beth Goulart, 52 anos, é filha de dois grandes atores, Nicete Bruno e Paulo Goulart

A atriz, 52 anos, é filha de dois grandes atores, Nicete Bruno e Paulo Goulart

Maya Santana

Quando me convidaram para ver a peça “Simplesmente Eu , Clarice Lispector”, aceitei imediatamente. Primeiro, porque tenho verdadeiro fascínio pela obra da escritora nascida na Ucrânia e trazida pelos pais judeus para o Brasil, Alagoas, com apenas  um ano e dois meses de vida. Segundo, porque já havia lido várias críticas, todas altamente elogiosas ao desempenho da atriz  Beth Goulart. Na última terça-feira, lá fomos eu e duas amigas.  Chegamos e nos instalamos num camarote, com excelente visão do palco.

A cortina vai se abrindo lentamente. Ao fundo, trajando uma roupa clara, de costas para a plateia, a atriz devora um cigarro. Vira-se e começa a falar com aquele “erre” arrastado que caracterizava tão bem Clarice. É só ver  abaixo a última entrevista que a escritora deu, à TV Cultura, meses antes de morrer de câncer, aos 56 anos, no Rio de Janeiro.  Eu não imaginava  que alguém pudesse interpretar a enigmática Clarice Lispector com tamanha perfeição. Era como se a própria escritora estivesse ali, caminhando de um lado para outro, declamando seus escritos.

Beth Goulart estreou esta peça em Brasília, em julho de 2009. Na época, contou como se preparou para encenar o monólogo: “Mergulhei durante dois anos num processo de pesquisa para escrever este roteiro lendo tudo o que podia de sua obra e livros biográficos. Fiz dois workshops com uma psicanalista especializada em Clarice Lispector que analisa sua obra sob a ótica da psicanálise. Vi e ouvi tudo o que podia sobre ela, suas entrevistas, fotos, o depoimento no MIS, a entrevista póstuma na TV Cultura, enfim me tornei uma esponja de tudo o que se referia a ela.”

Quatro anos e meio depois de ter iniciado o espetáculo, cujo texto adaptou e também dirige, Beth simplesmente incorporou a autora de A Hora da Estrela e a Paixão, Segundo G. H. Mais de 700 mil pessoas já a viram atuar.  E ganhou vários prêmios importantes, inclusive, o Shell de 2009.  A simplicidade do cenário, os recursos técnicos, a iluminação e a dramaticidade do texto ganham muito com o figurino lindo criado por Betty Filipeck. “Simplesmente Eu,…” é um trabalho de arte inesquecível. Ao final, vi muito homem chorar. Claro, também não resisti. 

Se você tiver tempo para ir a apenas um espetáculo no Rio, não tenha dúvida, vá ver “Simplesmente Eu, Clarice Lispector”.

Assista à última entrevista concedida pela escritora à Júlio Lerner, da  TV Cultura de São Paulo, em janeiro de 1977.  Ela morreria em dezembro do mesmo ano:


CONTEÚDO PUBLICITÁRIO

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário





2 Comentários

Elza Cataldo 2 de dezembro de 2013 - 19:13

Maya, como uma das amigas que viram a peça junto com você, venho dar mais um testemunho da qualidade da interpretação da Beth Goulart e do trabalho da equipe que participou da montagem (com ênfase no belo e funcional figurino da Betty Filipeck). Clarisse Lispector inspira e consola. O que não é pouco para quem se aventura na arte, como nós. Adorei o relato!

Responder
Toninho Reis 2 de dezembro de 2013 - 00:39

Oh Maya amaria ver essa peca.bjs

Responder

Utilizamos cookies essenciais de acordo com a nossa Política de Privacidade e ao continuar navegando, você concorda com estas condições. Aceitar Leia mais