Brasil perdeu João Cabral de Melo Neto há 15 anos

Por Maya Santana
É considerado um dos 3 maiores poetas do Brasil pós-1940

É considerado um dos 3 maiores poetas do Brasil pós-1940

Nesta quinta-feira, 9 de outubro, completa 15 anos que o Brasil perdeu João Cabral de Melo Neto, o pernambucano que disputa com o mineiro Carlos Drummond de Andrade e o também pernambucano Manoel Bandeira o título de maior poeta brasileiro pós-1940. Em termos de talento literário sua linhagem é superior: primo de Gilberto Freyre, pelo lado paterno, e de Manoel Bandeira, pelo materno. Nasceu no Recife em 9 de janeiro de 1920 e publicou seu primeiro livro, Pedra do Sono, em 1942. Assista à reportagem sobre o poeta e leia um de seus poemas mais extraordinários, Morte e Vida Severina, retratando a dureza da realidade nordestina. Primeiro, a reportagem:

Morte e Vida Severina

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.


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