Brasil, um país com vergonha da própria língua

Por Maya Santana

Português

Maya Santana

Morei muitos anos na Inglaterra. Quando voltei ao Brasil, em 2002, a primeira coisa que me chamou a atenção foi como as palavras em português estavam sendo substituídas, sem nenhuma justificativa ou pudor, por vocábulos em inglês.  Já comentei isso aqui. Não conseguia entender porque “apagar” tornou-se “delete”;  “( feito) por” virou “by”;  “bicicleta” passou a ser chamada de ‘bike”, experimentar um carro numa concessionária mudou para “test driving”; “liquidação” virou sinônimo de “sale” ou “off”; “animal de estimação” transformou-se em “pet”; e “fake” tomou o lugar de “falsificado”.

O tempo passou e o absurdo só aumentou: li  estes dias  em um jornal do Rio que uma casa de espetáculos da cidade  está funcionando em regime de “soft openning”. Como assim?… Na versão digital da revista Veja BH, lá está a coluna “Book do Dia”. O que há de errado com “Livro do Dia”?

Sob o título “É o cacete”, o colunista Ancelmo Gois publicou no domingo a seguinte nota; “Veja como o Brasil abusa do uso da língua inglesa. Um festival de pipas que começou  ontem em São Paulo tem o nome de “Kite in Night Fest.”  É demais, não?

Inconformado com o descaso em relação a nossa língua pátria, o escritor Luis Fernando Veríssimo também  se  manifestou estes dias, na crônica que escreve semanalmente para jornais:

“Passei por uma loja que vendia roupa “plus size” para mulheres. Levei algum tempo para entender o que era “plus size”. “Plus”, em inglês, é mais. “Size” é tamanho. Mais tamanho? Claro: era uma loja de roupas para mulheres grandes e gordas, ou com mais tamanho do que o normal. Só não entendi isto logo porque a loja não ficava em Miami ou em Nova York, ficava no Brasil.

Não sei como seria uma versão em português do que ela oferecia, mas o “plus size” presumia 1) que a mulher grande ou gorda saberia que a loja era para ela; 2) que a mulher grande ou gorda se sentiria melhor sendo uma “plus size” do que o seu equivalente em brasileiro, e 3) que ninguém mais estranha que o inglês já seja quase a nossa primeira língua, pelo menos no comércio.

A invasão de americanismos no nosso cotidiano hoje é epidêmica, e chegou a uma espécie de ápice do ridículo quando “entrega” virou “delivery”. Perdemos o último resquício de escrúpulo nacional quando a nossa pizza, em vez de entregue, passou a ser “delivered” na porta. Isto não é xenofobia nem anticolonialismo cultural americano primário, nem eu acho que se deva combater a invasão com legislação, como já foi proposto.

O inglês, para muita gente, é a língua da modernidade. Todos queremos ser modernos e, nem que seja só na imaginação, um pouco americanos. E nada contra quem prefere ser “plus” a ser mais e ter “size” em vez de altura ou largura. Só é triste acompanhar esta entrega – ou devo dizer “delivery”? – de identidade de um país com vergonha da própria língua,” conclui Veríssimo.

É isso o que está acontecendo: estamos com vergonha da nossa própria língua! Esse comportamento só pode ser atribuído ao que Nelson Rodrigues chamou de nosso * “complexo de vira-lata”. Uma pena!

* “Por ‘complexo de vira-lata’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo” – explicação do próprio Nelson Rodrigues.


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4 Comentários

JASON TÉRCIO 6 de junho de 2013 - 15:28

É isso aí, Maya. Pior ainda é ouvir até jornalistas abrasileirando mecanicamente palavras inglesas que têm equivalentes em português, como “locais” (locals) em vez de nativos, “audição” (audition) em vez de teste. Em parte é preguiça mental, mas reflete principalmente uma mentalidade medíocre tipicamente brasileira. E a prova disso é que, ao contrário do que aparenta esse uso exagerado palavras em inglês, a maioria dos brasileiros não sabem falar nem escrever o idioma. Uma pesquisa feita em 2011 pela Education First em 52 países de todos os continentes mostrou o Brasil em 46º lugar em nível de habilidade em inglês. Suécia, Dinamarca, Holanda, Finlândia e Noruega lideram o grupo de proficiência mais alta. Entre os países emergentes, o Brasil é o pior: a Índia ficou em 14º lugar, a Rússia em 29º e a China em 36º. Na América Latina, nove países estão à frente do Brasil, como Argentina (20ª posição). Vc deve se lembrar de mim, trabalhei na BBC durante 4 anos nos anos 80. Meu primeiro livro (tenho 7 publicados), “A pátria que o pariu”, foi um romance passado em Londres e boa parte dentro da BBC. Bons tempos. Um abraço ao Zeca Santana.

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admin 10 de junho de 2013 - 00:51

Querido Jason, lógico que me lembro de você. Não sabia que tem tantos livros publicados. Gostaria muito de lê-los. Poderia encontrá-los em livrarias do Rio? Muito bom encontrá-lo aqui. Volte sempre. Grande abraço e muito sucesso pra você! Maya.

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Maria Cavalcanti 2 de junho de 2013 - 10:22

Aos quinze anos, estudando arqueologia, aprendí que uma cultura superior gradualmente absorve cultura inferior… o fenômeno é histórico.

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LuiZ FernandoS 31 de maio de 2013 - 20:07

E o ‘fast food’? Parece que a comida é que está com pressa, vem correndo e você tem agarrar logo. Refeição ligeira não é muito mais elegante?

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