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Carla Madeira, a mineira que se tornou um fenômeno na literatura

Depois de três romances e mais de 1 milhão de exemplares vendidos, o próximo livro, intitulado Quando, uma trama ambientada na década de 1980, será lançado em agosto

20/05/2026
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Os romances de Carla Madeira são intensos e mergulham na complexidade da experiência humana. Foto: Marcia Charnizon

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Carla Madeira é realmente um fenômeno. Num país onde, infelizmente, ainda se lê pouco, ela conseguiu a façanha de vender mais de um milhão de exemplares dos três romances que lançou até agora – Tudo é Rio, A Natureza da Mordida, Véspera  E planeja lançar um quarto, “Quando”, em agosto.

Além de mais um livro no forno, Carla, de 61 anos, aguarda o lançamento da adaptação de Véspera pela HBO, previsto para este ano. Seu romance de estreia “Tudo é Rio”, lançado em 2014, é o mais vendido. O sucesso estrondoso transformou a obra em um dos maiores fenômenos literários do Brasil nos últimos anos.

“A gente passa a vida pelejando com o dilema de existir ou desistir, com o que é bom e o que é ruim, o certo e o errado, a morte e a vida. Essas coisas não se separam. O lugar que dói é o mesmo que sente arrepios.” Esse é um dos trechos de Tudo é Rio, um livro de escrita  sensível e linguagem diferenciada, que não deixa indiferente quem o lê. Há os que amam. Mas há também os que o rejeitam.

Leia mais sobre Carla Madeira e sua obra nesta reportagem de Giulia Granchi, para a BBC News Brasil:

As primeiras páginas que deram origem a Tudo é Rio, o romance mais popular de Carla Madeira, foram escritas 14 anos antes de sua publicação.

Depois de criar uma cena especialmente violenta, o processo da autora entrou em hiato. Mais de uma década depois, no entanto, o livro foi concluído em apenas oito meses — “jorrando, em processo de transbordamento”, como ela descreve em entrevista à BBC News Brasil.

“Eu escrevia direto. Meus filhos eram pequenos, eu chegava em casa depois de uma jornada de trabalho pesada [Madeira era publicitária], botava os meninos para dormir e escrevia. Era só o que eu fazia nos finais de semana também. Em oito meses, eu escrevi o livro, na ordem que o leitor lê. Então é um jorro mesmo, é um transbordamento”, diz.

Mais leitores

“Acabei o livro, acabei um casamento, então também foi muito catártico para mim. Eu sei que organizei muitas coisas, muita coisa inconsciente veio. Foi um livro sem contenção nenhuma.” A mineira de Belo Horizonte afirma que não imaginava o alcance que a história teria — a primeira tiragem teve apenas 700 exemplares. “Eu achava que eu ia ter que panfletar no sacolão, ia ter que sair dando meu livro na porta da academia”, brinca.

Hoje, com três romances publicados e um quarto “saindo do forno”, a autora já ultrapassou a marca de 1 milhão de livros vendidos no Brasil e aguarda o lançamento da adaptação de Véspera pela HBO, previsto para este ano.

Com personagens ambíguos e tramas que alimentam discussões polarizadas nas redes, o sucesso de Carla Madeira também acompanha um movimento mais amplo: o interesse por autores brasileiros contemporâneos tem ganhado fôlego nos últimos anos, impulsionado por fenômenos digitais como o BookTok e pelo aumento da circulação de obras nacionais entre novos leitores.

Amor e ódio

No BookTok, o “lado literário” do TikTok, a obra de Carla Madeira virou terreno de reações intensas. Não dá para se encantar demais com o amor nem se magoar demais com a raiva”, diz. Ela conta que evita acompanhar de perto as reações nas redes, sobretudo quando deixam de dialogar com a obra: “Tem pessoas que são agressivas, que não ficam na literatura, que querem agredir o autor.” Há quem ame, quem rejeite — e quem tente enquadrar os personagens a partir de uma régua moral.

É verdade que os personagens criados por ela — e as circunstâncias em que são colocados — quase inevitavelmente despertam julgamentos no leitor. É difícil não reagir: achar absurdo que alguém tome determinada decisão, perdoe certos atos ou trate um filho daquela maneira.

Leia também: Brasileira é finalista de um dos prêmios literários mais importantes do mundo

Mas Madeira diz que a ideia não é concordar ou discordar com as ações dos personagens, ‘escolher um lado.’ Ela defende que o papel da arte está em provocar deslocamentos — e não oferecer respostas fechadas. “Eu não quero simplificar, quero acolher. A grande experiência artística é acolher a subjetividade, acolher as possibilidades da existência humana, e não as certezas, não as verdades.”

Julgamento moral

Para Madeira, há uma tendência de confundir a experiência literária com julgamento moral: “Não é um manual. É uma imersão numa experiência particular.”

Nesse sentido, o incômodo também faz parte da leitura. “Acho que o barato é esse: a gente consegue se pôr em um lugar que, na vida, não consegue. A literatura não pode se colocar num lugar utilitário. Você não pode escrever um livro como se fosse um manual.”

Se a recepção dos livros passa pela subjetividade de quem lê, a escrita, no caso de Carla Madeira, também nasce longe de fórmulas. “Eu não tenho uma pauta. Nunca sentei para escrever pensando em tese, em provar alguma coisa. É uma imersão numa experiência particular.”

Processo criativo

A autora conta que o primeiro romance foi construído de forma quase intuitiva — e que só depois, com a experiência, passou a reconhecer melhor seus próprios caminhos de criação. Ainda assim, resiste a organizar demais o processo.

Essa recusa ao maniqueísmo aparece diretamente nos personagens. “Eu não queria nenhum personagem que fosse só legal, só bonzinho”, explica, citando o ‘elenco’ de Tudo é Rio.

Leia também: O prazer de ler e despertar memórias

“Você vai para a Lucy, fica com raiva dela, mas tem um momento em que ela se humaniza. Vai para o Venâncio, você sente ódio, quer se vingar, mas de repente entende um lado dele também. E a Dalva, que é vítima, também quer promover o castigo, a punição dela.”

“Anoto muito”

Segundo Madeira, é esse movimento que prende o leitor — mesmo quando há rejeição. “Tem leitor que não gosta do final, mas fala: ‘não consegui parar de ler’. Eles são pegos por uma espécie de correnteza.”

Ela reconhece que, com o tempo, passou a ter mais consciência técnica do próprio trabalho, mas sem abrir mão do impulso inicial.

“Às vezes vem uma imagem, uma frase, alguma coisa que eu ainda não sei o que é, e eu guardo. Eu anoto muito. Tenho um caderninho. Quando estou no processo, brinco com quem convive comigo que é necessário ter cuidado, porque qualquer coisa falada pode ir parar nas minhas páginas.”

Adaptação para a TV

Véspera, publicado em 2021, chegou com um teaser quase irresistível: Vedina, uma mulher adulta, decide, em um momento de descontrole, abandonar o filho, largá-lo em uma via pública. Pessoalmente, foi o primeiro livro que me fez chorar em muitos anos — e um dos motivos pelos quais concordo com Carla Madeira quando ela diz que o papel da literatura é nos fazer sentir para além das possibilidades da nossa própria vida.

Nos colocar em contato com histórias, dilemas e emoções que talvez nunca experimentaríamos pelas circunstâncias da nossa existência e, assim, ampliar nosso repertório humano. Agora, a trama fura a bolha literária e chega para o público que prefere esperar a história ganhar a versão visual — será lançada na HBO Max no segundo semestre de 2026, com um elenco de peso que inclui Bruna Marquezine, Gabriel Leone, Camila Márdila e Yara de Novaes.

Madeira acompanhou de perto o processo de adaptação — inicialmente como consultora, depois também participando do desenvolvimento do roteiro. A escolha da diretora, Joana Jabace, foi decisiva para que ela aceitasse mergulhar no projeto.

“Bons” e “maus”

“Ela é mãe de gêmeos, o livro tem uma violência muito grande contra a mulher, e eu senti que ela teria maturidade, delicadeza e sensibilidade para conduzir aquilo”, diz.

A autora conta que uma de suas maiores preocupações durante a adaptação era preservar justamente a ambiguidade moral dos personagens, sem transformar a trama em uma divisão simplista entre “bons” e “maus”.

Ela conta que se emocionou ao acompanhar leituras de mesa e gravações. “Me impressionei muito com os atores. Com a pausa para dar um texto, com a sensibilidade de um fotógrafo, de uma atriz, de uma direção. Teve momentos em que eu chorei vendo cenas que eu mesma tinha escrito.” Ao ver a história traduzida para outra linguagem, diz ter se confrontado novamente com a brutalidade da própria obra.

Muito violento

“Quando estou escrevendo, a violência é mediada pela linguagem. Eu sou uma pessoa muito da textura da linguagem. Mas, vendo aquilo no vídeo, teve hora que pensei: ‘Meu Deus, isso é muito violento. Como eu dei conta de escrever isso?'”

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Ainda assim, para ela, é justamente a arte que permite encarar o horror humano sem desviar os olhos.

“É a linguagem que nos ajuda a olhar para esse lugar terrível. Sem a linguagem, a gente não daria conta de olhar para esse horror que a gente é capaz — e também para aquilo de extraordinário que a gente é capaz.”

Quarto romance 

Depois de três romances e mais de 1 milhão de exemplares vendidos, o próximo romance de Madeira, intitulado Quando, uma trama ambientada na década de 1980, já está em fase avançada. A obra será publicada pela Editora Record e tem previsão para agosto de 2026. A expectativa é que a trama mantenha as marcas que fizeram sua obra ganhar leitores: personagens ambíguos e dilemas humanos.

Recusando dar spoilers, Madeira compartilhou com a reportagem apenas que a história se trata de uma mãe que decide denunciar o próprio filho, menor de idade, por um crime. “Esse quarto livro já está sendo escrito em um contexto diferente. Acho que amadureci como escritora nesses dez anos. Criei novos recursos, compreendo melhor a literatura, os recursos e as estratégias de escrita, e amadureci também nas minhas escolhas, no que eu quero.

“Mas, para mim, o mais importante continua sendo preservar esse lugar e essa alegria de escrever — essa sensação de estar entregue, de estar fazendo uma coisa com a qual eu tenho adesão, com coragem de fazer, sem racionalizar demais, sem querer julgar muito. São tantas opiniões, tantas controvérsias, esse ‘é bom’, ‘é ruim’. E eu quero preservar meu lugar de escrita. Quero gostar do processo, ter liberdade para sentir prazer nele e também para dar conta do sofrimento que ele traz.”

Leitura no Brasil

O sucesso de Carla Madeira acontece em um momento curioso do mercado editorial brasileiro: ao mesmo tempo em que pesquisas mostram um país que ainda lê pouco, a literatura nacional contemporânea parece atravessar um raro momento de efervescência.

Em 2024, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro em parceria com a Fundação Itaú e o Ministério da Cultura — com coleta realizada pelo Ipec — apontou que 47% da população com 5 anos ou mais se declarou leitora, o equivalente a cerca de 93,4 milhões de pessoas.

O levantamento mostrou também que 53% não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores e que o país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos. Em relação a 2019, houve queda de 5 pontos percentuais na proporção de leitores, e a série histórica indica recuo de 55% dos brasileiros em 2007 para 47% em 2024.

Autores brasileiros

Ao mesmo tempo, o mercado editorial vê sinais de recuperação. O Panorama do Consumo de Livros no Brasil, da Câmara Brasileira do Livro com a Nielsen BookData, mostrou que, em 2025, 18% da população adulta comprou ao menos um livro — alta de 2 pontos percentuais em relação a 2024, o equivalente a cerca de 3 milhões de novos consumidores.

Nas redes sociais, em clubes de leitura e em festivais literários, autores brasileiros contemporâneos passaram a ocupar um espaço que parecia mais raro há alguns anos.

Em 2025, Ana Paula Maia se tornou a única representante do Brasil e da América Latina entre os finalistas do International Booker Prize, um dos mais prestigiosos prêmios da literatura mundial. Jeferson Tenório venceu o Prêmio Jabuti com O Avesso da Pele e ganhou projeção internacional; nomes como Aline Bei, Itamar Vieira Junior e Geovani Martins passaram a circular com mais força em traduções, festivais e listas internacionais.

Sucesso em Portugal

Para Madeira, há uma sensação de movimento coletivo acontecendo. “É muito bom quando a gente cria essa onda, esse volume. Muita gente escrevendo, sendo premiada, publicando fora, brilhando, ocupando espaço em clubes de leitura, em festivais, em programas de literatura. Todos os dias tem um convite para uma roda, uma entrevista, uma festa literária. Está muito interessante ver isso acontecer.”

Ela cita especialmente a recepção em Portugal, onde Tudo é Rio venceu o Prêmio Bertrand de Livro do Ano. “Alguns editores me disseram que o livro abriu uma atenção para a literatura contemporânea brasileira, porque eles publicavam muito pouco.”

A autora vê esse crescimento quase como um efeito em cadeia. “Uma autora falou do meu livro para um editor, ele me publicou, depois meu livro ajudou outro, e outro… É muito bonito entrar numa livraria e ver literatura brasileira ocupando aquelas mesas de destaque.”

Mais gente tem que ler

Ainda assim, ela ressalta que o entusiasmo não apaga um problema estrutural. “No Brasil se lê muito pouco. A gente tem um déficit imenso. Mais gente tem que entrar, mais gente tem que ler.”

Na visão da escritora, uma das formas de ampliar esse alcance passa justamente pela recomendação espontânea entre leitores. “É muito difícil furar a bolha. Eu lembro dos meus 700 exemplares e pensava que ia ter que panfletar livro em porta de academia. Quando alguém lê e fala ‘isso aqui é maravilhoso’, muda tudo.”

A reportagem pediu para Carla Madeira indicar alguns títulos justamente para quem tem o objetivo de ler mais. Os livros escolhidos por ela:

Para quem está de luto…

Diário de Luto, de Roland Barthes

Para quem terminou um relacionamento…

Poeta chileno, de Alejandro Zambra. “Justamente para não pensar no relacionamento (risos).”

Para quem está apaixonado…

Sobre a Terra Somos Belos por um Instante, de Ocean Vuong.

Para quem gosta de personagens ambíguos…

Primo Basílio, de Eça de Queiroz

Para quem quer chorar…

A vida pela frente, de Romain Gary

Para expandir horizontes….

Imortalidades, de Eduardo Giannetti e Quando Deixamos de Entender o Mundo, de Benjamín Labatut.

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Iniciei minhas atividades como jornalista na década de 70. Trabalhei em alguns dos principais veículos nacionais, como O Estado de S. Paulo e Jornal de Brasil. Mas a maior parte da minha carreira foi construída no exterior, trabalhando para a emissora britânica BBC, em Londres, onde vivi durante mais de 16 anos. No retorno ao Brasil, criei um jornal, do qual fui editora até me voltar para a internet. O 50emais ganhou vida em agosto de 2010. Escolhi o Rio de Janeiro para viver esta terceira fase da existência.

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