Carta em dor maior a um pai – Déa Januzzi

Por Maya Santana
Guará, ou Perigo Louro, um dos maiores ídolos do Atlético mineiro

Guará, ou Perigo Louro, ídolo do Galo

Aqui em casa está tudo bem, mas não ouço mais Carlos Gardel, o cantor de tango que você tanto gostava. Nem Cauby Peixoto, o preferido de seu único filho homem, Luiz Carlos. Ele partiu, em maio de 2008, depois de uma cirurgia do coração. Ele também pai, como você, morreu por causa do coração. Foi embora, pai, apesar de toda a evolução da Medicina. Antes da cirurgia, pai, eu o acalmei, porque ele estava com medo, pois a história se repetia. Fui ao Socor, o mesmo hospital, pai, que te atendia nos momentos de descompassos do coração. Disse para o Luiz, meu irmão, que não se preocupasse, porque em mais de 30 anos, as cirurgias do coração avançaram, em termos de diagnóstico, técnicas e recuperação do paciente. Ele sorriu pai.

Eu estava lá, pai, pertinho dele. Disse que rapidinho, ele voltaria para sua casa, em Sete Lagoas, que tudo ficaria bem. Você sabe pai, como aquela casa, aos pés da serra de Santa Helena, era tudo pra ele. Você sabe pai, como o Luiz amava aquela casa, com jardins, piscina e churrasqueira, um espaço encantado para encontrar os muitos amigos dele. Você se lembra pai, como ele lutou para construir a casa dos sonhos dele, com gruta de pedras para Nossa Senhora e a varanda com o canto de todos os pássaros?

Eu o acalmei, pai, rezei, roguei por ele, negociei com Deus, mas não adiantou. Alguns dias depois da cirurgia ele se foi, pai, não resistiu à infecção hospitalar e às bactérias. O pior, pai, é que ele foi sepultado no Dia das Mães do ano de 2008. E sabe quem estava lá? Sabe quem roubou a cena no cemitério de Sete Lagoas, pai? Amélia, sua mulher por mais de 40 anos. Perto de completar 91 anos, pai, ela viu o único filho homem de vocês ser enterrado, aos 64 anos, só dois a mais do que a idade em que você também foi embora.

Ela gritava pai, apoiada na bengala de seus 91 anos: “Vivi 91 anos, meu Deus, para enterrar um filho”? Foi assim, pai, diante dos amigos, parentes e das outras quatro filhas, que ela enfrentou a morte de Luiz Carlos. Não se esquivou de ir ao enterro nem de jogar uma flor em cima do caixão daquele filho, pai, que chegava todo domingo na casa dela, com vasos de pimenta, quilos de lombo e de filé mignon, com peixinhos ornamentais para presentear a mãe.

Aqui em casa está tudo bem, pai, mas depois da morte do filho, Amélia voltou para casa e era outra pessoa. Dormia abraçada com um porta-retratos, cuja foto marcava a formatura em Direito do filho. Ele, pai, estava lindo com a beca de formatura, mas Amélia não conseguia mais dormir. Sempre abraçada ao porta-retratos. Não se emocionava mais com nada. Até que em 15 de dezembro de 2008, sete meses depois da partida do filho, ela se foi também, pai. Numa madrugada de muita chuva, como se o céu estivesse desabando, pai.

Na carteira do Galo

Na carteira do Atlético

Ela hoje, pai, está lá juntinho com você. Na lápide, pai, está escrito: Guaracy Januzzi (1916-1978) e do lado: Amélia Lage Januzzi (1917-2008). Dá para acreditar, pai? Aqui em casa está tudo bem, mas eu virei órfã adulta: sem pai, sem mãe e sem irmão. E o restante da família? Desmoronou pai, depois de tantas perdas. Cada um vive no seu canto.

Nossa pai esqueci de dizer que suas filhas estão envelhecendo. Vera, pai, vai fazer 73 anos. Rosina completa 70 em janeiro de 2015. Eu, pai, fiz 62. E a mais nova, Kátia está pertinho dos 60, você acredita nisso? Quando você foi embora, eu estava com apenas 26 anos, era jovem, cheia de sonhos e de vida e de emoções. Há 36 anos, pai vivo sem a sua presença, mas pude aproveitar mais a minha mãe. Sem ela, já se vão seis.

Aqui em casa está tudo bem. Os pássaros que Luiz Carlos me presenteou continuam cantando, porque o seu neto Gabriel, que você não conheceu, cuida deles como se fosse o próprio tio ou o avô. Você se lembra pai, do seu pássaro-preto? Pois é, pai, Gabriel, hoje com 30 anos, gosta de pássaros, mas preferia vê-los fora das gaiolas. Gabriel, às vezes, pai fica como um pássaro preso na gaiola sem cantar. Será que é saudade do avô que ele não conheceu?

Mas olha só, pai, ele tem a mesma mania que você. De ouvir as partidas do Clube Atlético Mineiro, no rádio. Em pleno século 21, pai, ele diminui o som da televisão e aumenta o da Rádio Itatiaia. Ah, pai, por falar em Rádio Itatiaia, o troféu Guará que leva o seu nome já completou 51 anos de existência. Todos os anos estamos lá para lembrar o seu nome. A solenidade agora, pai, é no Bufê Catarina, onde são premiados os melhores de futebol. Hoje, pai, quem fala sobre você é Emanuel Carneiro, o dono da rádio. Ele lembra aos jogadores de hoje, pai, que você é até hoje um dos maiores craques do Clube Atlético Mineiro. Para ser mais exata, o quarto maior artilheiro do Atlético de todos os tempos, com 168 gols. A festa é bonita, pai. Tem horas que me dá preguiça de ir lá, mas vou assim mesmo. Só para te homenagear.

Depois da sua partida, pai, você ganhou mais netos. Ricardo nasceu um ano depois de sua morte. E não é, pai, que ele se parece com você. Os cabelos louros e o jeito são seus, pai, igualzinho. Depois dele veio Gabriel, meu filho, pai, você ia gostar dele, porque se parece comigo. E é apaixonado pelo Atlético. Quando falam o seu nome, pai, ele se ergue, se emociona e diz com orgulho. “Guará é meu avô”.

Aqui em casa está tudo bem, pai, apesar das perdas que foram muitas. Agora, são meus amigos que estão indo embora. Você se lembra pai, até o escritor Roberto Drummond partiu e me deixou sem mestre, sem chão, sem norte. O doutor Célio de Castro, pai, também, partiu e me deixou sem referências políticas e éticas. Tanta gente que partiu depois de você, pai, que não dá nem pra contar.

Nenhuma de suas filhas, pai, prepara mais as comidas que Amélia fazia tão bem pra você. Nada de língua assada com legumes, nada de frango ao molho pardo com quiabo e angu. Não, pai, ninguém gosta mais desses pratos, afinal, ninguém mais se reúne para um almoço. Nem o de Natal, pai, você acredita? Estão todos sem raízes, como uma árvore balançando ao vento. Sem afeto de família, pai.

Aqui em casa está tudo bem. Você tem mais seis bisnetos. As duas Luizas, de Mariana e Carolina; Rafael, de Adriana; Caíque e Artur, de Eduardo, e Gabriela, de Cláudio. Eles estão bem, pai, vão crescer sem você e Amélia, mas pode ficar tranquilo: não vou me cansar de tanto contar a sua história para todos eles.
Neste Dia dos Pais, gostaria de dizer que você se foi há 36 anos, mas continua tatuado em meus gestos, olhares, no jeito de falar e de ser. É como se um pedaço seu continuasse em mim. Até a mania de conferir duas, três vezes, se as portas estão bem trancadas, herdei de você, pai. Até hoje confiro portas e janelas antes de sair e de dormir. Até hoje ouço o canto do pássaro- preto, seu preferido. Vejo-o fazendo a barba caprichosamente no espelho do banheiro. Vejo os seus ternos nas gavetas secretas da minha memória.

Aprendi muito com você, pai, até que a glória é efêmera, passa. E até hoje repito as palavras de Ary Barroso, no prefácio do seu livro Cabeçada Fatal: “A fama teve inveja de Guará, mas essa é a história de um astro que permanece no velho engaste azul do firmamento, onde vive e viverá a saudade.” Aqui em casa, pai, está tudo bem. Só que eu estou sangrando!


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4 Comentários

Dirce Saleh 12 de agosto de 2014 - 15:12

Lendo isso a meu marido, ele disse me que não deve o ter conhecido Mas o respeita muito E o tem em gloria pelo futebol. Viu? Falou na taça Guará Ei amiga, seu pai se imortalizou tão jovem ainda. Seus feitos são lembrados por gerações que amam o futebol. Muito chic,isso. Ele não está mais entre nós ,mas onde estiver deve estar adorando saber disso rsrsrsrs!
Rubem Alves dizia que não tinha medo de morrer. Mas não queria deixar de viver.Pois a vida é boa demais. Podemos pensar como ele Mas penso que ninguém morre, todos continuam vivendo diferente da gente. Então, feliz dia dos pais para nós….
Sejamos felizes enquanto pudermos, eles só foram primeiros , vai chegar nossa vez rs Nos preparemos, amiga. Bjins
Dirce Saléh

Responder
Dirce Saleh 12 de agosto de 2014 - 14:53

” E até hoje repito as palavras de Ary Barroso, no prefácio do seu livro Cabeçada Fatal: “A fama teve inveja de Guará, mas essa é a história de um astro que permanece no velho engaste azul do firmamento, onde vive e viverá a saudade.”
Querida Dea, conheci seu pai ,através do que escreveu ,senti seu lamento, escutei seu pranto, amiga.Queria estar do seu lado para consolá- la .Se é que essas coisa do coração tem consolo. Mas está frase que usou em seu texto é um grito de guerra de alguém que o amava também Sei através desta frase que ele foi um lider , um héroi e deve ter sido para muitas pessoas ,me parece para uma torcida ,Não é?.
Engraçado como as coisas refletidas parecem.Os pais são imortais, o tempo todo que a li, via em suas palavras, muito de mim .Por isso amei seu texto. Adoro família e assim como a sua depois da ida de meus pais, irmão, irmã, aconteceu a mesma coisa .Parece que para apagar tantas lembranças , que eu não quero que morram, formaram suas familias ,para lá, Cada um na sua. Por isso nos sentimos orfãs adultas… Nossos sentimentos são carentes, aí sofremos mais do que os outros E me pego muitas vezes pensando que eles é que não tem sentimentos Mas quero amá -los e afasto esses pensamentos de mim rsrsrsrsrs É muito bom amar. Sei que fui mais amada, mas fico feliz pelo pouco que me dão de amor.Graças a DEUS….Meu marido sempre me foi um grande pai, não o quero meu pai, nunca quis, mas deixei sê-lo por muitos anos, mesmo brigando com isso, Foi bom, a gente sabe tão pouco do futuro,Hoje , tem o ajudado a viver, não sei até quando ,mas de vagar um alzime vem chegando para ele. Adianta chorar? .Sei que não, assim compenso, por tudo que ele fez por mim, ainda é pouco o que tenho feito por ele: deixo -o viver enquanto der conta.
A vida é assim e sei ,hoje , repeti a pouco: Minha irmã dizia quero morrer nova, pois ser velha é depender dos outros E se foi Entendo que ela tem razão, seu pai ,os meus, meu irmão ,o seu Eles foram privilegiados , não nos deixaram foram premiados em suas jornadas. Oi viu que seu texto fez, disparei e nem sei mais parar. Obrigada , amiga Vc é divina. Sou saudosista e gosto de lembrar das coisas rsrsrsrs Meu carinho, sinta meu forte abraço. Bjins
Dirce Saléh

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Ana Maria 11 de agosto de 2014 - 15:22

Déa , quando eu crescer, quero ser igual a você !!!!!!! Ler suas crônicas mexe com todos os meus sentidos . Obrigada .

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ÁUREA GONTIJO 11 de agosto de 2014 - 03:03

LINDA HOMENAGEM !!!!!! PARABÉNS!!!

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