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Com a cidade de São Paulo entranhada na alma

Por Maya Santana

A maior metrópole brasileira completou 460 anos neste sábado

A maior metrópole brasileira completou 460 anos neste sábado

A maior metrópole brasileira completou 460 anos neste sábado

A maior metrópole brasileira completou 460 anos neste sábado

Uma declaração de amor do paulistano Dráuzio Varella à São Paulo, no aniversário de 460 anos da cidade que eu também amo. O artigo foi publicado na Folha de São Paulo neste sábado.

Leia:

A cidade em que passamos a infância nos perseguirá pela vida afora.  Podemos mudar para outras regiões ou países distantes, viver por décadas na neve ou no sol escaldante, na calmaria da província ou no burburinho da metrópole, não importa, as ruas de nossos primeiros passos estarão em cada esquina.

Nasci no Brás, bairro cinzento, com ruas de paralelepípedos, em que o apito das fábricas marcava a rotina dos operários com as marmitas, os afazeres das donas de casa e da molecada que passava o dia comigo no futebol na calçada da fábrica, em frente à casa em que morávamos. Numa época em que as famílias levavam as cadeiras para fora nas noites de calor e as contas de luz, água e telefone eram pagas no centro, a cidade já havia crescido tanto que para não me perder na multidão da rua Direita, Praça da Sé ou viaduto do Chá, precisava agarrar firme a mão enorme de meu pai.

A Avenida São João, no centro da cidade, fotografada em 1952

A Avenida São João, no centro da cidade, fotografada em 1952

São Paulo seguiu em delírio de grandeza. As fábricas emigraram, a prestação de serviços virou fonte de riqueza, avenidas, lojas, bancos e supermercados chegaram a bairros distantes. Moradias e escritórios cresceram na vertical. Para ver a lua, corro risco de vida debruçado na janela do meu prédio. É um formigueiro de gente afobada. O trânsito insuportável não respeita horário nem fluxo e contrafluxo. A violência urbana, enfermidade contagiosa, virou fobia universal. Construímos mais cadeias superlotadas.

São Paulo é sobretudo feia. Esbanja mau gosto no neoclassicismo brega dos edifícios com nomes franceses, nas vitrines, no desleixo generalizado com as fachadas, nas grades que aprisionam famílias, na pichação grosseira, na cafonice das decorações natalinas, na iluminação mortiça das noites, na americanice grandiloquente dos shoppings, no emaranhado de fios elétricos, nas casas sem reboque das favelas e da periferia inchada, no lixo das calçadas, na tragédia da cracolândia e na miséria andrajosa dos moradores de rua.

Conheci cidades sem um cisco no chão, habitadas por cidadãos instruídos, à beira-mar ou no meio das montanhas, com horizontes a perder de vista, ruas sem imprevistos, silenciosas às oito da noite, bares que fecham às dez. Lugares idílicos, aprazíveis num fim de semana, mas para neuróticos com a alma impregnada pela balbúrdia paulistana, como este que vos escreve, morar neles seria flertar com o suicídio. O que me encanta e desafia em São Paulo é justamente o estar por fazer, a imprevisibilidade, a confusão urbana que me obriga a reinventar o jeito de viver a cada ano que passa.

É a paisagem humana, o caldeirão de negros, brancos, mulatos e orientais, senhoras de roupas recatadas, meninos com o boné virado para trás, homens de gravata, casais que se beijam na boca no meio dos transeuntes, mulheres sedutoras, homossexuais de mãos dadas, camelôs, bêbados, travestis, putas, entregadores de pizza e a legião de motoqueiros que zumbe entre nossos carros atolados no asfalto. Clique aqui para ler mais.

 

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3 Comentários

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lisa santana 26 de janeiro de 2014 - 21:34

O amor toma várias formas, dizem. Mesmo que pareça o avesso. Eis uma delas. O depoimento do Drauzio é tão amoroso, rico ( e bem escrito!) quanto ao caos de São paulo, que faz com que as pessoas que gostam da diversidade, da pluralidade se animem quanto à ela. São Paulo, mon amour.

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Elza Cataldo
Elza Cataldo 26 de janeiro de 2014 - 20:16

Lindo depoimento, de uma pessoa que respeito cada vez mais. Pela sua dedicação a causas perdidas, ou quase, como: presidiários, obesos e sedentários.

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Ana 26 de janeiro de 2014 - 11:40

São Paulo é assim mesmo. Eu não viveria em nenhuma outra cidade do Brasil – só aqui

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