Com as bênçãos que idade e tempo nos presenteiam

Por Maya Santana
Os benefícios que a idade traz

A gente não envelhece da noite para o dia

Déa Januzzi

Não sirvo de exemplo para ninguém que chegou aos 60 como eu. Bebo vinho todos os dias, sob o olhar vigilante do meu filho, de 30 anos, que não esconde o desapontamento com a mãe que nem dona de casa é. Se tenho que arrumar a casa não consigo cozinhar nem lavar e passar. Se decido ir para a cozinha, tem que ser um ou dois pratos no máximo. Não sei passar roupa nem gosto de lavar. Brigo até com a máquina de lavar. Serviço de casa me irrita, apesar de hoje, aos 61 anos e livre do trabalho formal de todo dia, tentar algumas incursões culinárias. Gosto também de encher a casa de flores. Às sextas-feiras, não deixo de vir com uma braçada delas da Feira das Flores.

Também gosto de casa cheirosa e fresca, com muita saúde e vento entrando pelas janelas e descortinando o mar de prédios à minha volta. Amo incenso e oráculos, principalmente as mensagens de Jeremias que me ajudam a amanhecer com menos angústia. Não freqüento templos nem igrejas, mas tenho meus gurus e anjos aqui na Terra como no Céu. São muitos mestres e guias. Santo para mim é feito de carne e osso. Santo pra mim é aquele que, religiosamente, sobrevive aos furacões e vendavais de todos os dias.

Tenho bons amigos que tentam ser meus médicos, mas às vezes desistem, porque não gosto de tomar remédios, não sigo receitas. Nem mesmo as médicas. Odeio hospitais, porque enterram vivos os idosos, entubam a velhice e deixam nossos pais morrerem sozinhos, longe dos filhos e netos em nome de protocolos médicos e cirúrgicos.

Desculpem-me os que crêem na medicina tradicional, mas lugar de velho não é em CTI (Centro de Tristezas Indizíveis). Ainda bem que o Conselho Federal de Medicina finalmente aprovou o Testamento Vital, que dá a cada um de nós o direito de não ser submetido a procedimentos invasivos e inúteis.

Confesso que fumo cigarros até hoje, mas não me vanglorio dessas tragadas. Não sinto mais prazer em fumar um cigarro atrás do outro. Mas estou aprendendo – bem devagar – a promover um ritual na hora de fumar. E voltar a tragar apenas por prazer e não mais por vício ou dependência química. Ainda não consegui parar nem vou prometer publicamente. Conto apenas para mim mesma, porque não vou assinar nenhum manifesto contra o cigarro. Não vou expulsar fumantes de perto de mim nem abanar as mãos quando um deles cortar o meu caminho.

Todos os dias, no entanto, peço para que eu não me transforme numa velha chata e rabugenta como aquelas dos contos de fada, ou melhor, uma bruxa, porque não tem nada pior do que uma pessoa mal-humorada, respingando veneno e mofo por todos os lados, aspergindo comentários maldosos e preconceituosos. Cheirando a formol.

Tenho amigos que muitos denominam de gays, mas só me aproximo das pessoas por afeto, sejam eles negros, homossexuais, com necessidades especiais, porque eu também tenho as minhas.

Como tantos da minha geração, gosto de acupuntura. Saio todas as quintas-feiras do Bairro Cidade Nova para o Colégio Batista para encontrar Josefina, a minha acupunturista, que inclusive, consertou a minha artrose no joelho esquerdo e sempre me diz que ela está mais do que fincando agulhas no meu corpo, mas quer que eu silencie e consulte o meu coração para as questões difíceis da vida. A mãe de Josefina tem 100 anos. Chama-se Santa, imagine, e não gosta de cuidadoras de cabelo curto, porque acha que mulheres devem ter cabelos longos.

Gosto de arroz integral e de tudo o que vem do mar, inclusive, peixes, mariscos e algas, afinal sou Câncer, signo da água e da emoção.

Como eu quero envelhecer? Aprendi com Amélia, minha mãe, que viveu lúcida, sem doenças até os 91 anos, que a gente não envelhece da noite para o dia, mas que quando alguém na rua disser que você “é uma gracinha” pode saber. Estás velha. Como sou de uma geração que revolucionou costumes, espero também continuar rebelde, mas com as bênçãos que a idade e o tempo nos presenteiam.


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41 Comentários

Rachel Vaccari Vassão 16 de agosto de 2015 - 22:46

Lindo texto, onde me identifiquei em vários momentos. É bem assim: já não sei mais cozinhar como antes, não acerto muitas coisas que gostava de fazer na cozinha (mesmo nunca tendo sido muito apaixonada). Não tomo vinho sempre por preguiça, mas gosto. Tomo meus remedinhos de prevenção, para que os poucos males que tenho não aumentem.
Mas, o que sempre cuido é para não ficar uma “senhorinha” chata. que reclama de tudo (como se fosse adiantar alguma coisa), afastando os outros.
Evito usar “filas preferenciais”, afinal, estou íntegra de corpo e mente e, nessas filas, sempre tem muita gente chata e com dificuldades de entendimento, que reclama do tempo que demora, etc…
Faço o que quero, sem me preocupar com o que os outros vão pensar, pois são eles que pensam isso e aquilo e o pensamento é deles.
Ah, e também fumo.
Fazer o quê? Ninguém é perfeito, não?
Abraço

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Vilma Fazito 16 de agosto de 2015 - 20:52

Grande texto, amiga, para variar, não é? Eu já virei uma “gracinha”, mas não me importo. Estou mesmo ficando uma velhinha engraçadinha. rsrsrs
Um grande abraço saudoso.

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Regina Braga 16 de agosto de 2015 - 14:28

Muito bom texto, nos colocando a pensar e refletir sobre o nosso dia a dia e pensar em que podemos melhorar para vivermos sempre cada vez melhor… independentemente da idade.

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Laude 16 de agosto de 2015 - 13:48

Dea, vc é uma pessoa tão especial e sabe das coisas. Não tenho o que llhe ensinar, com meus 67 anos. Mas tenho algo a lhe contar. Um dia, exatamente em 02/05/1995, parei e pensei: Se sou intelugente como dizem e tb acho que sou, pq continuo fumando? Pq estou me deixando envenenar por um hábito nocivo que vai encurtar minha vida? Onde está minha inteligência? Naquela tarde de terça -feira fumei demoradamente o último cigarro da minha vida. Ganhei naquela hora mais vinte anos, com.certeza, e viver é muito bom!! Grande abraço.

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ana cecilia 16 de agosto de 2015 - 13:17

Dea querida, amei o seu texto. Quanta sabedoria! Quanta leveza! Como tudo que você escreve, é para ser lido todos os dias. Você é admirável!

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Sheila 16 de agosto de 2015 - 12:03

Excelente, vale refletir e agir, assim chegaremos na Quarta Idade.

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Edna 16 de agosto de 2015 - 11:42

Adorável, viver é isso, enfrentar com coragem os desafios da vida e quebrar regras estabelecidas por padrões que a sociedade determina! Verdadeiramente és livre! Estou seguindo esse caminho!

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Graciana Januzzi 15 de agosto de 2015 - 16:32

Maravilhosa, como sempre!

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Dedê 15 de agosto de 2015 - 06:57

Amei !

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adalea 3 de maio de 2015 - 21:35

amei, tenho 61 tb e penso igual…vc eh linda

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Irene Rocha 2 de maio de 2015 - 18:46

Não é a primeira vez que leio um texto dessa admirável escritora e me encanto com sua facilidade na descrição das nuances temporais, atemporais, existenciais das mulheres.
Daí justificar-se, em meu entender, a interminável lista de comentários onde sobejam identificações femininas, independentemente de idade, signo, hábitos, gostos, atividades, pra citar apenas algumas.
Pra mim, ler um texto como esse, escrito e descrito com exímia sabedoria de alma é sorver uma sublime energia pra prosseguir vivendo feliz, não importa como, com que idade, quando ou onde eu possa estar…
Sei que Dea é amiga de amiga minha e a partir de agora sei também que vive perto de minha “redondeza natal”, rs, o que torna ainda mais lúdico e misterioso o fascínio que das palavras, dos sentimentos e das emoções que seus textos me evocam.
Se na música sertaneja ouvimos cantar que “…Minas são muitas!…”, em nossa literatura regional podemos dizer que a Dea mineira, a Dea escritora, é a “Dea mulher, que tanto sabe ser tantas…”

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Diana 2 de maio de 2015 - 00:01

Amei o comentário! Sou de Câncer e me identifiquei com essa história

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Marina correa 30 de abril de 2015 - 17:58

Minha cara De a tenho 56 anos, pesquisadora das ciências da religião(profissão estranha) logo, todos me veem como ‘maluca’. Faço. Um pós doutorado pela universidade federal de Sergipe. Mais estranho ainda, porque moro em São Paulo. Adoro vinho, amo uma boa conversa, meus amigos de todos os gêneros. Me vi em cada frase tua. Obrigada pelo texto. Abraços

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Benedita Aparecida da Silva 30 de abril de 2015 - 16:04

Minha amada Déa amei o seu texto,lendo parecia que nós estávamos conversando,parece que somos amigas desde sempre,Bjs no seu <3 continue assim.

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Ana Lúcia 30 de abril de 2015 - 15:26

Maravilhosoooo!

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Mariana Medeiros 29 de abril de 2015 - 22:49

Até q enfim encontro alguem que se parece comigo, rss. Só temos duas diferenças, eu ainda tenho 57 e sou de virgem, rsss.Adorei

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regina sales 29 de abril de 2015 - 22:02

Amei o texto!!!

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Oleni Aureliana 30 de março de 2015 - 21:21

Nossa, simples e completo. Diz tudo. Adorei.

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elianesilvanogueira 21 de março de 2015 - 17:20

Amei achei puro verdadeiro,porque tenho 63 anos os cabelos um pouco maior que o seu , mas brancos como o seu,e sou questionada frequentemente se não vou pinta-los.
Principalmente por parentes desinformados.
Não gostei de ter ficado velha porque sou extremamente vaidosa.
Mas não e por ter envelhecido que minha vaidade acabou.
Continuo vaidosa bela e feliz apesar de ter inumeras correntes negativas querendo jogar a gente,para baixo ,mas eu não caio nesta.
Seja feliz,….viva enquanto pode …

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dulce 20 de março de 2015 - 22:55

Mil. Sinto-me tal e qual, tenho a mesma idade e com as mesmas buscas. Cada dia um aprendizado. Dia destes li em algum texto (sao tantos) que a gente precisa aprender a morrer. Achei porreta e ja senti que, ao iniciar este aprendizado, que a gente vive melhor e com mais intensidade ate o momento de partir, que um dia será certo e inevitavel. Estou no treino do desapego de coisas desnecessaria e enuteis, que algum tempo antes eu nem sequer cogitaria. Ja estou ficando mais leve e serena. Mamamasté.

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maribel 20 de março de 2015 - 14:49

Texto maravilhoso ao qual me encaixo em algumas situações.o negócio é saber conduzir o avanço da idade com calma e sabedoria.

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gilsea 20 de março de 2015 - 14:32

Adoro gente inteligente, mulher nota mil………….

Responder
Julimar Matta Camargo 20 de março de 2015 - 14:12

Que mulher! E viva a vida

Responder
Julimar Matta Camargo 20 de março de 2015 - 14:09

Que mulher !

Responder
maria antonietta ferreira de castilho 20 de março de 2015 - 13:37

Adorei o texto.
Simples , direto e verdadeiro .
Parabéns .

Responder
eliane 20 de março de 2015 - 12:18

Adorei saber que não sou a única rebelde, porém a três anos vim morar na cidade de saquarema consegui parar de fumar ,ainda trabalho em uma academia e sou feliz

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:-) Regina 20 de março de 2015 - 11:03

Como sempre suas mensagens belas e significativas! Obrigada.

Responder
nina bastos 19 de março de 2015 - 20:51

Amei o texto parece q estava falando de mim rsrs!!!!!

Responder
Carmen Ferrari 19 de março de 2015 - 14:02

Déa, minha guru, que delícia ler voce!
Que barato a reflexão que desencadeou em mim…
Voce, de fato, é ótima. Parabéns.
Agradecida, receba meu carinho.

Responder
ana celia 19 de março de 2015 - 12:21

Um texto com um contexto,muito brilhante,que a cada dia voce seja melhor ,e sem dificuldades com a velhice ,obrigado pela postagem

Responder
Dirce Saleh 19 de março de 2015 - 12:02

rsrsrsrsrsrs! Menina rebelde ! Sempre escrevendo e nos agraciando com belos textos.
Este ao mesmo tempo que discorda deixa ótimas reflexóes.
Lembrou me, dias atrás eu estava entrando numa depré chata demais, com bons exemplos que nos levam a refletir, não vou entrar numa dessa. Alguns dias parei para pensar o que deixei de fazer que mesmo não me agradando podia fazer diferente e tirar me desse transtorno. È bom lembrar que quase não saio de casa. Lembrei que nunca a cozinha foi meu charme rsrsrsrs Oi , pensei seria uma boa voltar a essa atividadekkkkkk!
E deu certo, estou deliciando com esse novo papel Faço cardápio ,lista de compra e executo , Até lavar os vasilhames kk Parece mentira Mas verdade e estou amando a novidade.É bom voltar a alegria, a satisfação, àquilo que fiz pouco e agora retomando
Realmente a velhice tem que ter adrenalina …Fazer coisas que nos passam alegrias e amor. E passamos para os outros
rsrsrsrs A familia está amando E que sabor o amor deixa!!!!
Bjins
Dirce Saléh

Responder
Maria Lúcia 19 de março de 2015 - 11:44

amei seu testo, me identifico com quase tudo q escreveu, apenas sou boa na cozinha, e consigo fazer várias coisas no mesmo tempo..abraços e continue linda, pois a vida é bela…

Responder
Manoel 19 de março de 2015 - 00:43

Pessoa admirável mas que não serve mesmo de exemplo para ninguém…fuma.

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Suely 30 de abril de 2016 - 07:07

Desnecessário seu comentário….quer ser amargo problema seu! Não precisa espalhar por aí!

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Ana Strieder 18 de março de 2015 - 20:14

Fantástica, maravilhosa!!!! Concordo contigo em tudo, afinal…….todos vamos envellhecer….procuremos,pois,fazer isso aconttecer comm muita alegria , disposição, amores, fé, e muita música! A vida é belissima!!!! Sempre!!!!!!! Obra prima do ARQUITETO DO UNIVERSO , e, nós fazemos parte dessa obra . Parabéns !!!!!! AMEI!!!!

Responder
Ana Lucia 18 de março de 2015 - 13:21

Amei essa mulher!

Responder
Mirian 29 de outubro de 2014 - 16:14

Parabéns, continue nos incentivando.
Com carinho.

Responder
Maria Girlene Martins 27 de outubro de 2014 - 11:53

Seu texto é um convite à reflexão sobre o que pode ser a vida, se vivida com intensidade, amor e sabedoria! obrigada. Jeremias é também o meu “Guru”, leitura diária obrigatória.
Que você continue nos presenteando com textos como esse. Parabéns

Responder
Maria Celeste 25 de outubro de 2014 - 23:45

Essa é a Déa que transforma palavras em emoção. Muito lindo sua crônica.

Responder
Cássia lage 25 de outubro de 2014 - 21:49

Emocionante seu texto. Brilhante como sempre. Abraços.

Cássia Lage

Responder
EROS JANUZZI 25 de outubro de 2014 - 20:57

MINHA QUERIDA PRIMA, A CADA TEXTO SEU;VOCÊ ME EMOCIONA .BEIJOS MUITA LUZ!!!!!!!

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