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Com minha mãe descobri que a velhice é feminina, dura e solitária

Por Maya Santana
 Quero ficar sossegada, sem pensar que tenho 63 anos e ainda não encontrei a “paz” que os especialistas em envelhecimento propagam

Quero ficar sossegada, sem pensar que tenho 63 anos e ainda não encontrei a “paz” que os especialistas em envelhecimento propagam

Déa Januzzi

Ah, Senhor, hoje quero bater à porta do céu, para descobrir os mistérios da vida. Saber, por exemplo, como envelhecer sem fazer tantas acrobacias. Sim, eu queria uma receita que desse certo, que não transbordasse na fôrma, que não desandasse ou queimasse no forno por ter ficado muito tempo no fogo alto do desencanto.

Ah, Senhor, seria pedir demais que, de vez em quando, os velhos tivessem paz no meio da guerra de todos os dias?
Que pudessem espantar de regras do bem-viver, de como chegar à longevidade, de manuais de instrução, de novos rótulos e conceitos e preconceitos. Aprendi muito com minha mãe, que viveu 91 anos. Foram lições de resignação, de humildade, de paciência, de resistência. Mas, hoje, Senhor, eu estou sentindo-me a mais frágil das mulheres de 63 anos.

Ah, Senhor, eu hoje peço colo. Quero ficar quietinha num canto secreto do paraíso. Sou eu hoje que quero ficar passeando entre os lagos encantados, sentindo o vento em meu rosto, andando pelo campo de flores silvestres, sem ter medo do tsunami do envelhecer.

Quero a calmaria, no lugar das tempestades, dos raios que insistem em cortar a janela da minha alma. Quero ficar sossegada, sem pensar que tenho 63 anos e ainda não encontrei a “paz” que os especialistas em envelhecimento propagam. Sou mãe de um único filho que também não encontrou o caminho. Fui mãe da minha mãe que viveu 30 anos a mais do que meu pai. Com ela descobri que a velhice é feminina, que é dura e solitária. Fiz dos meus braços a bengala para que minha mãe caminhasse segura em direção à velhice, fiz estripulias, procurei cursos de memória para que ela praticasse malhação cerebral e não se esquecesse de viver. Levei minha mãe para fazer acupuntura e não sentisse a artrose devorar os seus ossos.

Ah, Senhor, eu queria, hoje, conversar com o meu pai, que partiu há 37 anos. Queria pegar a sua mão e seguir pelos caminhos seguros de filha. Eu queria contar para o meu pai como é difícil seguir sem eles. Ser órfã adulta de pai e de mãe, de ter sido tão rebelde e inquieta que hoje não tenho nem mesmo um companheiro para dividir a dor de envelhecer.

Hoje, Senhor, eu preciso chorar muito, encher um oceano com as minhas lágrimas, benzer o meu corpo que parece ter sido exposto ao mais cruel dos desafios: ser malabarista na vida, como definiu uma amiga querida. Não, Senhor, não diga que eu quero demais. Não ria da minha dor, não deboche da minha pretensão. Não, Senhor, não dá tempo de sonhar mais com sucesso financeiro. Nem com poder, mas que eu possa seguir o caminho pacífico da bem-aventurança.

Hoje, Senhor, preciso de afeto, porque estou vazia, árida, seca. Preciso ser regada com as bênçãos de um outro mundo, com a água benta das catedrais. Preciso exorcizar-me com a cruz divina. Preciso mandar embora os meus demônios, mas que os anjos também não queiram ir junto.

Preciso tomar banho de cachoeira para espantar o peso dos meus dias. Preciso das cores do arco-íris para sentir-me mais intensa, de um pote de moedas de chocolate para adoçar as minhas noites. Preciso, hoje, Senhor, rezar para São Cristóvão me guiar pelas estradas desconhecidas. Pedir para que eu não caia nos precipícios do meu ser nem encontre no meu trajeto nenhum fantasma.

Não suporto mais, Senhor, tantos nomes como gerontolescência, envelhescência, jovens idosos, longevidade ativa, novos velhos, sem idade, ah, Senhor, porque os discursos são tantos, mas envelhecer custa tanto. Vamos parar de romantizar a velhice. É duro, Senhor, envelhecer num país eternamente em crise que não enxerga os velhos como eles são.

Os velhos, Senhor, deveriam ter um plano de saúde especial e vitalício para as crises que não têm fim. Os velhos deveriam ter cheques especiais para chegar ao paraíso mais depressa e vários cartões de crédito com os santos, para que as crenças, Senhor, não morressem de repente.

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4 Comentários

Mirian 28 de outubro de 2015 - 15:17

Lindo demais.
Mas , a velhice é muito triste mesmo.
Como dizia a minha mãe , “ela é bruta”.

Responder
Cristina Bahia 18 de outubro de 2015 - 20:42

Coragem é o que você tem de sobra, Déa, para enfrentar a velhice

Responder
Judy 17 de outubro de 2015 - 20:30

Déa, adorei esta crônica triste mais que ao mesmo tempo deve ser o lamento de muitas pessoas já encenando o terceiro, e ultimo, ato da vida. Grande abraço,

Responder
Marisa Sanabria 17 de outubro de 2015 - 20:27

Muito comovente e verdadeiro minha querida

Responder

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