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Como discutir quais as vontades do paciente no final de sua vida?

Por Maya Santana

‘Cartas na Mesa’: o jogo para discutir as últimas vontades

‘Cartas na Mesa’: o jogo para discutir as últimas vontades

Maya Santana, 50emais

Quando cheguei para visitar a irmã de uma amiga minha,sofrendo de um câncer de pulmão em estágio terminal, a família se mostrava constrangida, sem saber como conversar com a paciente sobre quais eram, afinal, seus últimos desejos. Foi a própria doente quem tomou a iniciativa de fazer dois pedidos: queria rever o mar e abraçar, pela última vez, o cachorro que a acompanhava nos últimos 12 anos. Acabou não fazendo nem um nem outro – não deu tempo. Conto esse caso para ilustrar a dificuldades que as pessoas, de uma maneira geral, têm de lidar com esse tipo de situação. Para auxiliar nessa hora tão delicada, está sendo lançado uma espécie de baralho, cujo objetivo é exatamente tornar menos difícil a conversa com quem está se despedindo da vida.

Leia os detalhes neste artigo de Mariza Tavares para o portal G1:

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) deu um passo ousado na abordagem de um tema que ainda é tabu para a maioria: como discutir quais são as vontades do paciente no final de sua vida? No caso de uma doença crônica grave, a progressão da enfermidade pode levar o doente a um estado em que não poderá mais ser consultado. Também não se pode ignorar o risco de um acidente vascular encefálico que, de uma hora para a outra, restrinja a capacidade do indivíduo. Fundamental ter uma coisa em mente: só será possível respeitar qualquer vontade se houver disposição para tocar nesta tecla tão sensível. O jogo “Cartas na Mesa”, composto de um baralho com 36 cartas, pretende justamente facilitar a conversa sobre que desejos a pessoa gostaria de ver atendidos. Para o médico José Elias Soares Pinheiro, presidente da SBGG, caberá aos geriatras levantar a questão nos consultórios e trabalhar para dar mais transparência ao debate. “O ideal é que o médico comece a tratar do assunto numa consulta de rotina. Afinal, trata-se de um processo para garantir que o paciente possa ser dono de suas próprias decisões até o fim da vida”, argumenta.

Há duas maneiras de jogar: sozinho ou em dupla. No jogo individual, o primeiro passo é ler as 36 cartas que expressam desejos. Há frases de todo tipo: “Quero conversar sobre doação de órgãos”; “Quero minha família e meus amigos perto de mim”; “Quero a companhia dos meus animais de estimação”; “Quero conversar sobre minhas necessidades espirituais”; “Quero ser visto apenas pelas pessoas que eu escolher”; “Quero manter o senso de humor ao meu redor”. Em seguida, é preciso separá-las em três montes. No primeiro, ficam os desejos considerados muito importantes; no segundo, os que são mais ou menos relevantes; no terceiro, os que são menos importantes. Há ainda a carta “vontade especial”, caso haja uma demanda que não esteja entre os assuntos relacionados. Além de refletir sobre as escolhas, elas devem ser compartilhadas com o círculo mais próximo.

No jogo em dupla, usam-se de preferência dois baralhos: um para o paciente e o outro para seu “representante de saúde” – quem estará presente para falar em seu nome. Cada um procede da mesma forma, formando três montes. No entanto, enquanto o paciente faz suas escolhas, como no jogo individual, seu “porta-voz” tem uma tarefa mais difícil: deve tentar se colocar no lugar do paciente e separar as cartas como acha que ela faria. Em seguida, os dois discutem os consensos e as divergências. O jogo foi criado pela Coda Alliance – organização voltada para o planejamento terapêutico no fim da vida – e, em inglês, se chama “Go wish”. A SBGG traduziu e adaptou o texto da versão brasileira. Cada baralho custa 20 reais e é vendido no site da entidade.

A geriatra Claudia Burlá, especialista em medicina paliativa, afirma que a iniciativa da SBGG é uma ação de vanguarda. Ela lembra que, desde 2012, o Conselho Federal de Medicina reconhece as diretivas antecipadas de vontade, isto é, o conjunto de desejos, prévia e expressamente manifestados pelo paciente, sobre cuidados e tratamentos que quer, ou não, receber no momento em que estiver incapacitado de expressar, livre e autonomamente, sua vontade: “a geriatria é uma arena excelente para esse debate, porque convive com doenças crônicas degenerativas. O jogo é para facilitar o início dessa conversa e, pela minha experiência, posso garantir que as pessoas querem falar disso. As grandes decisões da nossa vida devem ser tomadas quando estamos bem, lúcidos e felizes. É assim que garantimos nosso protagonismo e o respeito à nossa capacidade de autodeterminação”.

Está na hora de abrir o jogo.

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2 Comentários

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ana 12 de abril de 2017 - 19:43

Um assunto para ser divulgado. Não temos que enfrentar só a nossa resistência em falar da morte. A pessoas com quem vc tenta conversar, não querem falar sobre o assunto porque acha deprimente, ameaçador. Outros q falar da morte atrai a bandida. Na verdade o q devemos fazer são coisas muito práticas. Minha ex-sogra, por exemplo, qdo morreu deixou tudo em ordem, do jeito q ela queria, administrou bem essa fase da vida.

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Como discutir quais as vontades do paciente no final de sua vida? | JETSS – SITES & BLOGS 12 de abril de 2017 - 17:58

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