Como foi aquele primeiro de maio 20 anos atrás

Por Maya Santana

Nesta quinta-feira, primeiro de maio, completa exatamente 20 anos que  Ayrton Senna, maior piloto de Fórmula Um que o Brasil já produziu, sofreu o acidente fatal, em Ímola, na Itália. Aproveito a data para publicar, uma vez mais, o artigo abaixo:

 O piloto, morto aos 34 anos

O piloto, morto aos 34 anos

Maya Santana

Desde que Senna morreu, em primeiro de maio de 1994, Betise Assumpção, sua assessora de imprensa na época, nunca deu uma entrevista ou falou publicamente sobre o assunto. Ela conviveu intimamente com o astro de Fórmula Um de 1990 até o dia do fatídico acidente em Ímola, na Itália, quando tudo teve um fim abrupto. E até hoje, quando insisto para que fale do saudoso  brasileiro, perguntando por que nunca escreveu um livro sobre o  maior piloto que o Brasil já produziu, Betise repete o que me disse em Londres, poucas semanas depois do trágico acidente.

“Ayrton era uma pessoa que gostava muito da vida privada dele. Não acho justo eu escrever um livro e contar tudo o que ele queria preservar para si mesmo. Eu não gostaria que fizessem isso comigo. Para fazer um livro e só contar as vitórias e o lado ídolo não me interessa nem um pouco. Sem falar que já há muitos por aí.” Nenhum argumento convence a jornalista do contrário, porque a firmeza  é justamente uma de suas características mais marcantes.

Betise (c) em uma de suas muitas vindas ao Brasil

Betise (c) em uma de suas muitas vindas ao Brasil

Além do mais,  essa paulista, 51 anos, desenvolveu um tipo de afeto todo especial pelo piloto, a quem já havia entrevistado várias vezes no Brasil. Betise foi repórter da Folha, do Estadão e da revista esportiva Placar, antes de largar tudo e partir para Londres, com a idéia fixa de aprimorar o seu hoje impecável inglês. Formada em jornalismo pela Cásper Líbero, após trabalhar para os meios de comunicação mais importantes do país, ela achava que chegara o momento de ampliar seus horizontes profissionais e, para isso, precisava dominar bem a língua dos Beatles.

Não imaginava que viveria anos tão intensos, no centro da mídia internacional, tempos inesquecíveis, que mudariam para sempre e radicalmente a sua vida.Estudou inglês, com disciplina durante um ano. A partir daí, escreveu para praticamente todas as grandes publicações brasileiras”.i Foi numa dessas que o destino a colocou novamente em contato com Senna. “Nos nos encontramos por acaso no Torneio de Tênis de Wimbledon, em 1987, e contei a ele que estava morando em Londres. Mais tarde, quando  os assessores dele, Charles Marzanasco e  Roberto Ferreira,com os quais eu já havia trabalhado, estavam procurando um jornalista para trabalhar exclusivamente para Ayrton, eles falaram o meu nome. E ele me ofereceu o emprego.”

Numa festa, sentada (no centro) com Ayrton e amigos

Numa festa, sentada (no centro) com Ayrton e amigos

O trabalho começou no início da temporada de 1990. Betise se mudou para Paris, de onde se deslocava para o mundo inteiro junto com o circo da Fórmula Um. Acompanhava Ayrton de perto, trocavam idéias, escrevia artigos que ele assinava e os jornais e revistas das mais diversas línguas traduziam e publicavam. Lidava ainda com os jornalistas estrangeiros,  sempre ávidos por uma entrevista do campeão.  Sua vida era como um transe contínuo.

Betise estava em Ímola na tarde daquele domingo fatídico. O entusiasmo era o mesmo de sempre. A apresentadora de TV Adriana Galisteu, namorada do piloto, também esperava o início da corrida. Os carros se enfileiraram no circuito italiano. Foi dada a largada. E lá se foram. Na curva do Tamburello, o tempo parou bruscamente… Foi-se Ayrton Senna, foi-se uma era na vida da jornalista. Tempos de tristeza e muita reflexão.

Hoje, se alguém tenta arrancar alguma “fofoca” daquela época, ela se esquiva. Deixa só para si tudo que sabe da vida privada de Ayrton Senna. E só tem elogios para o inesquecível piloto: “No plano pessoal , guardo lembranças maravilhosas de um homem educado, de bom caráter, da pessoa mais profissional, disciplinada e exigente de todas com quem trabalhei. Aprendi muito com ele e tive a satisfação de visitar pela primeira vez países onde nunca tinha estado. Isso também foi fantástico. No plano profissional, ainda me utilizo muito do aprendizado daquele mundo super competitivo, profissionalíssimo, exigente e competente ” – afirma.

Mais experiente e melhor integrada à vida no exterior, Betise continuou a viver na Europa, trabalhando no jornalismo esportivo. Fez diversas entrevistas e artigos para a BBC e publicações inglesas. Assessorou Rubens Barrichello por um tempo. Quando começava a pensar na possibilidade de voltar ao Brasil, mais uma vez, sua vida deu uma guinada: começou a namorar Patrick Head, peso-pesado da Fórmula I, um dos donos da Williams. “Começamos a namorar no final de agosto de 1994. Três anos depois, nos casamos e o Luke nasceu um ano depois,  durante o Grande Prêmio de Mônaco. Foi a primeira e única vez que Patrick não compareceu ao GP de Mônaco” lembra-se ela, em sua bela mansão, no nobilíssimo bairro de Chelsea, em Londres.

Com o então marido, Patrick Head, da Williams

Com o então marido, Patrick Head, da Williams

Outro grande drama ainda estaria por vir. Da segunda gravidez, em dezembro de 2001, nasceu Júlia, três meses prematura, só tomava leite materno em conta-gotas. Betise vivia no hospital. “Foram os piores meses da minha vida”, confessa ela, orgulhosa da menina forte em que Julia – perfeita inglesinha – se tornou.

A vida passou, os filhos cresceram e o casamento com Patrick Head chegou ao fim, em 2009, quando assinaram o divórcio como bons amigos. Ele vê sempre as crianças, que têm ótima relação com o pai chefão da Williams. Betise seguiu o seu caminho profissional, iniciado em 2007, ano em que voltou a trabalhar. Criou com a amiga e grande jornalista Maria Luiza Abbott (Cuca) a empresa de assessoria internacional AJA Media Solutions, especializada em estratégia de comunicação, onde ficou até o final de 2010.

Em um restaurante do Rio, com Ingo Ostrovsky e um amigo

Em um restaurante do Rio, com Ingo Ostrovsky e um amigo

Em 2011, decidiu ouvir mais a si mesma e concluiu que queria voltar ao começo, ou seja, trabalhar novamente com esporte. “Acabo de abrir a minha própria agência de assessoria de imprensa, a Betise Head Media Relations LTD, pois estou investindo num retorno ao esporte. Afinal, vamos ter uma olimpíada aqui em Londres, no ano que vem, a Copa de 2014 e os jogos olímpicos de 2016 são no Brasil”, comenta ela, completando: “Já fiz vários contatos e estou muito animada.”

Betise é assim. Não foi à-toa que o jornalista Ingo Ostrovsky, diretor do Programa “Bem, Amigos”, do canal pago Sport TV, que a conheceu nos tempos em que morou em Londres, respondeu de pronto, quando lhe perguntei, há poucos dias, o que mais gostava em Betise: “Gosto do entusiasmo, da disposição, da inteligência e do humor dela”. Um ótimo resumo dessa mulher inquieta, forte e cheia de sensibilidade.

(Este artigo foi publicado originalmente no 50emais em primeiro de maio de 2011)


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