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O filme O Último Azul, dirigido pelo cineasta Gabriel Mascaro, é, de certa forma, perturbador ao mostrar a perseguição de agentes do Estado a pessoas mais velhos, para encerrá-las numa instituição, e a fuga de uma idosa, Helena, – interpretada pela notável Denise Weinberg – em busca da liberdade.
O jornalista Gustavo Werneck assistiu ao filme e aproveitou para conversar com pessoas de mais de 70 anos sobre o que acharam do enredo do longa, vencedor do Leão de Prata no mais recente Festival de Berlim.
“Há muito para se comentar a respeito do filme, especialmente sobre a desvalorização do idoso enquanto pessoa ativa”, diz a costureira Marina Souto, de 80 anos. “Tereza é uma mulher com todas as possibilidades de vida e trabalho, lúcida, sem necessidade de cuidador, e, de repente, tem seus direitos negados pelo Estado. Não admite isso, como eu também não admito, pois sabe da sua força” – comenta a idosa.
Leia o artigo completo escrito por Gustavo werneck e publicado no jornal Estado de Minas:
Até que ponto o Estado pode interferir na vida do cidadão? Qual o limite para os sonhos de quem chega à maturidade? Você está mesmo no comando ao atingir certa fase da vida? Essas e outras questões têm levado homens e mulheres à reflexão e conversas prolongadas após a sessão do filme “O último azul”, em cartaz nos cinemas.
Na sala de exibição, há pessoas de todas as gerações, com destaque para a turma “70 e mais” ou perto dessa faixa etária. Alguns risos nervosos, silêncios profundos, palavras às vezes proferidas em tom mais alto e emoção tomam conta da plateia durante uma hora e 25 minutos.
Dirigido por Gabriel Mascaro e estrelado por Denise Weinberg, o longa vencedor do Leão de Prata no último Festival de Berlim mostra a trajetória de Tereza, uma mulher de 77 anos que trabalha num frigorífico de carne de jacaré, no Norte do Brasil.
Num “belo” dia daquela maravilha de cenário amazônico, mas não na vida da trabalhadora, ela recebe um comunicado oficial que vai alterar seus dias, tirar o sossego e lançá-la numa espiral de situações em busca de liberdade. Haverá saídas?
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“Há muito para se comentar a respeito do filme, especialmente sobre a “desvalorização do idoso enquanto pessoa ativa”, diz a costureira Marina Souto, de 80 anos, residente em Lavras, no Sul de Minas. Aproveitando o fim de semana em Belo Horizonte, ela foi ver “O último azul” na companhia da sobrinha, Clecimar Viana Andrade, no Una Cine Belas Artes, perto da Praça da Liberdade.
“Tereza é uma mulher com todas as possibilidades de vida e trabalho, lúcida, sem necessidade de cuidador, e, de repente, tem seus direitos negados pelo Estado. Não admite isso, como eu também não admito, pois sabe da sua força”, ressalta a costureira, que está na profissão desde os 12 anos, faz ginástica quatro vezes na semana e se desloca de ônibus para todo canto.
“Eu me identifiquei com ela na questão de se ter liberdade”, afirma Mariana, que estranha quando lhe perguntam: “Você ‘ainda’ trabalha? Sim, e tem sonhos: “Quero ver a humanidade mais afetiva e amorosa, e o respeito pelo idoso passar por aí.”
Na mesma sessão, na tarde de domingo, estava a servidora pública aposentada Cila Diniz, que já está em Pirapora, na Região Norte de Minas, para comemorar, no próximo dia 27, seu aniversário de oito décadas. “Amei o filme… realmente maravilhoso. Podemos fazer ainda muito aos 90, aos 100 anos. Não devemos pensar em finitude devido à idade. A Tereza busca uma forma de sair da mesmice logo após perder o emprego. Em vez de se conformar com a situação, e ficar sob tutela da filha, busca novos horizontes”.
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Cila gostou da escolha dos atores: “A Denise Weinberg tem o rosto de uma mulher madura, então fica melhor identificá-la com a personagem. Gostei também do Rodrigo Santoro (no papel de Cadu, um barqueiro que Tereza encontra “nas águas” que ela quer navegar). Mãe de Juliana, que mora em Pirapora, e de Janaína, em BH, e avó de uma menina, Cila vai brindar a nova idade com a família numerosa de irmãos, sobrinhos e amigos. E com projetos, sendo o maior “manter a saúde”.
À sessão de domingo, Cila foi na companhia da amiga “dos tempos de adolescência”, a pedagoga Maria das Graças Barbosa, de 77, também viúva, que tem dois filhos e dois netos e mora no Bairro Anchieta, na Região Centro-Sul de BH. Os elogios dela vão para a direção, locações, na região amazônica, e a personalidade forte de Tereza. “É determinada, guerreira, não aceita que definam sua vida. Sabia que tem muito a fazer no mundo e dá seu jeito”, diz Maria das Graças.
CABELOS AO VENTO Logo nos primeiros minutos do filme entra em cena o “cata-velho”, veículo oficial, com a placa de Polícia Cidadã, parecido com as antigas carrocinhas para pegar cães de rua. Mas, no lugar dos animais, são transportadas pessoas com mais de 75 anos – num futuro distópico, a lei determina que homens e mulheres nessa idade e acima dela sejam levadas para uma colônia. Etarismo? Preconceito? Não, ditames da lei.
Diante do cata-velho, há risos na plateia. “As pessoas riem, mas não tem graça alguma. Penso que riem de nervoso, é uma situação patética”, acredita Maria das Graças, que procura aproveitar toda a programação cultural da cidade, participa de um coletivo de bordadeiras e faz parte de um grupo de literatura. Se o sonho de Tereza é andar de avião, o da pedagoga vai além. “Gosto de viajar, mas quero que nosso país tenha justiça social e invista na educação, sem dúvida a base de uma nação.”
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Uma cena memorável está no momento em que Tereza solta os cabelos. “Esse ato mostra que ela está fora do confinamento, está solta. E encontra uma amiga para seguir (Roberta, interprestada pela cubana Miriam Socarrás)”, diz Maria das Graças.
AUTORITARISMO Ainda distante da “idade de corte” imaginada na ficção, o aposentado José Geraldo Araújo, de 67, morador há 15 anos do distrito de Serra do Cipó, em Santana do Riacho, gostou do que viu e considerou uma forma diferente e artística de falar de uma sociedade autoritária independentemente da vertente política. José conta que já viu outros filmes sobre um mundo distópico, a exemplo de “O lagosta” (2015), do cineasta Yorgos Lanthimos. “São trabalhos que falam sobre afirmação autoritária e seu efeito na vida das pessoas”, observa, certo de que o ideal, para a humanidade, é que todas as diferenças sejam respeitadas.
Na saída, o repórter brinca com o porteiro da sala de exibição no Belas Artes – Luciano Ribeiro, o Selvagem, há 32 anos na empresa –, que havia perguntado, na entrada do “escurinho do cinema”, se estava “tudo azul”. A resposta sobre o filme sai afirmativa, mas, mentalmente, vai além: tudo azul, sim, com todos os tons que vão do forte ao mais suave – assim como o céu de Tereza.
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