Como minha avó, eu também sou mãe sozinha

Por Maya Santana
Bisavó: retrato recebido com honra

Retrato recebido com honras

Déa Januzzi

O retrato chegou lá em casa há pouco tempo, logo depois da mudança de casa, de um bairro para o outro. Nessa casa onde os moradores são considerados “ciganos do asfalto”, de tanto que buscam um lugar para habitar. Veio de Guanhães, cidade no Vale do Rio Doce, com a recomendação de frágil no embrulho. Foi recebido com festa, desembrulhado como um tesouro, lentamente, saboreando cada rasgar de folhas. Antes de ocupar um lugar de destaque na sala de visitas, passou por uma restauração caprichada, dessas de tirar poeira, mofo, com pincéis finos e solventes.

A gravata do vestido da senhora no retrato recebeu tinta aquarela, para dar a impressão de ser uma foto colorida, dos tempos atuais. Alguns fotógrafos, hoje, inclusive, voltaram a fazer fotos em preto e branco, com algum detalhe pintado com as pálidas cores das aquarelas, mas que dão um ar antigo, solene.

O retrato ganhou moldura nova, ovalada, bem estilo século 19, com detalhes trabalhados em madeira. Foi recebido com honra e ganhou a simpatia dos moradores. Era como se aquela senhora fosse uma espécie de anjo da guarda. A primeira vez que eu o vi na casa de minha mãe, não consegui despregar os olhos. Fiquei olhando para aquela senhora do retrato, completamente desconhecida, mas ao mesmo tempo tão próxima e tão íntima. A foto não combinava muito com o nome Rosina, afinal, para mim esse nome pertencia à minha irmã mais velha. Não conheci a minha avó Rosina, mãe de minha mãe. Afinal, ela morreu de câncer de útero aos 50 anos, quando minha mãe tinha apenas 23. Num tempo em que nem se falava em longevidade e que era natural morrer aos 50.

Não sei porque, mas não consegui desviar os olhos da foto de minha avó, que eu estava conhecendo pela primeira vez, através do retrato na sala. Para mim, dona Rosina era uma visita que vinha para ficar nos meus pensamentos. Quase entrei para dentro dos olhos do retrato, tentando decifrar os enigmas de família, que ficaram muitos anos envoltos em bruma, escondidos no baú da memória genética. Viajei mais de um século para reencontrar a minha avó no retrato. Levei tempos, para adivinhar o jeito daquela senhora tão elegante, com um vestido de bolinhas, de gola de renda, como era costume.

Fiquei horas tentando me encontrar naquela mulher do século 19, pois pressenti que ela é a guardiã dos segredos de família. Com o olhar suave, mas firme, percebo que ela me fala sobre coisas atávicas, como liberdade e independência. Penso: como pode uma mulher do século 19 ter sido mãe sozinha, para criar três filhos, eu te pergunto, dona Rosina? As histórias de minha mãe sobre ela, me veem à cabeça. Em pleno século 21, é difícil entender a alma de uma senhora tão bela, mas tão só no retrato, com os olhos perdidos em épocas distantes. Sei que ela gostava de ouvir Vicente Celestino, de costurar e de bordar, que era corajosa, que sacudiu as teias de aranha dos preconceitos para ser feliz com o amor de sua vida. Vejo na foto que ela teve de abdicar de sua família para seguir o destino da paixão. Sob o véu do passado, vejo dona Rosina crescer aos meus olhos, sair do retrato e sentar à mesa das minhas fantasias. Com a memória de minha antepassada, desvendo o código genético impresso em minha vida e reverencio dona Rosina.

No tapete do tempo que não pára, me vejo sentada à mesa com a minha avó, trocando idéias. É como se eu estivesse lá, do seu lado, de mãos dadas, com a cabeça deitada em seu ombro. Eu precisava consolar dona Rosina, dizer que, apesar de não tê-la conhecido, ela me ensinou muito como mulher e mãe É incrível: a história se repete: eu também sou mãe sozinha. Acredito que essa mulher tão antiga me inspira até hoje, no dia-a-dia. Quando olho para o seu retrato, me vejo em plenitude, de ter herdado essa sede de liberdade, esse jeito de ir à luta, de ser guerreira, de nutrir com amor e verdade. Descubro que dona Rosina está presente até hoje no meu jeito de ser, de viver, em cada texto que escrevo, em cada angústia, em cada passo que dou. Há uma fortaleza do lado de lá do retrato na parede, que me revela como sou hoje


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7 Comentários

Nilza Beatriz Lyrio Renz 13 de outubro de 2014 - 10:02

Um belo relato. Uma leitura que faz bem à alma. Parabéns!

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lisa santana 12 de outubro de 2014 - 11:25

Déa, vc gostou da foto e eu também do texto. Neste país de pretenso poder masculino, as forças são femininas. A história da sua avó, repetiu-se com a minha avó paterna e com quantas outras mais, será? Acho que muitas, né? E forças às filhas de Iansã, as devotas de São Jorge Guerreiro, São Miguel Arcanjo, Nossa Senhora da Conceição…

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Alexandre Moreira 12 de outubro de 2014 - 10:12

Parabéns pelo texto!
Como tarólogo posso afirmar que é uma perfeita interpretação do Arcano II do Tarot, a Sacerdotisa.
Guardiã dos mistérios, detentora de segredos, o tênue véu entre o sagrado e o profano.

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Déa Januzzi 12 de outubro de 2014 - 08:56

Ana Margarete, todo sábado escrevo para o blog da Maya e uma vez por mês para a Revista Ecológico. Beijos, saudades também.

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Ana Margarete de Castro Piló 12 de outubro de 2014 - 00:57

Saudade dos textos da minha amiga Déa Januzzi. Depois que ela deixou o jornal, não li mais . Fiquei feliz, pois ela me leva de volta ao passado, å minha infância! Que vc continue sendo esta guerreira inteligente! Um grande beijo. Gostaria de acompanhá-la novamente como eu fazia no jornal… Minha mãe tb sente falta da coluna…Até!

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Angela Maria Campelo França 11 de outubro de 2014 - 22:21

Déa suas crônicas são maravilhosas, adoro!!! Parabéns

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Déa Januzzi 11 de outubro de 2014 - 19:37

Adorei a foto, Maya, beijos

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