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Como vão as amigas de minha mãe?

Por Maya Santana

Renée de Lima Viana está com 100 anos

Renée de Lima Viana está com 100 anos

Déa Januzzi

Renée, Marina e Amélia, minha mãe, eram companheiras inseparáveis. Moradoras do Bairro Funcionários em Belo Horizonte, elas faziam caminhadas diárias no Parque Municipal da cidade. Todos os dias, iam as três desfrutar das manhãs ensolaradas. Caminhavam, trocavam ideias, falavam dos filhos e netos, colocavam os assuntos em dia e ainda regavam a velha árvore, logo na entrada do parque. Aquela árvore era como se fosse delas. Tanto que fizeram um pacto. Se morressem, os corpos delas seriam cremados e as cinzas jogadas na árvore do parque. Afinal, quer beleza e poesia maiores do que permanecer junto às raízes de uma árvore centenária por toda a eternidade?

Em 15 de dezembro de 2008, Amélia partiu aos 91,5 anos, mas a família não gostou do item cremação. E, apesar do desejo de Amélia, ela foi enterrada no Cemitério Parque da Colina, porque as filhas acharam que a cremação não tinha a ver com a cultura religiosa da família. Não adiantaram os argumentos de que ela pedira para descansar aos pés da árvore.

Cinco anos depois da morte de Amélia, minha mãe, senti profunda saudade das amigas dela. E saí em peregrinação por Belo Horizonte, para saber como estavam.

Renée de Lima Viana está com 100 anos. Altiva, apesar de ter perdido três dos cinco filhos, Renée sobrevive com dignidade, agora na Rua do Ouro, no Bairro da Serra. Como a árvore centenária do Parque Municipal, Renée tem raízes fortes fincadas na terra de seus muitos anos. Está lúcida, inteira, mas já não tem o mesmo gosto pela vida.

Depois de uma existência inteira dedicada ao magistério, aos doces que fazia tão bem e à família, Renée confessou que “fazer 100 anos é pesado, principalmente depois da perda de três filhos.” O primeiro filho morreu há tempos, mas Ângela, a caçula, foi embora depois de uma curta e dolorosa doença. E Renée, que já havia pago até a cremação e comunicado o desejo aos outros filhos, cedeu tudo para o rito de passagem da filha mais nova. Depois foi a vez de Maria Lydia, a mais velha, que partiu deixando para trás um rastro de angústia e saudade. “Enfiaram uma faca dentro de mim,” diz Renée, “desapareci”.

E ela, que sempre gostou de cantar em corais, de fazer doces, de comandar a própria vida, hoje diz que “as pernas não ajudam mais, a cada dia pioram um pouco”. Mas é só pedir à Renée para assinar seu nome inteiro numa folha em branco que as letras surgem belas, sem tremores, sem denunciar a idade. Mas de uns tempos pra cá, Renée está mais triste nem gosta de sair de casa. Em seu aniversário de 100 anos, no entanto, ela soprou todas as 100 velinhas dispostas no bolo, mas disse à Marilene e Roberto, os dois filhos vivos, que não queria convidar ninguém para o aniversário. Não tinha ninguém mais para convidar, que todas as suas amigas tinham partido antes dela.

Marina e Cid

Marina e Cid

E Marina? Porque não foi ao aniversário de Renée? Para saber como estava Marina, fui ao seu apartamento, no centro da cidade, que fica em um daqueles prédios confortáveis, amplos, perto do Sesc Palladium. Fui recebida pelo marido de Marina, Cid Magalhães, de 86 anos. Ele me convidou para entrar e me levou até o sofá da sala, onde Marina Afonso Magalhães estava sentada. Ela vai completar 90 anos em junho.

Confesso que o sorriso de Marina ficou gravado em mim, mesmo depois que deixei o apartamento. Um sorriso sem mácula, aberto, íntegro, perfeito. O sorriso de Marina me persegue até agora. Ela sorri como se o mundo fosse perfeito, inabalável, sem sofrimento, sem doenças. Acometida pelo mal de Alzheimer há cinco anos, ela só sabe sorrir. Não se lembra de quem é ou de quem foi. Não reconhece ninguém. Nem mesmo os dois filhos Alysson, de 57 anos e Cid José, de 54. Não dá notícia de nada. Nem mesmo do marido que está casado com ela há 60 anos, mas não teme em dar as mãos para Cid quando os dois, juntinhos, vão assistir televisão.

Cid está mais magro, cansado, com uma herpes no rosto que nenhum médico tem o remédio, mas resiste por Marina, pelo seu grande e único amor. Todas as noites, ele vai até o oratório, onde fica a imagem e Santa Terezinha, que Marina tinha a maior fé. E Cid reza, pede que dê mais tempo de vida à Marina, apesar de todos os pesares, porque ele não saberia viver sem ela.

Foi com o sorriso de Marina e a imagem do casal de mãos dadas diante da televisão, que saí do apartamento, com uma vontade imensa de desejar a todos um amor como esse, que sobrevive aos caprichos do tempo, às intempéries. E é na força de Renée que eu me espelho para continuar navegando pelo destino que não nos pertence. Obrigada Renée, obrigada Marina, obrigada Cid por me fazerem acreditar no milagre da vida, que tudo vale a pena, apesar das perdas, das doenças, dos dias escuros. Obrigada a vocês pela luz que derramaram sobre as minhas sombras!

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6 Comentários

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vanessa alves 19 de abril de 2014 - 18:05

Emocionante,tenho muita saudades dos seus texto no EM ,vc é demais…sou sua fã

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Magda Campbell 18 de abril de 2014 - 02:34

Fiquei emocionada com o texto “Como vão as amigas de minha mãe?” A Déa soube expressar-se com leveza, detalhamento e muita emoção. Adorei! Seu texto é de um encantamento sem limites. Parabéns!

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Mirian 17 de abril de 2014 - 22:21

Emocionante!!!!
Lembro-me de minha mãe, que nos deixou a dois anos atrás, com sua luta com um terrível câncer de pele no rosto, que a deixou sem nariz, sem um olho e com um enorme buraco no rosto.
Mas, ela era tão linda……..

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Melanie Baeta 17 de abril de 2014 - 16:56

Que falta você nos faz Déa! Suas crônicas são poesia ,luz, alento nesta nossa vida atribulada.Um abraço e muito obrigada.

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Tinda Costa 17 de abril de 2014 - 14:14

Lindo, Dea! A sensibilidade que você transborda em seus textos sempre me comove! Bj

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Elida Torrent 17 de abril de 2014 - 02:53

E obrigada a vc Déa Januzzi, por escrever um texto tão lindo!

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