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Confesso que hoje estou precisando de mãe

Por Maya Santana

Estou mais do que nunca precisando de mãe, de colo, de abraço

Estou mais do que nunca precisando de mãe, de colo

Esta crônica de Déa Januzzi é dedicada às mães de todas as idades, casadas e solteiras, alegres e tristes, abnegadas e descoladas. É dedicada também às mulheres que se tornaram mães por desejo, aquelas que, mesmo  sonhando muito, nunca conseguiram embalar um filho em seus braços.

Déa Januzzi

Confesso que, hoje, mais do que em todos os outros dias, estou precisando de mãe. Precisando de colo, de abraço, de almoço em família preparado por mãe. Confesso que, hoje, mais do que em outros dias do ano, escuto o ruído do almoço nos apartamentos vizinhos, num sobe e desce dos elevadores com filhos carregados de presentes e de transparente alegria.

Confesso que não importa a idade nem o nome. Podem ser chamadas de Amélias, Claras, Neuzas, Ephigenias, Renées, Marinas, Juracys, Marias e Madalenas, Margaridas e Helenas, mães dos filhos de minha geração que ainda estão comemorando a data ou que já partiram deixando um imenso buraco no peito – e na vida – de cada um de nós.

Confesso que Dia das Mães sem elas é como vinho avinagrado, como bolo sem cobertura, festa de criança sem brigadeiro e algodão doce. É como céu sem lua e estrelas, flor sem perfume, chuva sem arco-íris, sede sem água para beber, fome sem ter o que comer. Dia das Mães sem elas é como noite sem dia, hoje sem amanhã. É como taça de cristal escorrendo o vazio, é como tropeçar na escuridão.

Confesso que nunca gostei de Dia das Mães, que protestei contra datas comerciais, que cheguei atrasada, com a cara amarrada, para os inúmeros almoços dessa data. Por anos reclamei da comida, da reunião de família, da obrigação dos encontros em que ninguém parecia disposto a se fazer presente de corpo e alma.

Confesso que, hoje, mais do que em todos os outros dias do ano, sinto falta desse dia sem Amélia, minha mãe, que partiu há quase seis anos. Sinto falta da comida de Amélia, do cheiro de mãe, da paciência e sabedoria, do reinado absoluto que só as antigas mães exerciam.

Confesso que hoje sou mãe. Mas estou mais do que nunca precisando de mãe, mesmo que o tempo tenha caprichado nas rugas, nas dores, no rastro de saudade que ela deixou. Mesmo que tenha de apelar para a minha mãe interna, porque hoje sou órfã adulta, como definiu a psicóloga Cibele Ruas. “A orfandade traz uma desagradável sensação de desconexão com o passado”. Fiquei sem passado, sem família, sem chão para pisar, sem raiz, sem norte. Sinto-me presa num quarto escuro, sem saber onde está o acendedor. Não sei nem se tem vela para iluminar. Não acho isqueiro nem fósforo. Nem uma greta de luz. Nem uma fresta. Não tem nem lanterna para tatear a dor, para marcar território, para saber onde estou.

Confesso que hoje sou mãe, num outro tempo e circunstância. Confesso que ser mãe me redimiu, me salvou de mim mesma, das minhas esquisitices, da minha própria insanidade. Confesso que, como outras mulheres da minha geração, estou aprendendo a ser mãe, que não é tarefa fácil num mundo de pais ausentes, de valores conturbados, de famílias desagregadas. De mães atônitas e aflitas. Confesso que ser mãe sozinha é como estar num barco à deriva num mar revolto. É como ser um náufrago que submergiu e que se salvou das tempestades e vendavais.

Confesso que tenho que exercitar a minha capacidade de ser mãe todo dia, que aprendi a rezar até para Nossa Senhora Desatadora dos Nós, a fazer promessas, a acreditar em milagres, porque mãe precisa de altar para depositar os seus medos e fantasmas, para professar a sua fé no amanhã. Mãe precisa de algo maior para acreditar que esse mundo tem jeito. Mãe precisa de um mundo menos cruel, menos rude para com os seus filhos. Mãe de hoje precisa de transcendência, de tornar pública a nudez da solidão.

Confesso que neste dia, mais do que em outros, gostaria de dizer às recém-chegadas mães que vale a pena entrar no partido mais politicamente correto e fiel de todos os tempos. O Partido das Mães Unidas, que não muda de legenda nem de sigla, que não se corrompe nem trapaceia, que não compactua com a hipocrisia nem com os desarranjos políticos, porque é assim: “Mães unidas jamais serão vencidas”. E viva o dia de todas as mães que estão agora nas mansões ou nos aglomerados, nos campos de guerra ou do asfalto, mães humilhadas e ofendidas, violentadas no mais profundo do seu ser, mães que têm a leveza da alma, mães pacificadas ou não, centradas ou desorientadas. A todas as mães que lutam pelo direito à vida!

Déa Januzzi é jornalista e escritora.

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2 Comentários

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Maria Celeste 11 de maio de 2014 - 16:09

Desde que minha mãe se foi o Dia das Mães ficou truncado e Déa consegue traduzir em palavras o sentimento que passa em nosso coração.

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Margarida cardoso 11 de maio de 2014 - 12:03

Pra você DÉA,todos os colos e carinhos do universo.
Vc é muito, muito especial!!!
PARABÉNS!!!!

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