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Conversando com Deus – Déa Januzzi

Por Maya Santana

Tânia, se desdobrando para atender a mãe e o marido, ambos com alzheimer

Tânia, se desdobrando para atender a mãe e o marido, ambos com alzheimer

Conhecer Tânia Regina Leroy Gatte, de 58 anos, é estar perto de Deus. Aposentada pela Cemig, ela dedica a sua vida a cuidar da mãe, de 88 anos, com Alzheimer em estágio avançado – e do marido, de 57, na fase inicial da mesma doença. A mãe, Delorme Marcelos Leroy não anda mais. Está na cama há dois anos, ouve mal, não enxerga por causa de um glaucoma, não fala, não se alimenta nem consegue fazer suas necessidades físicas sozinha. Não faz xixi há tempos, por isso Sônia tem que passar a sonda três vezes ao dia. A alimentação é específica. Toma miguau de manhã, sucos com espessantes de hora em hora, até chegar à vitamina bem batida no liquidificador às 16h. Adora banana amassada com mel. Então, continua com os líquidos com espessantes, para que não engasgue ao engolir. Antes de dormir, outra vitamina. E cerca de 20 remédios todos os dias.

Nem tente falar com Tânia na parte da manhã, pois ela está cuidando da mãe e do marido, Rosivaldo Barbosa que há cinco anos apresentou os primeiros sinais de Alzheimer. Como a mãe de Tânia que começou esquecendo as receitas dos bolos que levava para comer com as amigas das aulas de hidroginástica e natação. “Um dia, ela esquecia de colcoar o açúcar, no outro não se lembrava da farinha de trigo, até que me pediu para fazer o bolo”.

O marido de Tânia, por sua vez, teve que parar de dirigir automóvel, não mais conseguia consertar o que estragava dentro de casa, tarefa que desempenhava com maestria. Depois começou a gastar muito, detonou o cheque especial. E hoje não encontra mais nem o caminho do banheiro. Ele se perde entre a sala e o banheiro. Começou a se perder dentro da própria casa. Não faz mais suas necessidades físicas sozinho, não sabe ligar nem desligar a televisão, não fala ao telefone nem consegue tomar banho. Tânia tem que ajudá-lo em tudo. Com uma diferença da mãe, Rosivaldo é muito novo, tem energia e é forte. Exige mais da mulher, que sabe: “Quando a doença se manifesta cedo, o resultado é galopante, enquanto na pessoa mais velha pode durar 20, 30 anos”.

A mãe ensina à filha todo dia a ser uma pessoa melhor. “É Deus”, reconhece Tânia, “quando você pensa que não tem mais força, ela aparece de repente, porque ela foi uma mãe carinhosa, maravilhosa e hoje sou eu que cuido dela. Trocamos os papéis. Hoje, sou eu que dou colo para minha mãe e, apesar de ela não falar, reconheço os sinais. Até pelo olhar sei se ela está precisando de alguma coisa”.

Há 10 anos com a doença de Alzheimer, a mãe de Tânia começou perdendo a memória das mínimas coisas, depois passou a gastar em excesso, a comprar tudo o que lhe ofereciam, a esquecer de pagar, abrir o portão de casa sem saber quem era, a receber qualquer comprador que aparecesse.

Exploravam a minha mãe de todas as formas,” então, tive que tomar o cheque e correr atrás dos que estavam se aproveitando dela. Por último, tive que trazê-la para morar comigo, mudança que ela não gostou. Durante um ano foi muito difícil, ela chorava o dia inteiro e eu como qualquer pessoa normal tenho que confessar que às vezes perdia a paciência. Tive que procurar ajuda, porque foi um período muito sofrido para ela e para a minha família.”

Para evitar as saídas exaustivas com a mãe, Tânia recebe os médicos em casa, graças ao convênio médico da empresa onde trabalhou. Dona Delorme tem fisioterapeuta três vezes por semana, médica geriatra tanto quando necessita, dentista para limpar os dentes, fonaudióloga para ver se ela está engolindo direitinho – e até nutricionista.

Como é que Tânia encontra forças para tudo isso? “Sou uma pessoa de fé e nada acontece por acaso. Acredito que essa doença é um tratamento espiritual não só para o doente, mas para toda a família.

Para minha mãe que sempre foi muito amargurada por não ter sido criada pela mãe dela, o Alzheimer adormeceu essas lembranças negativas. Ela ficou mais leve. Para mim, a doença dela me fez lembrar de que eu era uma Tânia antes e hoje sou outra pessoa. Fiquei mais tolerante e paciente”. Adepta da doutrina espírita há mais de 30 anos, Tânia reconhece que a doença da mãe e do marido me tornaram uma pessoa melhor.”

Ela não sai mais, não passeia, não tem muito tempo para diversão, mas se cuida. Faz Pilates duas vezes por semana, voltou para as sessões de psicanálise e tem uma pessoa que a ajuda de dia e outra à noite, mas reconhece que sua missão vai além da matéria. “A gente nasce, vem neste mundo para a evolução do espírito. A matéria é só um meio dentro das infinitas oportunidades de crescimento espiritual.”

Como um ser humano normal, ela tem os seus dias ruins. “Aí, eu apelo para uma pitada de bom humor, canto, debocho de mim mesma, pois tenho uma visão otimista de tudo, sempre procuro ver o melhor ângulo de tudo e assim vou vivendo”. Tem dias que Tânia procura o grupo de apoio de Judy Robbe.

“Lá, a gente aprende muito, troca idéias. Percebe que tem outras pessoas vivendo o mesmo, um conforta o outro. É um apoio incondicional”. Mas ela sabe que “a força maior vem de Deus”.

Esta crônica foi publicada originalmente no 50emais em junho de 2015.

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2 Comentários

Camila 18 de fevereiro de 2016 - 11:52

Uau Déa!
Essa crônica deve ser publicada de tempos em tempos para que possamos nos lembrar da grandeza da Fé.
Parabéns!

Responder
nenez rick 9 de fevereiro de 2016 - 21:43

¨”Deus dá o frio conforme a cobertura”, a fé dá força e mostra os caminhos.

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