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Cresce cada vez mais internação e consulta em domicílio

Por Maya Santana

As consultas em casa são cada vez mais frequentes, porque dá mais conforto ao paciente

As consultas em casa são cada vez mais frequentes, porque o paciente não precisa se deslocar e tem mais conforto

*Dr. Márcio de Sá –

Uma tarde bonita do fim do ameno inverno carioca. Uma rua tranquila no bairro do Leme, no Rio de Janeiro. Chego pontualmente ao domicílio de D. Euzébia B., 91 anos e sou recebido à porta por sua filha mais velha, que mora com a mãe e cuida dela.

D. Euzébia teve o diagnóstico de Doença de Alzheimer inicialmente suspeitado, e confirmado um ano mais tarde, há sete anos. Tudo começou de maneira branda, quase imperceptível pelos familiares, mas, pouco a pouco, tudo foi se complicando.

Os leves esquecimentos – já presentes há anos, antes da instalação do começo da doença – foram aumentando e tornaram-se muito importantes. Uma inicialmente discreta alteração da lógica do pensamento e da fala, assim como uma pequena alteração motora, inicialmente só das mãos, em seguida das pernas e da marcha, surgiram e só foram se agravando, tornando inválida a anciã.

Da cabeça aos pés

Os meses foram passando, os anos foram passando e, quando encontro pela primeira vez D. Euzébia, há cerca de um ano atrás, para uma consulta médica e o planejamento de um seguimento clínico mensal, ela não fala mais, não reconhece mais ninguém, nem mesmo a filha, com quem mora há mais de 20 anos. Ela não anda mais, não se alimenta mais pela boca, e vive restrita ao leito. A incontinência urinária e a incontinência fecal apareceram e permaneceram, definitivamente. Uma sonda gástrica teve que ser instalada para a alimentação artificial. Duas cuidadoras, que se revezam, foram contratadas e uma empresa de Home Care fornece alguns medicamentos, uma cama hospitalar e a visita quinzenal de uma enfermeira.

Na consulta inicial, de cerca de duas horas de duração, faço uma avaliação global da, desde então, minha paciente, pesquiso a sua história médica completa desde a infância, assim como a da sua ascendência materna e paterna e a dos tios e primos. A examino da cabeça aos pés, reviso e excluo alguns dos inúmeros medicamentos que ela toma diariamente. Converso longamente com a filha responsável, um filho e um neto adulto presentes. Explico longamente a doença, o seu prognóstico, respondo a inúmeras perguntas e esclareço muitas dúvidas e curiosidades – algumas, fora do quadro da doença e do atendimento em questão. Planejo com a família o seguimento médico que julgo pertinente, necessário e que proponho, o qual é aceito e coloco-me à disposição da família e das cuidadoras para eventuais problemas agudos, pessoalmente e pelo celular. Finalmente oriento o trabalho das cuidadoras, corrigo cuidados inadequados ou insuficientes, ensino novas práticas e estabeleço com elas o nosso trabalho conjunto e com o apoio da família, doravante mensal, para o melhor bem-estar possível de D. Euzébia. A enfermeira da Home Care foi contatada no dia seguinte.

Insatisfação pessoal

Marina F. é uma importante e bem sucedida executiva de um grande empresa comercial internacional. Ela tem 43 anos. Sou chamado para uma consulta domiciliar e encontro a jovem mulher doente e acamada há 5 dias, completamente prostrada, levemente febril, mas sem febre verdadeira contínua. Ela apresenta também importantes dores não musculares pelo corpo, dores abdominais atípicas, uma leve diarréia e está totalmente inapetente. Uma anamnese completa (entrevista feita pelo médico que tem como objetivo ser o ponto inicial do diagnóstico de uma doença, buscando relembrar todos os fatos que se relacionam com a doença e com a pessoa doente) foi realizada. Um exame físico também completo é igualmente feito.

Ao final do exame, converso durante muito tempo com a paciente sobre a sua doença aguda atual e o seu importante sobrepeso. Ela me pede para analisar exames laboratoriais realizados seis meses atrás, nos quais constato importantes distúrbios das gorduras do sangue e de um estado pré-diabético.

Ela me fala longamente da sua insatisfação pessoal com a vida, de seus problemas familiares com as duas filhas, uma adulta e uma adolescente, sobre a ausência do pai junto às filhas, de quem é separada há vários anos, da sua enorme sobrecarga de trabalho e da imensa responsabilidade que pesa sobre ela. Constato uma depressão crônica revelada por uma grande irritabilidade, um acentuado estresse e uma quase bulemia crônicos e suspeito clinicamente de uma virose tropical. Marina havia viajado a trabalho à Amazônia uma semana antes de adoecer abruptamente. Após a consulta e antes de prescrever alguns exames, converso, pelo telefone, com uma colega do Instituto de Medicina Tropical de Manaus, grande especialista das viroses tropicais.

Viagem proibida

Ela tem uma viagem de trabalho agendada para um país africano dentro de 6 dias, seguida, diretamente, de uma estadia de dois dias numa capital européia. Tenho bastante dificuldade de fazê-la ver e em convencê-la de que isso está completamente contra-indicado, é irresponsável e não pode acontecer. Solicito alguns exames de sangue, incluindo os sugeridos pela colega manauara, que são disponibilizados com um importante atraso pelo laboratório e constato, finalmente…, um caso de Dengue…, o qual não fazia parte das minhas hipóteses diagnósticas, devido à sua apresentação clínica muito atípica.

Após os cuidados e os dois medicamentos sintomáticos prescritos, acordamos uma nova consulta médica domiciliar dentro de trinta dias, para a abordagem do sobrepeso, da relevante alteração do colesterol, de outros exames, do estado pré-diabético e dos problemas da vida.

Na consulta do mês seguinte, encontro Marina completamente curada da Dengue. Prescrevo-lhe um antidepressivo, para ser utilizado por no mínimo seis meses e também um ansiolítico. Prescrevo também exercícios físicos diários, com o apoio de um Personal Trainer. Novos exames laboratoriais são solicitados, uma nutricionista é indicada – visando a um regime alimentar personalizado – e uma outra consulta domiciliar é agendada para 4 meses depois.
Estes são dois casos de consulta domiciliar.

Internação Domiciliar

A Home Care – Internação Domiciliar – foi verdadeiramente introduzida no Brasil pelo Setor Privado nos anos 1990 e pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2006. Desde então, teve um largo desenvolvimento em todo o país, quase exclusivamente, entretanto, nas capitais dos estados e nas grandes cidades. Ela é principalmente fornecida por empresas privadas de internação domiciliar, que, infelizmente, disponibilizam, muito frequentemente, um atendimento e um seguimento de baixa qualidade, ética que deixa a desejar e baixa eficácia. Um dos maiores e graves problemas dessas empresas é a baixa competência profissional dos Técnicos de Enfermagem, advinda da formação profissional de muito baixo nível a que a grande maioria deles é submetida.

A Internação Domiciliar é indicada para aqueles doentes portadores de doenças crônicas de todas as idades e para as pessoas com senilidade avançada, que necessitam de cuidados médicos, de enfermagem, fisioterapêuticos e nutricionais contínuos que podem, e devem, ser fornecidos em casa, evitando, assim, longas internações hospitalares.

Como se sabe, o risco de contração de uma infecção hospitalar – que é, quase sempre, grave e de difícil tratamento -, é mais frequente quanto maior é a permanência no hospital e quanto mais avançamos na idade.

A Internação Domiciliar está também indicada para seguimentos curtos: médicos, fisioterapêuticos, realização de curativos frequentes – úlceras de escara em pessoas que permanecem por longos períodos acamadas, por exemplo – e tratamentos de curta duração. São exemplos: períodos pós-cirúrgicos, usos de antibióticos e de outros medicamentos de uso venoso obrigatório, séries de sessões de fisioterapia em pessoas de difícil mobilidade, devida ao motivo da necessidade de tratamento fisioterapêutico em questão – pós fraturas, por exemplo. Um puerpério complicado pode, e deve, igualmente, ser tratado e seguido em domicílio.

Pessoa de idade muito avançada, as quais, em geral, têm grande dificuldade em saírem de suas casas, são também amplamente beneficiadas, assim como pessoas de todas as idades que apresentam dificuldades importantes para se deslocarem.

Consultas em domicílio

As consultas médicas realizadas em domicílio existem há muito tempo e vêm crescendo cada vez mais. As razões recentes que propiciaram o seu grande desenvolvimento atual estão relacionadas àquelas pessoas agudamente enfermas e que preferem não ter que se deslocar ao consultório de um médico ou a um Pronto Atendimento ou hospital para serem atendidas. Filas e longas esperas, atendimento nem sempre satisfatório são, assim, evitados. Elas estão também relacionadas ao conforto da pessoa que quer ou precisa realizar uma consulta médica, mas prefere a comodidade de poder ser atendida em sua própria casa, com horário marcado e não ter que ir ao consultório.

Essas consultas são muito mais longas que as habituais, havendo, desta forma, maior possibilidade e muito mais tempo para que todos possam abordar não apenas o motivo específico da consulta em questão. Há espaço para poderem conversar com o médico sobre outros problemas, médicos e não médicos, e questões de suas vidas que os afligem, terem à disposição, no conforto de suas próprias casas, a escuta atenta dos médicos que são profissionais bons e éticos.

*Márcio de Sá é médico clínico formado pela UFMG, especialista em Medicina Preventiva, Mestre em Saúde Pública pela Université Paris VI, e trabalhou durante 11 anos no Hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris. O médico, que mora e trabalha no Rio de Janeiro, escreve todas as terças-feira aqui no 50emais.

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9 Comentários

Dr. Márcio de Sá 3 de novembro de 2015 - 23:03

Meu querido Juca,
Que belo, amoroso, carinhoso, doce é o seu comentário!
Você é um querido irmão e um querido paciente!
Quantas vezes não conversamos, você e eu, sobre a dificuldade que é para um médico diagnosticar, tratar, acompanhar clinicamente uma pessoa muito íntima, muito próxima, um membro da família ou um grande amigo.
Um médico tem, é claro, que estabelecer com o seu paciente uma relação profissional afetiva e cordial, mas o “distanciamento íntimo” faz com que esse médico possa melhor diagnosticar, melhor tratar e melhor acompanhar um paciente, em suma, ser um melhor profissional.
Pode parecer estranho dizer isso, mas assim é.
Como já conversamos, repetidas vezes, é difícil para mim ser o seu médico, mas eu não poderia deixar de sê-lo. Nunca. E o sou com como o melhor médico que eu consigo ser, com todo profissionalismo, com toda ternura, com todo amor.
Eu estou muitíssimo feliz e com o coração alegre, como seu irmão e como seu médico, com a sua espetacular melhora e agradeço a Deus por poder te ajudar e tanto aprender, como pessoa, como médico e como irmão, com a pessoa linda que você é, o ser humano tão desenvolvido que você é, o irmão tão querido que você é, o paciente tão adorável que você é!
Muito obrigado, Juca, por poder me ajudar a continuar crescendo e a ser, cada vez mais, um médico melhor!

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Edmar de Sá 3 de novembro de 2015 - 12:42

Dr. Márcio, é com carinho, forte emoção e conhecimento de causa que vou repetir aqui o que sempre lhe digo em nossas longas conversas telefônicas : vc é de uma competência simplesmente extraordinária. Sempre soube disto, mas vc veio me mostrar com toda nitidez e senso profissional no trato desta pessoa que vos fala e por acaso ou não seu irmão. me tirou de um estado altamente depressivo, demência , uma loucura verdadeira. Pensava que não sairia desta, foi terrível e tenho e vc tbem a consciência de que se não fosse a sua perseverança, entrega total e absoluta competência de saber o que estava fazendo, penso que o desfecho não seria promissor. Vc me curou, como paciente contribui, mas a sua perseverança , a certeza de que estava trilhando o caminho absolutamente certo, repito: teria me sucumbido.
Obrigado Dr Márcio, meu irmão, médico e grande amigo. Com afeto, Edmar

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lisa santana 17 de outubro de 2015 - 11:46

Ótimo esta volta do médico domicliar. Esta prática era comum nas cidades do interior e acredito que em um Brasil de “antigamente”. Me lembro perfeitamente que os pacintes, principalmente os mais idosos, melhoravam só de ver o médico. Claro, havia casos sérios. Mas como é humano esta forma de tratar a doença e o paciente.
Ótimo artigo Marcinho. Esclarecedor e reconfortante.

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Dr. Márcio de Sá 17 de outubro de 2015 - 13:51

Obrigado, Lisa, que bom que você tenha gostado! Um grande abraço para você.

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Gislayne Matos 16 de outubro de 2015 - 15:54

Dr Marcio adorei esse artigo e queria fazer a observação de que as pessoas como eu de 60 e mais um pouco, ainda que não sejamos pacientes nesse caso estamos às voltas com pais e outros familiares que dependem de nossa ajuda e saber que se pode contar com um atendimento dessa qualidade é uma maravilha.
Obrigada mesmo

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Dr. Márcio de Sá 16 de outubro de 2015 - 17:33

Obrigado, D. Gislayne! A Senhora é realmente uma das minhas pacientes ideais…!

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Maria José do Carmo Mármori 15 de outubro de 2015 - 19:36

Que maravilha este artigo! Parabéns Dr Márcio de Sá pelo carinho!!!!

Responder
Dr. Márcio de Sá 15 de outubro de 2015 - 21:50

Muito obrigado, Maria José. Grande abraço.

Responder
nenez 14 de outubro de 2015 - 11:08

Muito bom artigo! Me angustia muito a ida constante a vários médicos ( até pela idade,69 anos) e passar por consultas rápidas, estanques e direcionadas para um só aspecto e não para a pessoa como um todo.

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