De bóia-fria a uma das maiores pintoras do Brasil

Por Maya Santana
Djanira nasceu em Avaré (SP) e faria 100 anos em 19 de junho

Djanira nasceu em Avaré (SP) e faria 100 anos em 19 de junho

Djanira está entre os artistas plásticos brasileiros que mais brilharam, aqui no Brasil e no exterior. Ela foi boia-fria e costureira, entre outras profissões. E pegou pela primeira vez em um pincel aos 23 anos. Com uma história de vida das mais sofridas, tem na biografia um episódio que assusta e comove, como conta este artigo escrito por Audrey Furlaneto para o jornal O Globo: “Os pais a abandonaram numa cidadezinha em Santa Catarina quando tinha 2 anos. Deixaram-na em casa de vizinhos, prometendo busca-la em 15 dias. Nunca voltaram”.

Leia o artigo:

Djanira trabalhou em lavoura de café, em criação de gado, em cozinha de família, foi modista, chapeleira e costureira antes de tocar num pincel pela primeira vez quando, aos 23 anos, em 1937, internada num sanatório para se tratar de tuberculose, viu na parede um desenho de Jesus Cristo e brincou: “Isso até eu faço”.

Santana - quadro é parte do acervo do Museu de Arte Moderna do Vaticano

Santana, do Museu de Arte Moderna do Vaticano

Saiu do hospital para morar em Santa Teresa e lá abriu uma pensão. Assim, vivia de costurar para damas cariocas e alugar quartos para artistas — mas se fechava na cozinha à noite, quando todos dormiam, para desenhar. Aos poucos, em seu ateliê de costura, moldes de saias, rendas, fitas e retalhos conviviam com incontáveis desenhos sobre papel.

Num depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) em 1967, ela se lembrou daquele tempo: “Uma moça da Suíça francesa me pediu para lhe fazer um vestido, chegou ao meu ateliê, viu aquela porção de desenhozinhos na parede e perguntou: ‘De quem são?’. Eu disse: ‘São meus’. Ela: ‘Não, eu quero saber quem fez’. Eu disse: ‘Fui eu’. E ela: ‘Então você é uma artista!’. Eu falei: ‘Não, isso é brincadeira minha’”.

A pintora é considerada uma das mais importantes do Brasil no século XX

Uma das pintoras mais importantes do Brasil no século 20

A moça lhe apresentou o pintor Emeric Marcier (1916-1990), que, diante dos desenhos de Djanira, manteve o diagnóstico: “Você é artista”. Ela reclamou: “Não queria que ninguém me chamasse de artista. Achava que, para ser artista, tinha que saber muita coisa que eu não sabia. Artista, para mim, era sagrado”.

Na próxima quinta-feira, Djanira faria 100 anos. Morreu em 1979, “sagrada”, com uma extensa obra em pintura e comparada, por críticos de arte, a Alfredo Volpi e a Heitor Villa-Lobos — em 1948, o crítico Rubem Navarra diria: “Vemos uma Djanira suburbana e requintada, um processo psicológico parecido ao da música de Villa-Lobos, que, partindo do chorinho, encontrou um dia a técnica de Bach”.

Futebol Fla x Flu, pintado em 1975, pertence ao Museu Nacional de Belas Artes, Rio

Futebol Fla x Flu, de 1975, do Museu Nacional de Belas Artes, Rio

Sua obra está concentrada no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio, dono do maior acervo da artista, com 814 obras. A coleção Gilberto Chateaubriand tem 16 pinturas, e o Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, outras quatro. Agora, uma seleção de 40 obras da artista pode ser vista na Caixa Cultural do Rio até 20 de julho. “Djanira — Pintora descalça” reúne telas que ela dedicou ao trabalho (um de seus temas favoritos), como “Trabalhadores de cal” (1974), retratos e paisagens, como “A fazenda” (1966). O MAM também expõe uma de suas pinturas, a recém-restaurada “Fazenda de chá no Itacolomi” (1958), em mostra até o dia 29.

No mercado, suas pinturas também passam por valorização. Nos anos 1960, a própria pintora denunciou falsificações que baixaram o preço de seus trabalhos. Nos anos 1980, seus óleos custavam entre um e três milhões de cruzados — “preços surpreendentemente baixos”, dizia uma reportagem da época, no “Jornal do Brasil”. Recentemente, uma tela de sua autoria foi arrematada por R$ 100 mil em um leilão no Rio.

Cena da realidade brasileira: cores vivas e fortes

Maior parte das obras da artista estão no Rio, no MNBA

No início da carreira de artista, Djanira precisou rebater o rótulo de naïf ou primitiva. Isto porque aprendeu a desenhar sozinha, e das poucas aulas que fez no Liceu de Artes e Ofícios no Rio, não gostou — não conseguia obedecer ao professor, gostava de estar com seu cavalete na natureza, não era uma pintora de ateliê. “Era movida por liberdade e tinha um mundo muito peculiar”, lembra a amiga Anna Letycia, de 84 anos, que viajou com Djanira rumo ao Maranhão nos anos 1950.

— Ela se achava muito forte, muito valente. Tinha poucas vacas lá, sabe? E ela resolveu tomar leite. Acontece que as vacas comiam muito sal, e ela teve um desarranjo que nos obrigou a ir embora de avião — diverte-se Anna, que continua rindo entre as memórias daquela viagem. — Mesmo no hotel, Djanira dizia que preferia dormir em rede. Mentira dela! Acordava toda desconjuntada! Ela era muito engraçada. Tinha um ritmo de trabalho muito intenso. Carregava o cavalete para o meio da natureza e não parava. Às vezes, nós pintávamos a mesma coisa e (o tema) saía diferente. Eu dizia: ‘Como pode, Djanira?’. É que ela via diferente. Ela vivia num mundo particular. Clique aqui para ler mais.


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1 Comentários

Rosane Bissoli 15 de junho de 2014 - 23:10

Uma história tão bonita tinha que ter reflexos na arte!

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