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Déa Januzzi: É preciso exorcizar os demônios do meio-dia

Por Maya Santana

A mulher sabe que a sua alma também tem marcas de sua história

A mulher sabe que a sua alma também tem marcas de sua história

A água misturada com detergente, limpa as paredes do banheiro, e a alma de quem esfrega está cada dia mais suja de medo. As manchas custam a sair e a mulher vai atrás de um pano de chão maior, de um desinfetante mais forte, capaz de desintegrar a sujeira acumulada nas gretas do boxe. Ela precisa do banheiro brilhando: por isso esfrega as paredes, o chão, as entranhas do vaso sanitário, a tampa cinza da sua existência. Precisa exorcizar os demônios do meio-dia.

Passa limpa-vidros no espelho largo do banheiro, tira os respingos do dentifrício, até se enxergar inteira, sem máculas, sem susto. Olha para os dentes amarelos de cigarro e pensa em fazer uma faxina que inclui a boca, a língua, os sinais amargos do tempo. O fio dental vai cortando a gengiva, retirando o tártaro, apagando o vício com bicabornato e escova de dentes dura. Enfim, ela sorri para si mesma. É como uma radiografia panorâmica da boca que ela sempre prometeu ao sobrinho dentista, mas nunca fez.

A mulher enquadra cada dente no pedido de radiografia periapical, que ela não sabe o que é nem pretende consultar no dicionário. Os dentes limpos se refletem na parede do banheiro. Ela tem vontade de ficar debaixo do chuveiro por 30 minutos, enquanto esfrega a bucha de cerdas macias pelo corpo. Aperta o vidro de xampu até o fim, como se o perfume pudesse escorrer pelas veias abertas do seu coração e abrir as portas da percepção.

Envolta na fumaça da água quente do chuveiro, que toma conta de tudo, ela escorre pelo ralo transformada em vapor, em amor líqüido. Com os dedos das mãos enrugados, esfrega os recônditos mais secretos, se embola na sensualidade do banho, nas curvas da parede, no cabelos molhados, nos cílios dos olhos que insistem em se abrir em meio a uma poça de vaidades.

A pedra-pomes completa o serviço, retira as calosidades dos pés, as rachaduras do longo caminho já percorrido, clareia as unhas escurecidas de tanto andar, até que a mulher enxerga a tatuagem tribal já apagada pelo tempo. Pensa na dor das agulhas furando a pele da perna e tingindo os corredores do desenho. Nas marcas propositais, como as das tatuagens que sangram devagar, mas ao final de tudo, enfeitam.

A mulher sabe que a sua alma também tem marcas de sua história, tatuadas sem agulhas, sem cores, sem desenho. Marcas de amores estranhos, de sonhos desfeitos, de perdas insubstituíveis, de amigos que se foram, de inimigos que continuam bem perto, que insistem em tatuar a dor na superfície tênue do espírito.

Frida late do lado de fora do banheiro, e ela se lembra que é preciso terminar o banho e a lavagem do banheiro. Enrola-se na toalha felpuda, nova, retirada para um ritual novo. Demora enxugando as gotas perdidas no ventre, e quer mais do que a paz daquele banho.

Depois de enxugar o corpo e o chão do banheiro, a mulher abre a porta e a fumaça aprisionada escapa devagar, como se fosse o gênio da lâmpada. O cheiro de frango com alho e gengibre sai da cozinha, e a mulher se lembra de que o filho assumiu a tarefa de fazer o almoço. Ela sabe que ele destrincha frango melhor do que ela, que os ingredientes se misturam magicamente em suas mãos.

Liga desesperadamente a música dos ciganos russos, para não ver a desordem da sala, que precisa da ordem interna dessa mulher mal acostumada aos afazeres de casa. Aumenta a música para espantar a visão do caos.

Passa os dedos pelos móveis a cada dia mais empoeirados, mas sente a limpeza do corpo depois do banho. Na ponta dos pés, para não sujá-los, ela caminha até o quarto. Vê a cama desfeita e pensa que os seus anjos da guarda ainda devem estar dormindo debaixo da colcha de ideogramas japoneses. Abre as cortinas como se o Sol pudesse entrar pelos pulmões e mandar embora a falta de ar. Tosse, tosse e ri dos próprios limites.

A mulher ri até que o ar escapa pela janela. Recupera-se e quer aspergir no corpo o perfume de Carolina Herrera, pois o Angel acabou. Penteia os cabelos encaracolados. Dissimuladamente tranqüila, está pronta para voltar ao trabalho.

Diz para o filho que o frango com gengibre está ótimo. Por instantes fica perdida na vertigem das emoções intensas. Veste a sua roupa de gueixa, pensa que precisa comprar vinho e mergulhar na taça de cristal dos seus melhores dias.

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3 Comentários

jane 30 de agosto de 2015 - 22:40

Maravilhoso !!!!!!

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Déa Januzzi 4 de julho de 2015 - 20:11

Só você, Juçara Costa, para entender as turbulências e profundezas da alma, para voar junto comigo e submergir na fragilidade do ser. Obrigada por me entender e compartilhar comigo. Beijos

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Juçara Costa 4 de julho de 2015 - 18:13

Dea eu li como se estivesse vendo uma cena de um filme.
Me vi na solidão , me banhei de medo misturado com alívio e vi a cama cercada de anjos preguiçosos, cansados e esparramados.
Vi minha amiga, me vi e vi muitas mulheres
Vi o feminino na sua mais profunda dor
Vi arte querendo ar e vi obra saindo pela janela levado pelo riso da redenção
Grata amiga por me levar tão leve para as áreas escuras da alma
Por me permitir através de suas asas dialogar um demônio que se fragiliza diante da arte
E morre
E escapa para o subterrâneo me deixando mais uma vez na solicitude
E descortinando o amor
A vida é Amor!

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