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Déa Januzzi: Será que vai dar tempo?

Por Maya Santana

 Um novo modelo de beleza para um mundo que envelhece

Um novo modelo de beleza para um mundo que envelhece

Será que vai dar tempo de correr até a Rua do Ouro, a poucos quarteirões da minha nova casa e abraçar René que está fazendo 101 anos no próximo dia 6 deste mês? Ela é uma velha amiga de minha mãe que já partiu há seis anos. Será que vai dar tempo de comemorar o Natal e o Ano-Novo em outras datas como propôs Mary Arantes, pois não estou conseguindo mais esperar a meia-noite dessas datas de tanto cansaço?

Será que vai dar tempo de parar de fumar? Não, de tomar vinho eu nunca vou parar. Já pedi ao meu filho que todos devem tomar vinho no meu derradeiro dia e como Jane Fonda no filme “E se fôssemos morar todos juntos”, que não olhem para trás e deixem as taças nas bordas de uma urna funerária (ou melhor dizer caixão) forrado e encapado com letras, muitas letras, porque foram elas que me conduziram pelos caminhos intrincados da alma e da emoção. Ou seria melhor não ter escolhido um caminho tão tortuoso, cheio de pedras e tropeços? Queria também escutar, pela última vez, a música Rain Dogs, de Tom Waitts ou uma das tantas de Adriana Calcanhoto. Pode ser aquela que diz assim “Vou arranhar os seus discos…”. E alguma de Zeca Baleiro, de Chico, Caetano e Gil, por favor.

Será que vai dar tempo de falar do meu próprio envelhecer? De mostrar que ser velho hoje é chique. É só prestar atenção no bairro de Copacabana no Rio. Ser chique hoje não é idolatrar a garota de Ipanema, mas o velho de Copacabana. Alguém deveria fazer essa música. Segundo o IBGE, Copacabana é o bairro que concentra o maior número de idosos (velhos é melhor, não acham?) do País: um terço de seus moradores, inclusive um bom número de estrangeiros, já passaram dos 60 anos.

Será que vai dar tempo de fazer uma crônica sobre Alexandre Kalache, que mora em Copacabana e sonha com a cidade amiga do idoso? Será que vai dar tempo de ver essa cidade planejada por Kalache? Pois acabo de cair num buraco no meio da rua e arrebentar o cotovelo esquerdo e rasgar a minha blusa amarela. O que conheço hoje são cidades inimigas dos idosos, principalmente em Belo Horizonte onde andar pelas ruas é praticar esporte radical. Cansei de cair em pequenos e invisíveis buracos nas ruas. Será que vai dar tempo de mostrar para os prefeitos, governadores e presidentes que eles também estão envelhecendo? Será que ninguém tem consciência disso? Será que não vão investir nas rugas e deixar os cabelos embranquecerem em paz?

Será que vai dar tempo de viver tranquila, sem ficar mudando de um bairro para o outro como cigana do asfalto? Será que as imobiliárias vão parar de me perseguir e de aumentar os aluguéis ou de massacrar os inquilinos? Será que vai dar tempo de ter uma casa própria? Ou quem sabe uma kitinete, dessas bem modernas para colocar minhas roupas, brincos, colares, óculos da Zótica e ficar parecida com Iris Apfel, que aos 92 anos continua sendo modelo para todas as mulheres? Cansei de ter como espelho as modelos magras e jovens das passarelas, as atrizes com caras tortas de tantas cirurgias plásticas. Cansei de não poder envelhecer. (Veja outras 12 imagens de Iris Apfel)

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Será que vai dar tempo de aceitar o convite do meu amigo do coração Eusébio Lobo e passar uns dias em sua casa na Ilha de Itaparica? Será que vai dar tempo de mergulhar no mar pelo menos por uma semana? Ou, pelo menos, um banho de cachoeira? Será que vai dar tempo de tentar mudar essa bobagem de a maioria dos velhos não gostarem de ser chamados de velhos? Será que vai dar tempo de rir da frase de Lisa de que “estou velha demais para ficar feia!” Será que vai dar tempo de ser feliz por pelo menos alguns momentos cruciais? Será que vai dar tempo de reencontrar os poucos amigos que ainda tenho? Será que vai dar tempo de procurar novos irmãos pela vida? Pelo menos encontrar a minha família cósmica.

Será que vai dar tempo de aceitar o convite das duas Silvanas para fazer o Céu na Terra e endireitar os movimentos do meu corpo estropiado pelos primeiros sinais de artrose? Será que vou ter tempo e dinheiro para ir ao oftalmologista para acertar o grau dos meus óculos e não ter mais medo de andar à noite só enxergando vultos e escuridão? Será que vai dar tempo de fazer Pilates ou vou ficar assim enferrujada, estalando os ossos?

Será que vai dar tempo de desfazer todas essas caixas da mudança? Ou já deixo todas do mesmo jeito para o próximo endereço? Será que vai dar tempo de confessar a minha “amizade selada por Deus” com Magui, Maria Celeste, Maya Santana, Cristina Bahia e de dar um pulinho no Sítio Sertãozinho, no Rio de Janeiro ou em Tiradentes? Será que vai dar tempo de ir ao Uruguai onde o meu único ídolo atual, o presidente Pepe Mujica, já está perto de deixar a presidência daquele país?

Será que vai dar tempo de ser avó, de terminar os implantes dos meus dentes e voltar a rir com a boca inteira? Será que vai dar tempo de fazer a massagem da borboleta com a Dulce Takamatsu e sair ficar voando acima de mim? Ou como se pergunta a minha musa inspiradora de nome Magui: “Será que vai dar tempo de encontrar um vagão de trem daqueles que nem circulam mais. Para cuidar e morar dentro dele, mudando minha paisagem de janelinha em janelinha?” O vagão de Magui terá o teto com papel de parede azul e carregado de estrelas. Será que vai dar tempo?

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10 Comentários

Ana Possas 1 de abril de 2018 - 20:57

Déa Januzzi!
Que crônica maravilhosa!
Dentro dos meus 68 anos me vi inteirinha nela.
Nasci no Rio de Janeiro, me criei em São Paulo e agora mineirei morando em Belo Horizonte e agora em Contagem.
Também estou com as caixas da mudança ainda fechadas olhando para elas e já pensando em um novo lugar.
Estou prestes a me formar em Design de Moda e me pergunto :-Será que ainda vai dar tempo? Fazer uma Pós-graduação? Ir á Paris? Á Fátima agradecer tantas graças alcançadas?
Continuar a saborear seus posts,a ler crônicas como está que mexe com a alma ?
Tomara que sim…
Abreijos carinhosos.

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Diana 1 de abril de 2015 - 11:07

Qual é o segredo de ser tão pra cima? Tento mais ultimamente tenho estado mais pensando e agindo como uma tonta.Me ensina a não leyar nada a sério,a sair das situações com mais desempenho.Queria ser assim como yocê,cheia de charme,e feliz

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Thais Sisti De Vincenzo Schultheisz 5 de janeiro de 2015 - 21:35

Amei o texto!
Envelhecer é um processo natural e dificilmente as pessoas sabem lidar com isso.
Linda!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Será que vai dar tempo ao tempo que o tempo tem?
Parabéns!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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valdereza da silva leal 5 de janeiro de 2015 - 18:14

Emocionante, quero dizer do quanto foi gratificante essa reportagem.

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valdereza da silva leal 5 de janeiro de 2015 - 17:57

Emocionante, quero chegar até aí com essas mesmas inquietações.

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Claudia 4 de janeiro de 2015 - 22:02

excelente…reflete bem meu sentimento em relação a envelhecer. Obrigada por compartilhar essa idéia do “vai dar tempo”‘.

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Déa Januzzi 4 de janeiro de 2015 - 10:44

Para responder à Angela e a Stael
Angela é só me convidar que eu irei com o maior prazer.Sete Lagoas pra mim tem algo de afeto e de saudade. Luiz Carlos deixou um buraco no meu peito. Tanto que a minha família se desfez depois da morte dele, seguida da de minha mãe. E obrigada por seu apoio e por suas palavras generosas,. Abraços.
Stael, é tão bom saber que tive e tenho leitores com um espírito elevado como o seu. Obrigada por tudo, amiga.

Responder
stael 4 de janeiro de 2015 - 00:08

Déa…….
Parei de assinar o JEM quando vc saiu de lá…..o jornal era você!
Quanto ao tempo,deve dar tempo….porque vc merece todo o tempo possível para tudo o que queira fazer…….e eu quero todo o tempo do mundo para lêr tudo o que vc já escreveu…uma, duas, três, e tantas vezes que tiver vontade……….muitos beijos

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Angela Maria Campelo França 3 de janeiro de 2015 - 21:21

Déa se não der tempo para tantas cousas, saiba que deu tempo de vc escrever crônicas maravilhosas que já encantaram o meu coração e alegraram a minha alma. Agora, no final de dezembro estive em Sertãozinho e falamos em vc. Estava dizendo para a Magui que a minha irmã, Verá, está morando em uma casa construída pelo seu irmão em Sete Lagoas. Será que vai dar tempo de nós encontrarmos lá em Sete Lagoas, minha terra querida?

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Genoveva 3 de janeiro de 2015 - 20:03

Para Dea e todos que estão por aqui sempre acompanhando.

A BRUXA NOS RELÓGIOS
Lya Luft
Não falarei aqui do meu desânimo quanto à situação do país: cansei. Por algum breve tempo vou tirar férias dessa preocupação. Vou me concentrar no possível: os afetos, o trabalho, a vida. Então falo aqui de um tema que me fascina, sobre o qual muito tenho refletido e acabo de escrever um livro: a passagem do tempo.
Quando criança, eu achava que no relógio de parede do sobrado de uma de minhas avós, aquele que soava horas, meias horas e quartos de hora que me assustavam nas madrugadas insones em que eu eventualmente dormia lá, morava uma feiticeira que tricotava freneticamente, com agulhas de metal, tique-taque, tique-taque, tecendo em longas mantas o tempo da nossa vida.
Nessas reflexões, e observações, mais uma vez constatei o que todo mundo sabe: vivemos a idolatria da juventude — e do poder, do dinheiro, da beleza física e do prazer.
Muitos gostariam de ficar para sempre embalsamados em seus 20 ou 30 anos. Ou ter aos 60, “alma jovem”, o que acho muito discutível, pois deve ser bem melhor ter na maturidade ou na velhice uma alma adequada, o que não significa mofada e áspera.
Por que a juventude seria a melhor fase da vida, como se jovem não tivesse problemas e sofrimentos, doenças e perdas, e não lutasse contra enormes pressões da família, da turma, da sociedade, para ser e agir dessa ou daquela forma? O número de adolescentes que se suicidam ou tentam se matar é muito maior do que imaginamos.
Lembro que há muitos anos um adolescente conhecido se matou. Naquela ocasião, um menino de sua turma me disse em voz baixa, olho arregalado: “Ontem ainda a gente jogou bola junto na escola, e ele não disse nada, a gente não notou nada. Será que eu devia ter percebido, perguntado? Quem sabe podia ter ajudado?” (Havia medo e aflição em seu olhar. )
Tentei explicar que não cabia ninguém mais nesse buraco negro da alma do amigo morto, embora na nossa ilusão uma palavra boa, um colo, um abraço, um pequeno adiamento, teriam podido ajudar. Quem se mata espalha ao seu redor uma zona de culpa insensata: esse fica sendo seu triste legado, talvez sua cruel vingança inconsciente.
Não notamos, não impedimos, nada fizemos, não porque não o amássemos, não nos importássemos, mas porque a gente é assim. Ou porque nada havia a ser feito, ser dito, apenas ser aceito com um rio de dúvidas e culpas pelo resto dos dias. A juventude para ele, como para tantos, não foi a melhor fase da vida: foi o fim dela, desesperado e triste.
Por outro lado, maturidade pode ter uma energia muito boa, pensamento e capacidade de trabalho estão no auge, os afetos mais sólidos e mais profundos, a capacidade de enfrentar problemas e compadecer-se dos outros mais refinada. Aliás, amadurecer devia ser refinar-se.
Passada (ou abrandada) a insegurança juvenil, é possível desafiar conceitos que imperam, desatar alguns fios que nos enredam, limpar o pó desse uniforme de prisioneiros, deixar de lado as falas decoradas, a tirania do que temos de ser ou fazer. Pronunciar a nossa própria alforria: vai ser livre, vai ser você mesmo, vai tentar ser feliz — seja lá o que isso for.
Então podemos murmurar, gritar, cantar. Podemos até dançar. Não há marcações nem roteiro, mas a inquietante possibilidade de optar: cada minuto vale, o tempo que flui mostra o valor máximo das coisas mínimas — se eu parar para observar.
Portas continuam se abrindo: não apenas sobre salas de papelão pintado, mas sobre caminhos reais. Correndo pela floresta das fatalidades, encontramos clareiras de construir. De se renovar, não importa a cifra indicando a nossa idade. Descobrir o que afinal se quer é essencial. É raro. É possível.
E quando alguém resolver não pagar mais o altíssimo tributo da acomodação, mas dar sentido à sua vida, verá que a bruxa dos relógios não é inteiramente má. E vai entender que o tempo não só nega e rouba com uma das mãos, mas, com a outra, oferece — até mesmo a possibilidade de, ao envelhecer, alargar ainda mais as varandas da alma.

Afetuosamente,
Genoveva

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