
50emais
Cada vez mais mulheres maduras deixam de se vestir para parecer adequadas e passam a se vestir para se reconhecer. O resultado é um estilo mais autoral, mais confortável e mais coerente com a vida real.
Chega uma hora em que o guarda-roupa muda de função. A roupa deixa de ser um enfeite para agradar, disfarçar ou parecer “apropriada” e passa a operar como linguagem pessoal. Para muitas mulheres depois dos 50, essa mudança é clara. A tendência da estação só interessa quando conversa com o corpo, com a rotina e com a própria identidade.
Essa transformação acontece num mercado que ainda olha pouco para quem já passou dos 50, embora esse público tenha peso econômico enorme. Segundo o relatório The State of Fashion 2025, pessoas com 50 anos ou mais responderam por 38% do gasto global total em 2024 e 48% do crescimento do consumo em 2025. O recado é simples, a moda ainda fala como se o centro do desejo fosse jovem, mas o dinheiro e a decisão de compra estão cada vez mais espalhados.
No Brasil, esse descompasso não passa despercebido. O próprio 50emais já registrou, em textos sobre Costanza Pascolato, Consuelo Blocker e moda para mulheres acima dos 50, que a leitora madura está longe de querer desaparecer do mapa do estilo. O que muda agora é o eixo da conversa. Sai a pergunta “o que pode usar” e entra outra, bem mais interessante, “o que ainda faz sentido para mim?”.
Regras antigas
Durante muito tempo, a moda tentou impor um código silencioso às mulheres maduras. Não podia mostrar braço, não podia usar brilho, não podia repetir look, não podia usar saia curta, tênis, jeans rasgado, cabelo comprido, cor forte. O problema dessas regras é que sugeriam que, com a idade, a mulher deveria se apagar aos poucos.
Essa invisibilidade não é impressão. Um estudo publicado no Journal of Macromarketing em 2024 concluiu que a representação de pessoas mais velhas na mídia de moda ainda é limitada e estereotipada. E isso, claro, afeta a autoestima. Ou seja, o jeito como a moda mostra, ou deixa de mostrar, mulheres mais velhas tem efeito real sobre como elas se percebem.
É por isso que o novo vestir depois dos 50 não é só assunto de roupa. É também assunto de autonomia. Quando uma mulher deixa de se vestir para parecer mais jovem, mais discreta ou mais aceitável, e passa a escolher o que a representa, ela muda a relação com o espelho e com o consumo.
Roupa que funciona
O que aparece no lugar dessas normas antigas é caimento melhor, tecido mais honesto, sapato que acompanha a rotina, peça que se repete sem culpa, roupa que funciona em vez de apenas impressionar.

Iris Apfel, a novaiorquina centenária que transformou o próprio guarda-roupa em manifesto visual, resumiu essa lógica numa entrevista. Disse que gostava de estar confortável e que nunca prestou atenção em tendências. Na mesma conversa, afirmou que muita gente se angustia com a aparência porque se sente mais segura quando se parece com os outros. A força de Iris não estava em “parecer jovem”, mas em parecer ela mesma, com exagero, humor e convicção.
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Lyn Slater, criadora do Accidental Icon, construiu caminho parecido por outra via. Em texto publicado pela People em 2024, ela conta que criou o blog aos 61 anos para expressar sua sensibilidade estética, não para virar símbolo da idade. Com o tempo, percebeu que as pessoas se impressionavam não só com a roupa, mas com o fato de ela continuar criativa e visível em idade madura. Foi quando passou a usar a ideia de que idade não é variável para se vestir.
Estilo pessoal
Esse ponto importa porque existe um mal-entendido. Quando se fala em assinatura pessoal, muita gente imagina roupa excêntrica, ousadia teatral ou um tipo de liberdade reservada a mulheres muito seguras. Não é isso. Assinatura pessoal pode ser uma legging com casaco comprido, como as combinações frequentemente associadas a Costanza Pascolato. Pode ser alfaiataria leve, camisa branca, tênis limpo, brinco marcante, lenço antigo, vestido simples com corte bom. O estilo não nasce do excesso. Nasce da repetição inteligente do que faz sentido.
Costanza Pascolato é um bom exemplo justamente porque seu nome nunca esteve preso a modismo. Em material já publicado pelo 50emais, ela aparece mais de uma vez ligada à ideia de coerência, simplicidade e permanência. O valor aí não está em copiar Costanza, mas em perceber o que sua imagem comunica, estilo não é fantasia de juventude.
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Consuelo Blocker, filha de Costanza e também ligada à moda, também ajuda a entender essa virada. Ela é alguém que transita pela moda com elegância sem abrir mão de leveza e praticidade. Esse é justamente o ponto que parece ganhar força entre mulheres maduras hoje, vestir-se bem não para “rejuvenescer o look”, mas para habitar melhor o próprio corpo e a própria vida.
Menos dependente da moda
A contradição é evidente. O público 50+ compra, decide, influencia e sustenta boa parte do consumo, mas continua subrepresentado e frequentemente enquadrado por estereótipos. O estudo acadêmico sobre ageísmo na mídia de moda mostra que a invisibilidade dessa faixa etária segue forte. Já a leitura de mercado feita pela McKinsey aponta a geração 50+ como um dos motores mais importantes de crescimento do consumo global. Entre uma coisa e outra, sobra espaço para frustração, a mulher madura interessa como consumidora, mas nem sempre como imagem de desejo.
Isso ajuda a explicar por que tantas mulheres depois dos 50 estão montando um estilo mais pessoal e menos dependente da indústria. Quando a oferta não representa bem o corpo, a idade e a vida real, a saída costuma ser editar melhor o armário, comprar menos por impulso, ajustar peças, repetir combinações e escolher com mais critério.
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No fundo, a maturidade pode fazer com o estilo o que ela faz com outras áreas da vida: fica o essencial. A roupa deixa de carregar tanta expectativa externa e passa a funcionar como extensão da identidade. Não é o fim da moda. É, para muita mulher, o começo do estilo.





