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Desaposentação: mais uma vez fiquei a ver navios

Por Maya Santana

Contribui para o INSS durante  oito anos depois de aposentada

Contribuí para o INSS durante oito anos depois de aposentada

Déa Januzzi –

Mais uma vez fiquei na praia a ver navios. Na quinta-feira última, dia 5 de novembro, a presidente desta pátria desalmada, sem comando e sem liderança, vetou a “desaposentação.” Ou a possibilidade de o aposentado que continuou trabalhando fazer outro cálculo do benefício, tomando por base o novo período de contribuição e o valor dos salários.

A história que vou contar agora inclui advogados, dúvidas, crise econômica, mercado de trabalho inexistente para quem tem mais de 60 anos, além de chuva e trovoadas no meio do caminho.

Trabalhei por 39 anos na mesma empresa jornalística mineira, mas quando atingi 30 anos de exercício profissional, em 2004, encontrei no meio desse vendaval um advogado de direito previdenciário que me aconselhou aposentar por tempo de serviço e não por idade. Ele alegou maus ventos para a Previdência Social e que não teria como prever as intempéries do INSS.

Com a mesa rodeada de imagens de escaravelhos, ele me convenceu. Ah, você não sabe o que é um escaravelho? Conto agora. É um besouro sagrado, com inscrições gravadas em sua carapaça, espécie de amuleto do Antigo Egito. Ele me conquistou oferecendo um de presente.

Só que continuei a trabalhar na mesma empresa por mais 8,5 anos e até os 60. O que me garantiria a aposentadoria integral por idade, com o teto máximo do INSS.

O resultado da aposentadoria por tempo de serviço e não por idade foi o corte de 40% devido ao fator previdenciário e uma quantia que não dá para viver com dignidade esse terceiro tempo que é o envelhecer.
Nunca tive sorte com advogados, jogos de azar, sorteios, recebimento de prêmios de loteria e também com decisões judiciais. Nunca recorri à Justiça nem quando me separei do pai do meu filho, pois o ex-companheiro alegava que não tinha trabalho nem dinheiro para exercer a paternidade. Na época da separação recorri ao amigo e considerado um dos melhores advogados de família de Belo Horizonte. Um advogado que divulguei em diversas reportagens porque acreditava em seu trabalho. Ele falava em direito de família e psicanálise, em paternidade afetiva. E no auge dos meus 33 anos, o discurso dele me soava como poesia.
Confiei nele e acabei com um acordo verbal, além de um papel escrito sem reconhecimento de firma do pai do meu filho, que nunca cumpriu o prometido na frente do advogado.

Muito bem: em 2010, um outro advogado entrou com o processo de desaposentação, pois continuei trabalhando até 2012. E o que aconteceu? Negaram o meu pedido em primeira instância. Fiquei sabendo que o meu processo caiu nas mãos de um juiz que nem olha quando é desaposentação. Entenderam? Neste País, conseguir algo na Justiça depende do humor, do entendimento do Juiz sobre o assunto e outras coisinhas desse nível. Subjetivas. O meu processo foi parar no Supremo Tribunal Federal, na “turma recursal” (essa palavra com arroz à grega deve ser deliciosa, porque nem sei o que é). Cinco anos depois, o processo continua parado no mesmo lugar, sem julgamento.

A Justiça já deu a desaposentação para vários ex-colegas meus, todos do sexo masculino. (Coincidência? ou um machismo “seboso”, como estão gritando as mulheres nas ruas, vítimas da violência física, sexual, profissional, emocional e salarial?). E uma mulher como eu que não me planejei para o envelhecimento, (nem sei se tem jeito de programar) que pago aluguel até hoje, vivo com uma aposentadoria que só dá mesmo para pagar alimentação. Não viajo desde que deixei o trabalho formal, porque tenho que complementar o “belo” salário pago pelo INSS. Faço free-lancer sem parar, mas tenho de ouvir que uma matéria de 120 linhas só vale R$ 300,00. Texto, afinal, não é bem durável, não joga futebol não trabalha em Câmara, Senado ou no Palácio da Alvorada, não canta pagode nem é evangélico. Texto não vale muito, principalmente se você mora neste País insano.

Vira daqui, vira dali e todos alegam “crise”, apesar dos muitos elogios ao texto, de todas as boas intenções. Agora vem a presidente deste País em chamas vetar a desaposentação, sendo que quem ocupa esse cargo maior tem o direito de se aposentar com o salário integral que recebia no exercício da presidência, sem cálculo e tempo de serviço. Dá para entender? Mais uma vez fiquei a ver navios. Morri na praia. Há País mais injusto do que esse?

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2 Comentários

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Digenir Chaves Fugazza 7 de novembro de 2015 - 21:52

Déa Januzzi. Este é o nosso País. Não acredito em mudanças. Mais a próxima leva da melhor idade vão sofrer muito mais. Eu tenho 70 anos como iniciei cedo a trabalhar. Em 1992 me aposentei por tempo de contribuição. Que até 1982 o teto era de 20 salários minimo. Sempre contribui pelo teto máximo, porque quanto a isso só tenho que agradecer só passei por empresas maravilhosas.Quando saiu a minha aposentadoria que naquela época você dava entrada e demorava anos para sair. Como tinha apenas 48 anos continuei a trabalhar e a contribuir com a Previdência Social.Como sou contadora ainda até hoje faço contabilidade de alguns clientes para salvar a pátria. Pois atualmente recebo menos de R$2.000,00.Também entrei na justiça pedindo revisão e até engraçado tenho uma cunhada que já recebeu revisão duas vezes e a minhas sempre foram negadas. Graças ao bom Deus não tenho que pagar aluguel e o meu marido tem um aposentadoria quase igual a minha. Que junto da uma renda melhor.Talvez as coisas não mudem nunca, pois estamos vivendo cada vez mais e isto se torna um grande problema para o nosso governo. Vamos morrer trabalhando.

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Déa Januzzi 7 de novembro de 2015 - 22:13

Digenir, eu também estou recebendo menos de R$ 2 mil e não sei mais o que fazer. Obrigada por contar a sua história de vida. O problema é que na área de Jornalismo, o mercado em Minas é mais do que restrito e paga super mal.Abraços. Déa Januzzi

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