Diário de Avô: Kika virou uma estrelinha

Por Maya Santana
As duas tornaram-se inseparáveis

As duas tornaram-se inseparáveis

Foram, pelo menos, dois anos e pouco de estreita convivência.

Mal punha os pés aqui em casa, Luana, minha neta, corria para a área de serviço ao encontro de Kika. E a partir de então as duas não se separavam mais a não ser na hora de dormir.

Por causa de Kika, Luana começou a gostar de cães. E a visitar com frequência alguns deles nas casas vizinhas.

Há um mês, Sofia, mãe de Luana, penou muito para informar à filha que Kika morrera.

Kika estava velhinha. E sofria de câncer. Foi operada. Mas não adiantou.

– Kika virou uma estrelinha – contou Sofia a Luana.

– Como a bisa? – perguntou Luana se referindo à sua bisavó por parte de pai.

– Sim, como a bisa – respondeu Sofia.

À noite, as duas olharam para o céu durante longo tempo e escolheram a estrela que para sempre será a Kika.

Luana passou os dois últimos fins de semana aqui em casa. Fez questão de entrar pela porta da área de serviço. Mas não perguntou por Kika. Nada falou a respeito dela.

Estava menos alegre do que de costume.

Até que ontem, na casa dos pais, rabiscou uma folha de papel, deu para a mãe e pediu:

– Leia.

Não havia o que pudesse ser lido ali. Então Sofia devolveu o pedido a Luana:

– Leia você.

E Luana leu:

– Mamãe, a Kika morreu para sempre.

Sofia concordou com a cabeça e segurou o choro a muito custo.

(Ricardo Noblat, O Globo – Agosto 2013
)


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