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O documentário “Meu Tempo é Agora”, dirigido por Sandra Werneck, conta a história de vida, do nascimento ao envelhecimento, de seis mulheres muito conhecidas. Todas com mais de 70 anos: Marieta Severo, Conceição Evaristo, Zezé Motta, Margareth Dalcolmo, Iole de Freitas e Denise Werneck. A própria diretora já chegou aos 74.
Concordo inteiramente com ela, quando diz que “quando temos até 60, não sabemos o que é envelhecer”, porque, afirma Sandra, a “conta” chega mesmo aos 70. Por isso escolheu para falar da experiência de envelhecer mulheres que já adentraram a sétima década de vida.
Um ponto em comum entre as seis, o documentário mostra, é que todas estão em pleno vigor.
Marieta Severo, 78, das primeiras ouvidas pela diretora, fala da grande diferença entre a Marieta da juventude e a Marieta de agora: “Quando você é jovem, projeta mais as coisas. Há uma preocupação com os rumos da profissão, com os filhos. Agora, mais do que nunca, estou mergulhada no momento presente, que é a única coisa que tenho.”
Leia o artigo de Eduardo Vanini para O Globo:
A população do Brasil envelhece a passos largos. Uma projeção feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que, em 2100, os idosos vão ser 40,3% dos brasileiros (hoje são 15,6%). “Mas não sabemos o que é envelhecer”, afirma a cineasta Sandra Werneck, que transformou o incômodo em argumento para um novo filme.
O documentário “Meu tempo é agora” será exibido, pela primeira vez, no Festival de Cinema do Rio, no sábado, dia 4 (Estação Net Gávea 3, às 20h45), antes de entrar em cartaz no Canal Brasil. No longa, as atrizes Marieta Severo e Zezé Motta, a escritora Conceição Evaristo, a artista visual Iole de Freitas, a médica Margareth Dalcolmo e a psicanalista Denise Werneck revisitam as próprias trajetórias, da infância à vida após os 70 anos.
Famosa por produções como “Cazuza — O tempo não para” (2004), codirigido com Walter Carvalho, Sandra tem 74 anos e ela mesma foi pega de surpresa pela maturidade. “Quando temos até 60, não sabemos o que é envelhecer”, comenta, afirmando que a “conta” chega mesmo aos 70. O que não é necessariamente ruim.
Embora tenham histórias particulares, todas as entrevistadas estão em pleno vigor físico e intelectual. “Essa coisa de perder as habilidades não é verdade”, pondera a diretora. “Veja a Zezé Motta, aos 81, trabalhando sem parar.”
Não por acaso, elas desfilam comentários sagazes no documentário. Uma das frases mais inspiradas parte de Conceição Evaristo, quando diz: “Estamos fazendo as horas extras da vida, e acho que vale a pena fazermos isso bem”. Humor presente também nas elaborações de Marieta Severo, ao falar sobre aparência. “Eu me angustio mais com os neurônios do que com as rugas”, diz a atriz, que tem 78 anos, assim como Conceição.
Entre as primeiras participantes ouvidas pela diretora, Marieta afirma nunca ter pensado muito sobre o assunto. “Não costumava imaginar ou projetar como seria a velhice. Sempre tive uma relação com o aqui e o agora”, diz, sobre uma postura que segue inegociável. “Quando você é jovem, projeta mais as coisas. Há uma preocupação com os rumos da profissão, com os filhos. Agora, mais do que nunca, estou mergulhada no momento presente, que é a única coisa que tenho.”
Ela destaca, ainda, o fato de manter uma “curiosidade ilimitada pela vida”, algo que a move em direção a novos aprendizados. Reconhece, porém, ser este um comportamento assegurado pela estabilidade econômica. Constatação que ecoa as falas mais contundentes de Margareth Dalcolmo no longa, quando a médica cita o quanto a desigualdade social é cruel na velhice.
Leia também: Como idosos reagem ao filme “O Último Azul,” sobre a velhice
“Ser velho e pobre é uma tragédia ao cubo”, reitera, em entrevista por telefone, antes de reconhecer também o quanto a tal curiosidade citada por Marieta é fundamental. “É muito importante mantermos o senso de humor e não pararmos de tecer a renda na qual fazemos relações afetivas. Essa coisa de ‘não tenho mais idade para fazer amigos’ não é verdade. Eu mesma estou conectada a vários jovens que se correspondem comigo em função das questões filosóficas que discuto nos textos.”
A ligação com as novas gerações é outro ponto explorado no filme. Aparece, por exemplo, nas experiências de Iole de Freitas, de 79 anos, cuja obra é frequentemente estudada e revisitada por artistas mais novos. “Quando dou aula aberta no Parque Lage, penso juntamente com os alunos. É um exercício de percepção visual discutido em conjunto”, ilustra.
Veja o trailer:
O novo, afinal, sempre vem e pode surpreender, como se deu com a psicanalista Denise Werneck, de 74 anos. No filme, ela conta como foi deixar o Rio, onde morou a vida inteira, para viver na Serrinha do Alambari, em Resende, desde a pandemia.
“Achava que nunca sobreviveria sem o Circo Voador”, diz ela, que passou a dar consultas on-line e segue perfeitamente adaptada ao novo estilo de vida, entre mergulhos diários no rio e cuidados com a horta. “Cada idade tem suas alegrias e sofrimentos, e a velhice tem se revelado bem melhor do que imaginei. Neste momento, nossas escolhas são ainda mais importantes. Afinal, com sorte, temos 20 anos pela frente”, calcula.
Que sejam, portanto, muito bem-vividos.
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