fbpx

Dra. Ana Cláudia Arantes: "Para ser feliz, pense na morte"

Por Maya Santana

A médica é especialista em cuidar de pacientes em fase terminal

A médica é especialista em cuidar de pacientes em fase terminal


Encontrei no site gluckproject.com.br essa entrevista extraordinária feita por Karin Hueck com a Dra. Ana Cláudia Arantes, especialista em cuidados paliativos, ou seja, cuida de pacientes que já estão no estágio final da vida. Postei aqui há tempos um vídeo com uma palestra dessa médica – A morte é um dia que vale a pena viver. Foi o post mais visitado nestes mais de cinco anos de existência do 50emais. Milhares de pessoas viram o vídeo e deixaram comentários incríveis.
Não deixe de ler essa entrevista, que desmistifica totalmente a morte:
A Dra. Ana Cláudia Arantes tem uma profissão que, aposto, você não queria ter: ela é médica especializada em cuidados paliativos do hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ou seja, ela só cuida de pessoas que não têm chance de cura. Entrevistei-a para uma reportagem que fiz para a Superinteressante (que quero retomar aqui no Glück algum dia), numa conversa que não consegui esquecer até hoje. Só algumas frases acabaram entrando na revista, mas aqui você pode ler a entrevista inteira. Ao final de tudo, aposto o oposto: depois de ler, você bem que queria ter o trabalho dela – uma aula de felicidade e um manual prático de como viver bem.
Qual é o seu trabalho exatamente?
A minha formação é geriatria. Desde que me formei, sempre me dediquei a uma área do conhecimento médico que se chama medicina paliativa. Isso quer dizer que dou assistência para as pessoas que não têm possibilidade de cura ou tratamento que prolongue as suas vidas. É câncer, demência, doença cardíaca e pulmonar na fase final. Quando a pessoa chega nesse ponto, olhamos para o seu sofrimento. Eu trato todas as dimensões dele, não só a biológica: o sofrimento físico (dor, falta de ar, fadiga, alterações gastrointestinais) e os sintomas emocionais relacionados ao fim da vida (depressão, tristeza, culpa, sensação de abandono, tudo que aparece quando você se despede da vida). Você também tem de cuidar da família da pessoa, porque ninguém fica doente sozinho – mesmo depois que morre, você continua existindo na família. E tem também a dimensão espiritual, que é o grande mistério do ser humano. A gente dá condições para que essa dimensão se manifeste. Nesse momento da vida, ela costuma ser a mais expressiva – e não é necessariamente a religião. É a hora que a pessoa pensa no sentido da vida. Ninguém para para pensar no sentido da vida quando ganha na loteria, ou quando está namorando o cara mais lindo do mundo. Você não diz: “ah, agora que está dando tudo certo, qual é o sentido da vida?” A gente só pensa nisso quando o tapete sai do seu pé. É isso que eu
faço.

Você conheceu alguém que chegou ao fim da vida sem arrependimentos?
Sim. São pessoas que fizeram o melhor que puderam. Me lembro de um paciente, um homem que era ateu. A gente teve essa conversa sobre arrependimentos durante um pôr-do-sol. Eu perguntei a ele: “Você se arrepende de alguma coisa? Você faria alguma coisa diferente?” E ele disse que não. Disse: “Se eu tivesse escolhido outros caminhos, teria encontrado outros abismos, outras curvas. As decisões que eu tomei foram as melhores que podia tomar naquele momento. Eu fiz o melhor que pude. Então eu estou em paz.” E ele nunca fez terapia! Ele já nasceu pronto! Ele era ateu, então sua dimensão espiritual era em relação com a natureza e o universo. A pessoa pode se relacionar consigo mesmo, com os próximos, com o universo ou com Deus. Cada um trabalha em uma dessas dimensões. Esse paciente se relacionava com o universo. Então ele falava para mim: “Ana Paula, olha o sol. O sol está morrendo. Por que eu tenho que viver para sempre, se tudo no universo nasce, tem seu desenvolvimento e morre?” E esse homem morreu no pôr-do-sol, exatamente.
Mas isso é a minoria dos casos…
É mais raro, porque as pessoas na maior parte das vezes tomam decisões que não são baseadas no melhor para elas, mas no que os outros acham que é melhor. O grande dilema do ser humano é ser amado. E quando ele toma essas decisões, se baseia na possibilidade de receber mais amor. O que as pessoas não entendem é que não é um ato de egoísmo você pensar no que é melhor para você. Você escolher algo que vai te fazer mais feliz não é maldade – pelo contrário. Imediatamente você também vai deixar mais felizes as pessoas à sua volta. E você também vai ser amado.
Por que você acha que tanta gente se arrepende de ter trabalhado tanto?
O trabalho tem a ver com o tempo dedicado. Se você pensar, quanto tempo você passa no trabalho por dia? Nove horas. Então, nove horas no trabalho, mais oito para dormir, sobram sete horas para viver. E nessas sete você também pensa no trabalho. No fim da vida, você olha para trás e vê tudo o que se dedicou ao trabalho – talvez você tenha sido demitida aos 40 anos, ou você não gostava da profissão, ou escolheu a carreira para agradar seu pai ou sua mãe, ou ficou trabalhando para juntar patrimônio para seus filhos. No fim, você não leva nada disso. Agora, se você faz um trabalho que realiza você, que a deixe satisfeita consigo mesmo, e que traz resultados bons pra sua vida pessoal, ninguém se arrepende.
Os seus pacientes sofrem alguma mudança quando estão morrendo?
Totalmente. É maravilhoso. Quem trabalha com cuidado paliativo vê uma coisa muito clara: ao longo da doença o paciente vai se aprimorando. O paciente consegue evoluir de tal forma e para um sentido da sua existência – já que vai ter que transcender a existência física -, em que o bem que existe dentro dele se manifesta com muita clareza. Quando estamos falando de alguém que já era bom, é um processo natural. Agora, as pessoas que eram muito ruins mudam muito – você sabe que tem, né, gente muito ruim por aí, gente que a família sempre soube que era ruim. Esses mudam muito. Acontece com todo mundo: por exemplo, aquele cara que foi alcoólatra a vida toda, batia na mulher, não levava dinheiro pra casa. No final da vida ele se transforma. Ele se arrepende, ele pede perdão, ele agradece, ele diz que ama. E sai da vida pela porta da frente. Tem um negócio muito misterioso entre os seres humanos. Todo mundo sempre fala que a primeira impressão é a que fica, mas não é. É a última. Quando você sai bem daqui, você para sempre vai ficar bem. Parece que tudo que você aprontou na vida fica menor. “Mas no final ele foi maravilhoso”, lembram. Clique aqui para ler mais.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário





0 Comentários

maria lucia ferreira de araujo 11 de setembro de 2014 - 20:03

realmente a palestra dela foi muito forte emocionante,passei por isso em out/2012,com minha mãezinha, eu passei por esse processo todo(minha mãe foi internada em 26/9/2012)faleceu em 3/12/2012 e no hospitaml tem um andar que é pra tratamento paliativo, eu desconhecia, era uma equipe com oncologista,psicologa,e fisioterapeuta,minha mãe recebia por média 10 pessoas todos os dias até o obito, e um dia ante eu sentir no meu coração de devia pedir perdão a ela por alguma coisa que eu fiz ou falei no decorrer da minha vida e falei tbm da imprtãncia dela,que eu amava muito, bem resumindo, eu vi sair dos olhos dela uma lágrima rolando no rosto, e ela já não falava mais,o que a dra falou nesse video é tudo verdade e é assim mesmo,minha mãe teve esse atendimento com essa equipe porque ela pagava um convenio que na epoca era caro,mas e a gente e outras e muita gente que não tem convenio, eu não tenho dependo do SUS,que DEUS ilumine e de sabedoria aos dirigentes desse pais e extender esse tipo de trabalho a todos.

Responder
Rita 11 de setembro de 2014 - 19:21

Tem um livro chamado Sobre a Morte e o Morrer [ Elisabeth Kübler-Ross ] bastante interessante!

Responder
margareth 11 de setembro de 2014 - 09:34

adorei a tua palestra. Também acho que devemos tratar a morte de outra forma. Se todos os médicos fossem um pouco como você, as pessoas sairiam deste plano, mais leves e felizes!!!!!

Responder
Lisangela Pessanha 9 de setembro de 2014 - 23:27

Encantada com o discernimento da médica frente à vida e a morte. Se a humanidade vem com o tempo, e eu concordo! Ela é caso raro para sorte de muita gente.
Parabéns doutora!

Responder
Elizete 9 de setembro de 2014 - 23:00

Muito bom! sem mais palavras.

Responder
Shirley Guilherme Portes 9 de setembro de 2014 - 20:56

Gostei muito! Durante a palestra, eu recordei experiencias minhas com despedidas …de pessoas próximas, tipo meu pai… foi muito intenso, em tão pouco tempo de preparo para o adeus..me mantive totalmente atenta , e ajudando cooperando com ele… parecia uma cena de filme…depois de infartar, foram apenas 4 hras de conversa, e de pedido feito por ele… e no final, um abraço, que fiquei presa a ele por longos 10minutos, até o medico chegar…mas que ele já tinha partido… durante essas horas, ele conversou tanto comigo, e transferiu para mim uma responsabilidade de ajudar minha mãe a criar meus 5 irmãos mais novos …pense! …
Preparei a minha sogra, tambem, para partir…conversei um longo tempo com ela, organizei visita de uma parente para que elas se reconciliasse e depois , os filhos….então ela partiu…
Isso é uma troca, nos amadurece muito.. depois minha mãe, tambem, fui a ultima a ve-la dar o ultimo suspiro, e parecia dormir…eu abraçada com ela…ela foi como um passaro rápido…totalmente preparada para a viajem…foi muito forte…ela sabia que era a sua hora, e só queria está com agente por perto, no caso eu estava…..
Obrigada por me deixar compartilhar um pouco da minha experiencia.

Responder

Utilizamos cookies essenciais de acordo com a nossa Política de Privacidade e ao continuar navegando, você concorda com estas condições. Aceitar Leia mais