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E o velho pergunta: “Você sabe quantos anos eu tenho?”

Por Maya Santana
A idade avançada é um prêmio. Não pode ser muleta da intolerância

A idade avançada é um prêmio. Não pode ser muleta da intolerância

Pessoas mal educadas são detestáveis, independentemente de que idade tenham. Mas quando já são mais velhas, provocam indignação ainda maior. Como afirma a autora deste artigo da revista Época,Isabel Clemente: “A idade avançada é um prêmio. Não pode ser muleta da intolerância.”

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O título deste post existe no modo educado e no modo mal-educado. Na versão positiva, ela aparece no contexto de uma conversa com uma pessoa idosa que, dessa forma, espera surpreender o outro com a informação. A revelação da idade é uma forma de despertar empatia pelo tempo de vida que carrega. É também uma maneira rápida de buscar solidariedade no outro pelas dificuldades externas que acaso manifeste. Aconteceu outro dia quando cedi o lugar para uma senhora que quase caiu dentro do metrô com uma daquelas freadas abruptas logo após o fechamento das portas. Ela ainda estava arfando e muito assustada ao sentar. E reclamando, com razão. “Eu quase fui no chão em cima daquele homem. Olha, não é fácil não. Eu sou cardiopata, você sabe quantos anos eu tenho? 74! Mas ninguém diz”. Não diz mesmo. Que beleza. E assim ela se acalmou enquanto eu e outra moça sentada ao lado a cumprimentávamos pela ótima aparência.

O passar do tempo é a bagagem de vida de uma pessoa. A postura menos ereta é o símbolo das histórias empilhadas nas costas. Por isso, sempre que alguém pergunta “você sabe quantos anos eu tenho”, eu tento imaginar que segredos e que experiência aquela pessoa pode me contar. É hora de silenciar para deixar o outro falar.

Mas eu quero tratar aqui do modo mal-educado do “você sabe quantos anos eu tenho?”. Da versão aproximada do velho e indigerível “você sabe com quem está falando”. O idoso saca a pergunta como a autoridade pronta a dar uma carteirada no interlocutor. As leis que dão gratuitade e atendimento preferencial a pessoas maiores de 65 anos ou 60 anos são um avanço da sociedade. Nada mais justo que sejamos todos, obrigados por lei, a render aos mais velhos o atendimento que eles merecem. Entramos na era da gentileza legal porque o que não acontece por bem, vocês sabem, vai por mal.

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O problema é quando o atendimento preferencial vira desculpa para a deselegância e a falta de educação. O problema é quando a idade começa a ser usada como passaporte para o comportamento inconveniente. O idoso que se acha no direito de ser grosseiro e de exigir o que quer que seja da maneira como lhe convém me choca tanto quanto as pessoas que não compreendem o motivo do atendimento preferencial para a terceira idade. A lei não isentou ninguém de pedir licença, por favor e de agradecer depois. É uma questão de deferência com o próximo. Se tem uma fila única enorme no caixa automático, por que a pessoa sessentona passa batido como se estivesse só no mundo? Peralá.

Outro dia cheguei atrasadíssima para uma sessão de cinema. Enquanto esperava minha vez na fila preferencial, para onde deveriam ir também os portadores de ingressos comprados pela internet, um homem de aparência jovem, cabelos escuros e bermuda, passou na minha frente. Sem olhar para minha cara. Sem nenhum gesto em minha direção. O atendente, muito atento ao que aconteceu, pediu que ele aguardasse meu atendimento. Sem sequer olhar no meu rosto, o homem deu a carteirada.

– Eu sou idoso, é atendimento preferencial.
– Ela também, porque aqui atendo quem comprou pela internet.
Educadamente, tentei resolver.
– Olha, é rapidinho. Já comprei os ingressos e meu filme começou.

Sem olhar para mim, fez cara de mal-humorado e voltou para a fila. Eu resolvi minha história em segundos e fui embora. O tal idoso realmente não parecia ter 60 anos, estava ótimo, mas não é isso que importa aqui. É a falta de educação. As pessoas se esquecem de olhar, pedir licença e agradecer. Dispensaram o “licença” e o “por favor” como se um “direito adquirido” com o tempo e a idade fosse suficiente para justificar a falta de civilidade. Agora posso fazer o que quiser. Falar palavrão, maldizer casais gays em alto e bom som para evocar um tempo em que “isso não acontecia”. Posso apontar para o diferente e me chocar, explicitamente, porque, “com a minha idade”, eu posso tudo. Tenho que ser desculpado por tudo e aturado do jeito que sou. Não tenho mais tolerância com nada.

Esse comportamento do “já vi de tudo nessa vida e não me peça para ter paciência a esta altura, porque já criei meus filhos então não suporto crianças, filas, barulho, não suporto nada” é uma praga silenciosa. Se estamos todos sendo presenteados com ganho de qualidade de vida e mais tempo aqui neste Planeta, precisamos nos esforçar para tornar esse convívio mais harmonioso, tolerante e feliz. Educação, nesse caso, é ingrediente essencial. A idade avançada é um prêmio. Não pode ser muleta da intolerância.

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5 Comentários

Marlene Maria das Neves Rodriguez Mesquita 13 de abril de 2021 - 19:54

Gostei muito da matéria não importa a idade que tenhamos o q interessa é a gentileza, boa educação, sorriso no rosto, gratidão.
Nada justifica a falta de educação, o mau humor

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Kathiane 12 de fevereiro de 2019 - 23:58

Sábias palavras, você citou tudo o que penso. também, talvez a boa idade venha cheias de má educação. O famoso poderio de que agora posso dizer tudo,até dizer o que ñ convém doa a quem doer.

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Gnn 26 de março de 2018 - 00:07

Gostei muito! Hoje passei por uma situação muito parecida mas a diferença é que a senhora começou a me agredir verbalmente e de tanto me importunar sai da loja, ela chegou a ir até o lado de fora da sorveteria e me mandar embora me escorraçar como se eu fosse um cachorro me senti muito mal, é uma situação muito difícil

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Monica Negrao 24 de outubro de 2017 - 12:50

Meus parabéns pelo lindo artigo,expressa o que temos engasgado pela falta de educação atual.

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Iria Hartmann 5 de outubro de 2015 - 22:54

os homens são como os vinhos, o tempo apura os bons e azeda os maus.

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