“É preciso entender que envelhecer é um privilégio”

Por Maya Santana
Ela tem 69 anos e ele 74:  ensinam o código do idoso através do teatro

Aos 69 e 74 anos, eles falam da velhice com arte

Veja que interessante: um casal de Belo Horizonte, ambos na faixa dos 70 anos, que explica para as outras pessoas, em forma de peça de teatro, o Estatuto do Idoso. Lenisse e Antônio Zico são casados há 48 anos e há mais de uma década fazem peças teatrais, que ela mesma escreve, para apresentar, de forma lúdica, o Estatuto. Leia o artigo publicado pelo portal Uai, do Estado de Minas, sobre o trabalho dos dois:

Antes mesmo de o Estatuto do Idoso ser criado, o casal de aposentados Lenisse e Antônio Zico, de 69 e 74 anos, já falavam a outros idosos sobre a beleza do envelhecimento e a qualidade de vida na terceira idade. O teatro foi o meio escolhido para levar a eles uma mensagem de que os direitos dos homens e das mulheres não mudam nessa época da vida, tampouco a necessidade de viver bem. Foi no ano 2000 que os dois começaram a encenar peças, escritas pela própria Lenisse, que falavam desses valores e ideias.

A primeira delas foi Travessia. Três anos antes do estatuto ser escrito, eles já pregavam o cultivo da auto-estima. “Falamos sobre idosos que não tinham tempo para pensar em lazer, cultura e educação. Eles vestiam roupas beges iguais, como se tivessem vidas apagadas. No final da peça isso mudava e eles estavam com cores alegres porque viam que o idoso também quer viver”, conta Lenisse. A metáfora colocada na peça é ainda hoje, uma década depois da criação do estatuto, a principal mensagem que o casal deseja levar aos idosos que visitam em asilos, hospitais e outras instituições: existe vida na terceira idade.

O trabalho era feito por idosos para idosos. O grupo de teatro chegou a ter mais de 50 sexagenários. “O estatuto nos dá direitos à cultura, diversão e lazer. As pessoas acham que idoso tem que ficar em casa, mas nossa intenção era mostrar o contrário. O teatro é eficiente para mandar essa mensagem porque até quem tem dificuldade de compreensão, que não é alfabetizado, não enxerga ou ouve bem, consegue entender”, diz.

Lenisse é quem escreve as peças

Lenisse é quem escreve as peças

O tempo fez com que esse casal modelo entendesse que mais que falar ao idoso, eles tinham que levar a ideia da maioridade sadia para quem ainda iria vivê-la. Foi assim que o projeto deles chegou à universidades e escolas. “Eu gostaria de ajudar a juventude a envelhecer melhor. Podemos deixar bons exemplos para os mais novos para que eles entendam que no futuro, serão nós. Muita gente acha que a vida piora, mas é o contrário”, destaca.

Lenisse conta que o medo do envelhecimento externo – aquele que as pessoas veem no rosto, nas rugas e no cabelo branco – não deve fazer com que a pessoa passe a enxergar a si mesmo como alguém incapacitado. “Isso só danifica a gente. Cada idade tem sua beleza, só falta a gente descobrir qual ela é. E a idade também não tira da gente a vontade de ser feliz. O que as pessoas têm que entender é que envelhecer é um privilégio”.

O mais marcante nessa jornada tem sido ver como muitos idosos não têm mais expectativas para a vida.  Uma de suas experiências mais marcantes foi se deparar com a força de uma senhora. A visita aconteceu à um asilo com um grupo de crianças. A proposta era de que os visitantes cantassem para os idosos, mas essa senhora fez diferente. “Ela pediu que nós a escutássemos cantar. Aquilo foi muito tocante, ver o silêncio de todos escutando ela cantar. Me fez ver que, mesmo nessa fase da vida, podemos doar algo e sempre vai ter alguém precisando”.

O curioso é que Lenisse não tem vergonha de dizer que, apesar de voluntária, a ação não é nada altruísta. “Tenho um prazer imenso no que eu faço, então eu não seria sincera se dissesse que não ganho nada com isso. Faço pelo amor que tenho pela vida e faço em minha causa própria, porque acho que fazendo para mim estou fazendo pelos outros também”, diz.


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