É preciso perder o medo da velhice, Déa Januzzi

Por Maya Santana
Só as fotografias não envelhecem

Só as fotografias não envelhecem

Com licença: preciso urgentemente tirar novas fotos, atuais, e que não escondam os meus 62 anos. A minha última foto que está ilustrando a coluna “Coração da Terra”, da Revista Ecológico, tem mais de seis anos – e nesse tempo muita coisa mudou. Perdi pai, mãe, irmão e amigos fundamentais na minha vida. Saí do emprego de mais de 40 anos, mudei de casa, pelo menos, três vezes, mas a foto no alto da coluna continua a mesma. Olha que escrevi a crônica “Coração de Mãe” num jornal mineiro durante 10 anos – e não é que a foto lá no alto também permaneceu a mesma esses anos todos. Medo de que?

Medo de ser vista como realmente sou? De que os leitores me vejam como realmente estou hoje? Ou faz parte dessa necessidade de ser eternamente jovem? O tempo correu, escorreu e a minha foto no alto da página continuou como a de uma jovem com 20 anos a menos. Os cabelos mudaram, a testa ficou perplexa com tantas perdas importantes que me deram lições de superação. Quer melhor cronômetro do tempo do que ver amigos e familiares indo embora? Quer maior bagagem de rugas do que ser uma órfã adulta? Quer maior dimensão do tempo do que ter um filho de 30 anos? Na verdade, jovem é o filho.

Na foto no alto da coluna, você pode ver no meu rosto quantas vezes chorei de dor? Pode enxergar no fundo dos meus olhos quanta luz se apagou? Por que não há mais estrelas no infinito do meu ser? Você pode ver na foto do alto da coluna quantas vezes eu percorri a via-crúcis do viver? Pode ver as ondas que se arrebentaram nas margens do meu ser?

Na foto do alto da coluna, você consegue enxergar uma mulher livre que foi obrigada a partir e a chegar de vários portos da existência, que sobreviveu a naufrágios e tempestades, que fez a revolução das mulheres, que mergulhou nas furiosas ondas dos afetos e desafetos, dos encontros e desencontros? Você pode adivinhar quantos amigos ficaram no caminho? Pode ver uma mulher que amou, namorou, casou, teve filhos, separou? Você pode ver na linda e perfeita foto do alto da página quem é essa pessoa que escreve das profundezas da alma, que tira o limo do coração com palavras?
Ligo a televisão, abro os jornais e revistas deste país e uma inquietação me invade: senhoras apresentadoras e senhores colunistas que exibem imagens e fotos sempre muito mais jovens do que na realidade são. No alto das páginas dos jornais e revistas, os cronistas não têm rugas nem marcas do tempo, apesar de há muito terem passado dos 60. E de o cenário da velhice ter mudado completamente.

Preciso abrir parênteses: O Brasil está envelhecendo. Até 2025, será o sexto país do mundo com o maior número de pessoas velhas. Hoje mais de 22 milhões de brasileiros estão na faixa dos 60 anos. E a cada ano mais 650 mil pessoas alcançam essa idade. Mas o fato é que ainda há muita desinformação sobre as particularidades do envelhecimento no atual contexto social. A medicina evoluiu, assim como a qualidade de vida, pois hoje é possível chegar aos 60 com saúde, desejos e projetos de vida. Ganhamos 34 anos a mais do que nossos bisavós. Pensem sobre isso: é um período completo que foi adicionado à expectativa de vida. Você já imaginou o que vai fazer nesses outros 34 anos de vida? Nem os governos nem a cultura nem os próprios protagonistas ainda sabem o que fazer ou o que isso significa. Fecho parênteses.

Volto às fotos de jornais e revistas, de colunistas sempre com cara de 20 anos. Em tempos de fotoshop, há sempre um jeito de dar um toque aqui, de levantar uma ruga ali, de espantar uma olheira lá, de refazer e pintar a sobrancelha, de avolumar a boca que já não segura mais o batom. É possível até fazer botox na fotografia. Afinal, o fotoshop pode fazer implantes, cirurgias complicadas, preenchimentos para que os leitores tenham uma imagem do colunista sempre jovem. É proibido envelhecer neste país, mesmo que as curvas demográficas provem o contrário. É um pecado envelhecer e a culpa é sempre de quem chegou aos 60, porque esse assunto não interessa a mais ninguém. É até repulsivo.

É preciso perder o medo da velhice, porque o tempo não pára. É preciso repetir que só não envelhece quem morre antes e que ninguém pode deter o Senhor Relógio. O tempo chega com suas marcas e cicatrizes que se transformam em rugas e se refletem na imagem exterior. Conheço uma mãe que perdeu o filho em acidente de carro. Depois dos rituais, ela se deitou e acordou no dia seguinte com todos os cabelos brancos. A dor tingiu os seus cabelos da noite para o dia. Como esconder o sofrimento, as perdas, as tristezas e decepções atrás de uma foto? Como mascarar a trajetória de vida numa foto que boicota a realidade e o tempo presente?

Com licença: preciso urgentemente encomendar novas fotos, mesmo que hoje, já sem as lentes de contato, eu tenha escolhido óculos bem fashion, lá da Zótika, na Savassi; mesmo que eu ainda apele para alguns implantes para manter a minha qualidade de vida, mesmo que eu continue tomando vinho e celebrando vida. Pois só as fotos não envelhecem.

*Déa Januzzi é jornalista e escritora


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36 Comentários

Carmen Lins 4 de junho de 2017 - 12:07

Déa é D+++++ Acompanho-a desde os idos do Estado de Minas. É uma linguagem coloquial, simples, agradável. Diz o que a gente pensa. A do ro….

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Carmen Lins 4 de junho de 2017 - 12:03

Envelhecer é triste quando o saldo é negativo e a gente vê que não há mais tempo para nada, não se pode mais pensar em “daqui a um ano”, não se pode mais fazer planos em favor dos filhos que vão sentir profundamento a nossa falta. Sei que todo filho sente falta da mãe; mas vão se acostumando, vão caminhando. Não é o meu caso.
Se eu tivesse menos vinte…..

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Francisca de Assis Rocha Alves 18 de agosto de 2016 - 20:56

Realmente. Toda faixa etária tem sua beleza.

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Regina Maria Barretto 29 de julho de 2016 - 14:00

Gostei muito do texto, porém acredito que o maior problema nesta faixa de idade é a falta de oportunidade de emprego, trabalho! Estou plena de energia, com a memória em dia, porque não trabalhar? AS minhas rugas vão muito bem, agradeço a Deus porque tive a oportunidade de te-las! Morrer cedo não vale a pena…

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Francisca 28 de julho de 2016 - 16:03

As vezes tenho medo da velhice, as vezes tenho medo do futuro, tenho medo do que me espera, sei que não devia, quem me olha não me vê, escondo bem meus sentimentos e pensamentos, só eu sei o que se passa no meu âmago, nunca falo a ninguém, tenho sempre um sorriso nos labios, uma palavra de amor de carinho de gratidão, no fundo sou um poço de solidão, então ler suas palavras, suas reflexões, me fazem um bem terrivel..obrigado.

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ENAIR Regina Martins 28 de julho de 2016 - 14:39

Realmente sábias palavras. Precisamos perder o medo de envelhecer. Precisamos ter coragem pra conquistar a LIBERDADE e envelhecer com Sabedoria.

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DINA FERNANDES 23 de outubro de 2015 - 22:02

SUAS PALAVRAS NOS FAZ RENOVAR A CADA DIA,OBRIGADA POR VC EXISTIR BJS

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Heliana Marques 23 de outubro de 2015 - 18:50

Parabéns Déa!
Te ler me faz um bem …

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Teresa 30 de julho de 2015 - 12:46

Envelhecer é um privilégio da vida. Envelhecer bem é sabedoria de vida.

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Angelina Lúcia Gonçalves Ferreira 29 de julho de 2015 - 23:36

Olá Deia!Como é bom ler seus textos maravilhosos.Para mim você é e sempre será a sobrinha da D.Juraci que chegou de férias aqui em frente da minha casa em Guanhaes
Atemporal .Sem idade definida.A irmã da Katia.Simples assim…

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Sônia Maria Mariano 29 de julho de 2015 - 22:39

Já tirei uma nova foto hoje e me adorei estou loira……….

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Suely 28 de julho de 2016 - 13:34

#Estar loira” também é uma maneira de querer fugir dos sinais do tempo. Pra mim significa o mesmo que fazer um retoque com photoshop. Sem mais.

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Francisca C Cruz 29 de julho de 2015 - 22:09

Tenho 65 anos, o que me dói são as perdas que temos e somos obrigados a aceitar naturalmente, não tenho medo de envelhecer ou estar velha e achei o máximo suas palavras em seu texto, Parabéns, tocou fundo minha alma.

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Edilene 29 de julho de 2015 - 20:20

Envelhecer é difícil, mais é divino!

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Nilce Madeira Casara 29 de julho de 2015 - 18:06

Hoje com 67 anos , sou uma mulher realizada, de bem com a vida. Que passou passou por grandes tempestades e bombardeios mas, sobrevivi. Vitoriosa ,que olha pra o futuro sem medos ou frustrações, de se olhar, as rugas que aparecem com o tempo mostram minha experiência de vida bem vivada , Sou uma avó e bisavó feliz com minha prole .

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carmelita bocater bittencourt 29 de julho de 2015 - 16:06

Déa Januzzi como sempre brilhante. Acho que ganhamos uma parte boa aos estarmos sempre podendo falar e expor, sem pudor nossas ideias e nossas fotos sem retoque. A vida é isso! Só se deixa envelhecer quem quer. É claro que temos excesões para tudo (doenças, problemas familiares, financeiros, etc…) , mas nossa vida continua e tentamos de toda forma deixá-la melhor, no aspecto alimentação , exercícios e vida moderada. Tenho 67 anos, caminho todos os dias e faço aeróbica, sou aposentada federal, mas continuo a trabalhar na área de comunicação. Duas coisas que gosto uísque e vinho e aprendi com meu irmão quando minha mãe estava doente a não tomar remédio para dormir, pois apesar de ter quatro pessoas cuidando dela, ela queria sempre minha presença e ele me disse:Mana tome uma dose de uísque , pois te relaxa e você não fica pesada e assim foi. Mamãe faleceu e eu fiquei também órfã. Moro no interior de Minas e meus irmãos no Rio e no Guarujá. Outra coisa boa é ler. Faz bem e ouvir música , que me relaxa e me deixa dormir o sono dos anjos. É isso aí ! Cumprimos nossos papéis e que sejamos eternamente felizes!

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Nini 29 de julho de 2015 - 15:30

Não tenho medo nenhum, estou envelhecendo feliz e cheia de amor para dar aos meus netos e bisnetos.Hoje com 79, aprendo sue cada dia e uma conquista maravilhosa.

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Juraci Vieira Gutierres 29 de julho de 2015 - 15:13

Desculpem-me, a parte da frase é: redemoinhos em torno de valores fantasiosos, é possível ….

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Juraci Vieira Gutierres 29 de julho de 2015 - 15:06

Excelente artigo.
Mesmo com todos os redeminihos em torno de valores fantasiosos é posível Viver a velhice com dignidade e alegria. É só sentirmos o vento a favor.
Com a “devida permissão” compartilho.

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RITA DE CASSIA M MADEIRA 1 de maio de 2015 - 23:50

O CORAÇAO NAO ENVELHESE

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Marina correa 1 de maio de 2015 - 22:00

Texto fantástico.

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Maria Socorro Rodrigues de Oliveira 1 de maio de 2015 - 17:13

Texto maravilhoso,

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Márcio de Sá 31 de março de 2015 - 13:13

Olá, Déa,
Gostei da sua matéria!
Fotos desatualizadas, mas mesmo assim “fotoshapadas” são, de verdade, a norma na imagens dos autores de mais de 40, eu diria (para não dizer de todas as idades), de tudo o que é publicado na mídia e na literatura, nas publicações especializadas de toda natureza, em tudo.
Envelhecer é proibido e mostra-lo, mais ainda!
Enquanto te escrevo, reparei desde que passei a lê-lo, faz pouco, que praticamente só mulheres, à exceção de um homem, comentam as matérias publicadas neste interessante blog…, será que homens de mais de 50 não o leem, ou não o descobriram, ainda…?
Um abraço para você.

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Maria das Graças farias Moura. 30 de março de 2015 - 22:39

Lindo o que foi dito me tocou profundo, temos que ser realista, me identifico com as publicações vejo e compartilho, obrigado pelo ensinamento, fiquem com DEUS.

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Elizabeth Tadiello 30 de março de 2015 - 17:56

Comigo aconteceu algo, que até então é inédito, pois nunca ouvi de ninguém fato parecido, ou igual.
Que eu me lembre, aos cinquenta e poucos anos, parei de dar conta da minha idade, isso mesmo, parei.
Não sei precisar com palavras, exatamente o que aconteceu, o que considero um fenômeno mental, psicológico … a minha vida mudou muito, tudo mudou, literalmente.
Quando dei conta de mim, de minha idade, e das coisas à minha volta já mudadas, muitas delas ainda em fase de mudança, já contava com meus 59, beirando os 60 anos.
Há dois anos, pois hoje tenho 62 anos, o movimento, o ciclo, a vida voltaram-me à consciência. Hoje, tenho uma satisfação enorme de recordar da mulher que fui, e da mulher que me transformei, interiormente e exteriormente.
Foi a primeira vez que tive a oportunidade de registrar isso, parece um devaneio, mas atesto com minha alma, não foi.
Aconteceu!
Não tenho nenhum pudor, medo, vergonha de apresentar meu rosto aonde quer que precise, em fotos, pessoalmente, não me importo.
Ando pela rua com muito mais segurança que lembro ter tido um dia … e mais, me acho engraçada, gosto de mim … gosto muito … sou simples, visto-me de maneira descontraída, uso Tênis, botinhas, sandália de borracha, sapatilhas coloridas, coturno, bermuda, saião, vestido longo, legging… e lá vou … eu e a criança que resgatei em mim e de mim.
Déa! Adorei o seu artigo, me fez um bem danado, pude relatar o que acho, a meu ver, a transmutação que a idade me permitiu. Muito feliz …Abraços … Até !!!

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Juraci Vieira Gutierres 29 de julho de 2015 - 15:10

Parabens, Viver a Velhice é isso. Sáude!!!!

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lourdinha linhares 30 de março de 2015 - 01:51

Lindo e excelente texto! Eu não tive medo de entrar nos 60 anos…hoje com 62. Obrigada pela leitura.

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elisabeth italia scaldei 29 de março de 2015 - 22:03

Maravilhosa reportagem..quantas verdades…precisamos urgentemente nos preparar e encarar os sessenta..com rugas..com orgulho…lutando contra uma sociedade e com a forte mídia ns cultura somente da jovialidade. ..como se envelhecer fosse pecado ou pribido….adorei …tudo . Parabéns. ..projeto 60

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Meire Lucia da Silva 29 de março de 2015 - 20:36

A Palavra de Deus nos diz: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio!” Samos 90:12 – Eu não tenho medo de envelhecer!

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Lisa santana 29 de março de 2015 - 11:44

Bravos Déa. Envelhecer nao é tarefa fácil, principalmente em países de terceiro mundo onde ser humano vira lixo fácil, fácil. Que dirá velhos. Para mim, a única maneira de envelhecer bem é buscando as referências internas e por vezes, banhando – as nas águas da infância. Reino do encantado. Tarefa árdua, mas que nos permite tentar envelhecer com mais dignidade e galhardia. bjs.

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Rachel Kopit 28 de março de 2015 - 20:13

Como envelhecer com dignidade num de muitos países que só celebram o jovem de corpo sarado e disposição atlética? Como envelhecer se a sociedade celebra a juventude 24 horas por dia em cem canais de tv, no cinema e nas trilhas sonoras de filmes? Como envelhecer se há todo um preconceito contra os idosos ou contra aqueles a caminho da longevidade?

Melhor seria aprender na escola, numa disciplina de filosofia ou psicologia, que tratasse as coisas na essência e não apenas na aparência.

Parabéns, Déa, pela coragem de abordar assunto tão espinhoso, tão pouco explorado por tantas e todas as mídias. Pronto, falei!

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Miriam Mandelli Corrêa 28 de março de 2015 - 19:44

Parabéns, belo texto. Assumir a idade sem medo de ser feliz.

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Marilene Resende 28 de agosto de 2016 - 00:07

Para quem viveu a juventude sem medo dos pecados e amou com paixão nas subidas e descidas de Ouro Preto ,a velhice vem para dizer que tudo valeu a pena. As festinhas de final de semana nos porões das casas, iluminados e com músicas dos Beatles eu posso dizer que celular nao fez falta.Tenho orgulho de ter 62 anos e ter feito tudo o que eu quis fazer.Lena.

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maria lucia padua pacheco 28 de março de 2015 - 19:39

É realmente uma mestre nas palavras! Traduz em palavras sentimentos de todos nós! Até o triste fica bonito!!! Grande Déa!!!

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Eveline Oliveira Sena 30 de julho de 2016 - 10:53

Parabéns pelo texto, com certeza, já é uma grande ajuda para muitos, principalmente pra mim,obrigada.

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Carmen Lins 4 de junho de 2017 - 12:11

Concordo, Eveline.

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