
Miriam Moura
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O filme “Nunca te vi, sempre te amei” é um clássico que integra a seleta lista de favoritos de todos os tempos na minha vida de cinéfila antes da Era Netflix. Verdadeira obra-prima, o filme é de 1984, com dois gigantes do cinema interpretando os papéis principais: Anthony Hopkins e Anne Brancroft.
Os dois não se conhecem: ele mora em Londres e ela em Nova York. Frank Doel, o personagem de Hopkins, é funcionário de uma tradicional livraria londrina, localizada no endereço que dá nome ao filme: 84 Charing Cross Road. A rua é sinônimo desses antigos e charmosos estabelecimentos que vendiam livros e que são cada vez mais raros de se encontrar hoje. A história é ambientada no final dos anos 1940.
Helene Hanff é uma escritora e roteirista norte-americana apaixonada por literatura, magistralmente interpretada por Anne Bancroft. Os dois se correspondem por décadas, ela desafiando-o com missões impossíveis por exemplares raros; ele fazendo de tudo para conseguir tornar realidade os livros-desejos dela.
A lembrança desse filme belíssimo é para exemplificar o tema da coluna de hoje, que remete a essa sensação prazerosa de se esperar para conhecer alguma coisa, visitar algum lugar, do prazer de vivenciar uma espera. É ir administrando com leveza a ansiedade, antecipando o desejo da viagem, esperando para viver novas sensações e experiências.
Assista:
Muitas vezes, a gente experimenta esse tipo de espera, mesmo sem se dar conta. É como ensina aquele dito popular muito conhecido: “O melhor da festa é esperar por ela”.
Valorizar o momento
A professora de Psicologia Positiva Aplicada na Universidade de East London (Reino Unido), Ayse Burcin Baskurt, afirmou, em artigo publicado no Globo (edição de 22/11/2025), que a espera pode melhorar a sensação de bem-estar.
Segundo a especialista, pequenos momentos de espera e pausa ajudam a regular impulsos, ampliar o foco e até aumentar a criatividade. Ela também destaca que “para colher os benefícios que vêm do aprendizado do autocontrole, de resistir a impulsos e de valorizar os momentos em que estamos esperando, precisamos reconhecer o valor de esperar”.
Ainda que intuitivamente, eu procuro cultivar esse tempo suspenso da “espera”, buscando viver o exercício de me preparar para algum momento, mesmo sem a certeza de que ele será exatamente como imaginei. Como Clarice Lispector escreveu em “O livro dos prazeres”: “por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso”.
Há também o enorme hit da música “É preciso saber viver”, de Roberto Carlos, cantado por milhões de brasileiros:
“Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Para mais tarde não sofrer
É preciso saber viver”.

Há muitas citações e exemplos na arte e na poesia sobre o mote da espera, esse intervalo de tempo, esse “prazo” que criamos para administrar sensações, esperanças, desejos, prazeres. Como nos versos iniciais do poema “Canto a mim mesmo”, de Walt Whitman:
“Estão todas as verdades
À espera em todas as coisas:
Não apressam o próprio nascimento
Nem a ele se opõem;”
Posso dizer que costumo ser recompensada por minhas “esperas programadas”, vamos chamar assim. Vou contar como faço para criar e antecipar momentos que ainda virão. Há poucos dias, li que a Orquestra Filarmônica de Berlim fará dois concertos em São Paulo (dias 18 e 19 de outubro). Eu sempre quis ouvir essa orquestra, uma das mais prestigiadas do mundo. Tão logo soube, comprei passagens para a data de uma das noites de concerto na Sala São Paulo.
Para valorizar a minha espera musical, estou adicionando planos para conhecer lugares em Sampa que ainda não pude ir, como um novo winebar (“Lita”, da chef Tássia Magalhães), outro plano ainda não realizado. Se tudo correr como o planejado, a ideia é que seja um fim de semana do jeitinho que eu gosto.
Fica a dica e convite para vocês: “Carpe diem!”

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