E você tem fome de quê? De vida? De beleza?

Por Maya Santana
Banquete da Vida é o título original desta crônica

Banquete da Vida é o título original desta crônica

Déa Januzzi

Você tem fome de quê? A indagação da médica Acely Hovelacque deixou a mãe com um buraco no estômago. Esfomeada, a mãe passou a pergunta para o filho, que respondeu sem nem pensar direito: “Tenho fome de viver”. A insaciável pergunta de Acely às pessoas que participam do grande banquete da vida fez a mãe admirar a prontidão do filho, pois a fome que os jovens sentem tem urgência de ser saciada. É desejo puro. É fome de agarrar o que aparecer pela frente. Fome de sobrevivência.

É tudo visceral quando se tem 20 anos e o desejo sem medidas de estar vivo e de provar o cálice da vida, que transborda a todo momento e que embriaga, mas sem a ressaca do dia seguinte. A fome do filho é de busca, de prazer à flor da pele.

E, você, tem fome de quê? De vinho tinto, de flor, de ir ao cinema, de rezar de vez em quando, de escutar a voz da psicóloga Gislaine DAssumpção saindo doce, terna, do CD que alinha os chacras. É de dizer que a fome desvairada de viver já passou. É uma fome velha, já saciada, que deu lugar ao apetite muito mais sofisticado. Nada de self-service, de comida em quantidade.

Já não dá mais para correr atrás de um relacionamento amoroso por fome, mas por apetite. O paladar do amor vai ficando mais refinado, sutil, com direito a temperos exóticos. Não é preciso mais escancarar a fome de sexo, de estar junto 24 horas por dia, de procurar ser dois em um só corpo, de falta de respiração, de transpiração. O paladar exige ritual, com direito à mesa posta, talheres de prata, toalha bordada de linho, bandejas, velas e um cheiro de calmaria, com orquídeas nos vasos de cristal.

O apetite não tem ânsia de acabar. Não devora nem peca pela falta ou pelo excesso. Apetite não tem cara de sexta-feira. Tem a tranqüilidade morna dos domingos, da música, da meditação. O apetite não tem pressa nem gula. Tem sabor. É degustado lentamente. A fome é para engolir inteira, aos pedaços, engasgando, em espasmos. Apetite não é indolência, mas atributo. Não é vôo, mas ninho. Na grande ceia, até os monstros sagrados sentam-se à mesa, como homens comuns. Apetite não é mais revolução, mas apenas o retrato de Che Guevara pregado na lembrança, sem jamais perder a ternura. Não é mais fome de guerrilha, mas de notar que o tempo é inexorável até para Fidel Castro, que envelhece, envelhece e envelhece.

Mas a fome da juventude é diferente. É um buraco vazio no estômago e na alma, é ter amanhãs demais pela frente, é abismo, saltar no escuro, cair num precipício, enquanto apetite é degustar cada dia como se fosse o último, é respirar fundo, é quase entardecer, com direito a crepúsculo.

Mas tem certos dias que fome e apetite se misturam. Foi o que aconteceu no dia em que a mãe resolveu ir ao show do cantor Zeca Baleiro, numa dessas casas de espetáculo sem poltronas, sem ar refrigerado, com horário marcado para as 22h, mas que só começa depois da meia-noite. Com fome de poesia misturada com música, a mãe perdeu o apetite de escutar o cantor e compositor no sofá da sala.

Lá foram mãe e filho para o show. A mãe só esqueceu de que apetite não comporta todo mundo em pé, grudado um no outro, suando, pulando, e com fome de engolir tudo de uma vez só. A mãe pensou em correr para o abrigo de sua casa. Mas não dava mais para entrar nem sair do meio da multidão insaciável. A mãe tentou apurar o paladar, manter a pose, mas a massa desenfreada começou a pular. Pedir socorro? Sair correndo? Não, a mãe começou a dançar, primeiro timidamente, depois tomou gosto. Dançou até ficar exausta e levar um tombo no degrau da escada. O filho ficou perplexo, envergonhado, diante daquela mãe sem paladar algum. Nada mais restou à mãe do que levantar do chão, para constatar que ainda precisa se acostumar com o barulho da fome e aprimorar o sentido do paladar. Mas e, você, tem fome de quê?

Esta crônica da jornalista e escritora Déa Januzzi, 61, foi publicada no jornal Estado de Minas com o título “Banquete da Vida”.


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1 Comentários

Vital Abras 8 de fevereiro de 2014 - 14:23

Déa Januzzi, da fome de leitura. Beijo

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