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Ela insiste em ver, apesar da miopia e da escuridão

Por Maya Santana

"Ela vê o vazio da vida que não pode ser preenchido"

“Ela vê o vazio da vida que não pode ser preenchido”

Déa Januzzi

Ai, que vontade de dar colo para essa menina míope, que vê o mundo embaçado e a lua maior do mundo. Só os míopes conseguem enxergar a lua em todo o seu esplendor, como uma bola esfumaçada, enorme, branca e poderosa. Só os míopes tentam adivinhar a dimensão de um universo difuso, completamente etéreo e vago. Só os míopes são capazes de enxergar a profundidade da alma e o arrepio da pele. Só os míopes podem contar sobre a névoa da superfície humana.

       Ai, que vontade eu tenho de ser mãe dessa menina de cabelos anelados, que não enxerga nem os olhos da pessoa à sua frente. Ai, que vontade eu tenho de embalar o sono dessa menina inquieta, mas doce, dessa menina que carrega dentro de si a poesia da vida. Dessa menina rebelde, que tem olhos grandes para compreender a insensatez do mundo, mas não consegue enxergar o olho do outro sem suas lentes de contato. Menina, que a cada tombo, a cada cicatriz no rosto de míope, procura lutar contra as quedas. Ai, como essa menina míope consegue ver tanta coisa?

       Ela vê a dor estampada no coração do homem, vê a mãe que chora encoberta pelas rugas. Vê o vazio da vida que não pode ser preenchido, vê como são cegos os governantes, vê como a beleza insiste em escapar pelo canto dos olhos, vê como a felicidade é escassa. Perdoai, menina de olhos grandes, as mães que não sabem o que fazem. Essa menina, coitada, enxerga tanto que está sempre à margem, que gosta dos humilhados e ofendidos, que tem birra da mediocridade, que precisa ser tão especial que acabou míope, sem óculos para ver direito.

       Essa menina míope, de olhos grandes, às vezes usa lentes de contato para ver se o mundo fica melhor, se tem mais cor e mais nitidez, mas faz questão de, em certos dias de lua cheia, tirar a lente, para vê-la maior, mais intensa e  brilhante. Tem certos dias que essa menina míope quer colocar lentes coloridas nos olhos dos homens para ver se eles olham para as coisas de uma forma especial, diferente, se eles descobrem um outro sentido para a vida.

      Tem certos dias que essa menina míope, de imensos olhos castanhos, prefere andar de óculos no lugar das lentes para ver se as pessoas podem ser vistas de uma outra maneira, sem tanta dor, sem tanto cansaço, sem tanto tédio. Tem certas noites que essa menina míope faz de conta que enxerga o lado bom da vida, as veias abertas do coração, a pulsação do nervo ótico, as estrelas apagadas do céu interior. Tem certas tardes que essa menina míope põe a lente para enxergar melhor os olhos mórbidos de quem nunca viu nada. Tem certas manhãs que essa menina míope passa a mão nos óculos em cima do criado-mudo para enxergar melhor a miséria debaixo dos viadutos, a fome que está diante dos olhos de todo mundo, mas ninguém quer ver. Ela precisa fazer com que as pessoas enxerguem o lixo que varrem para debaixo do tapete de suas vidas, para o abandono jogado no vaso, depois da descarga, para que nada fique diante dos olhos, a escancarar o medo de cada um.

     Tem certas horas, que essa menina míope entra em transe e enxerga tudo sem lente e sem óculos. Acha que o mundo tem jeito, que ainda existem pessoas do bem, que as mães são completamente loucas de não verem o que está à frente dos seus narizes, que ser filho é ter a sorte de não nascer míope para a compaixão, a generosidade, o perdão, a bondade. Que enxergar direito é não ter preconceito nem fórmulas nem esquadro para medir o tamanho da alma do outro. Que ser mãe é usar lente de aumento, para enxergar o perigo em cada esquina. Miopia é ser transparente e cristalina como os olhos da imaginação. É dar asas ao melhor de cada um. É não brincar de esconde-esconde nos muros altos e perigosos da vida. É enxergar nitidamente o avesso do outro. É não precisar de lente para ver o que o outro tem de melhor ou de pior.

     Ai, que vontade de abraçar essa menina míope, de olhos enormes, que está à minha frente e que não pára de ler Jorge Amado, Dostoievsky, Roberto Freire, Machado de Assis, Xinram, Angela Mastretta. Que vontade eu tenho de embalar essa menina míope com a música africana de Lokua Kanza, ou com a nostalgia de Nina Simone, e de Ennya que fala numa terceira visão, num outro mundo. Que vontade eu tenho de dar olhos para essa menina míope que nunca se cansa de ver a ternura e o lirismo que moram dentro dela.

     Ai, menina míope, de olhos imensamente abertos, eu queria tanto dar a você um mundo menos disforme, mais nítido, mas as minhas lentes estão gastas pelo ofício de tanto ver. Menina míope, de olhos grandes, perdoa-me pelos dias de cegueira, pelas imagens distorcidas, pelo vidro da janela embaçado de tanta luz. Ai, coitada dessa menina míope, de imensos olhos, que precisa tanto de afeto, de ser amada, que escreve sobre a dor do mundo. Ai, menina míope, que é como um cactus, cheio de espinho por fora, mas com água por dentro. Ai, menina de olhos grandes, que não agüenta a ingratidão de certos momentos, de certas pessoas.

       Livrai essa menina do mal, Amém. Perdoa essa menina de olhos embaçados, de alma errante, cigana, louca, insana, que insiste em ver, apesar da miopia e da escuridão.

Esta crônica de Déa Januzzi foi publicada originalmente no jornal Estado de Minas, com o título de “Menina dos Olhos Grandes”.

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1 Comentários

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Déa Januzzi 26 de abril de 2014 - 21:25

Texto muito apropriado para o momento que eu estou vivendo, a vida dá voltas.

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