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Edna de Almeida Silva, de 56 anos: no caminho das águas havia um poste ao qual ela ficou agarrada por mais de três horas, durante enchentes na cidade mineira de Ubá

11/03/2026
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Retirada de casa, na madrugada de 24 de fevereiro, pela força das chuvas que castigaram a cidade de Ubá, Edna  agarrou a um poste,  e esperou uma eterndade pela chegada do socorro. Levado pela correnteza, o namorado, Luciano, ainda não foi encontrado. Foto: Reprodução

Gustavo Werneck

Estado de Minas

Elas não se conhecem, moram em cidades diferentes e têm profissões bem distintas, embora estejam unidas por uma história que reúne elementos essenciais à vida: resistência, trabalho e solidariedade. No fim de semana do Dia Internacional da Mulher, tradicionalmente celebrado em 8 de março, o Estado de Minas conta a história de Edna, sobrevivente das tenebrosas enchentes em Ubá, na Zona da Mata mineira. Retirada de casa, na madrugada de 24 de fevereiro, pela força das chuvas, ela se agarrou a um poste, durante mais de três horas, até ser socorrida. Levado pela correnteza, o namorado, Luciano, ainda não foi encontrado.

Passados tantos dias do início da tragédia na Zona da Mata, responsável por destruição e mortes, o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais continua as buscas por Luciano.

A soldado Sabrina Torres Silva, de Juiz de Fora, integra o Pelotão de Emergências Ambientais e Respostas a Desastres (Pemad) e considera o trabalho uma missão. Neste caso específico, continuar procurando para “devolver o amor da vida de alguém”. Ex-professora de ensino fundamental e médio, ela garante ser impossível, mesmo com todo o treinamento, deixar de lado a emoção num momento desses.

Na outra ponta dessa história, figura uma legião de pessoas solidárias que fazem campanhas para ajudar a quem mais precisa em Ubá, Juiz de Fora e Matias Barbosa. Entre os voluntários, se encontra a psicóloga Fernanda Schröder Gonçalves, residente em Belo Horizonte. Com ações em três frentes, ela mobiliza familiares, vizinhos, uma instituição de ensino e quem mais se dispõe a ajudar. “É importante a gente se colocar no lugar do outro, ainda mais em momento de tanta dificuldade. Todos os donativos partem, na verdade, do nosso coração”.

Edna:: agora, é retomar a vida normal de dona de restaurante. Foto: Reprodução

Foram três horas e minutos que pareceram uma eternidade de luta pela vida. Na madrugada de 24 de fevereiro, Edna de Almeida Silva, de 56 anos, foi arrancada de sua casa em Ubá, na Zona da Mata de Minas Gerais, pela força descomunal das águas. A enchente histórica, dominando todos os espaços da cidade, também carregou seu filho, Bruno Silva Siqueira, de 31, que sobreviveu agarrado à grade de um portão. Já o namorado de Edna, Luciano Franklin Fernandes, de 50, levado na correnteza, ainda não foi encontrado.

Passados 11 dias do início da tragédia que deixou sete mortos, um desaparecido e mais de 3,5 mil pessoas desabrigadas e desalojadas no município de 110 mil habitantes, Edna mantém a esperança, a voz firme e só pensa em recomeçar – verbo que se traduz, de imediato, pela reconstrução do seu restaurante. A enchente atingiu em cheio o Bom Paladar, localizado na Rua Camilo dos Santos, via pública transformada em rio.

“Foi tenso. Era muita água, e chegou de repente. Estávamos dormindo, era pouco mais de 1h da madrugada quando ouvimos barulhos seguidos de um estrondo. Levantamos e vimos a parte da frente da casa arrebentada”, conta Edna. Em seguida, foram tragados pela violência da enxurrada. Ficaram debaixo d´água, pois a união dos rios Xopotó e Ubá criara um curso que subiu cerca de 3 metros, provocando estragos por todo canto e ceifando vidas.

Leia também: 8 de Março: um grito contra a naturalização da barbárie

No caminho das águas havia um poste, salvação da paranaense moradora de Ubá desde 2007. “Não sei nadar. Fiquei ali, segurando, por mais de três horas, sendo resgatada exatamente às 5h20. Quando a água baixou, e ficou na altura da minha cintura, um rapaz me puxou e me colocou no parapeito da janela da casa dele. Meu filho estava mais à frente e se salvou”.

Durante todo o tempo, Edna pedia a Deus para não morrer afogada. “Era um lugar ao qual os bombeiros não conseguiam chegar”, recorda-se. O medo maior era da rede elétrica, com possibilidade de rompimento de cabos de alta tensão, ou encostar em algo que provocasse choque. Resistir era preciso, até o socorro.

Correnteza

Enquanto lutava bravamente pela vida, Edna viu, passando na maior velocidade, toda sorte de objetos, grandes e pequenos, a exemplo de tambores de óleo, utensílios domésticos e eletrodomésticos – geladeira e botijão de gás –, e partes da natureza. “Vi muitos troncos de árvores sendo arrastados”. Era um filme de terror suavizado apenas pelas orações: “Senhor, me dê forças para ver meu neto nascer”.

O neto ou neta vai chegar em julho, e poderá se chamar Conrado ou Olívia. “Minha filha, Glenda, e o marido ainda não sabem o sexo do bebê”, conta a futura vovó que, desde a tragédia, mora com o casal. “Pagava aluguel, agora não tem como voltar para lá. Da mesma forma, perdemos praticamente tudo no restaurante. Estou viva, graças a Deus, e vou reconstruir o Bom Paladar para fazer o que mais gosto: cozinhar e alimentar as pessoas”

Católica e devota de Nossa Senhora Aparecida, Edna ainda não pôde ir à igreja agradecer pela vida dela e do filho, e pedir para que o namorado seja encontrado. “Ainda não temos qualquer notícia”, explica, adiantando que sempre reza o Pai Nosso e Credo. “Sou abençoada por Deus, fiquei numa situação difícil e estou aqui para contar a história. Nunca vi enchente igual, o máximo foi na altura de 40 centímetros, mas três metros é demais.”

Devido às águas imundas que tomaram conta de Ubá, Edna já foi ao médico, tomou vacinas e está preparada para a nova luta: tomar todas as providências para reabrir o restaurante que está em suas mãos há 10 anos. Na quinta-feira, esteve no local, distante 70 metros de sua antiga casa, e, confiante, avisa que redobrará as forças para cumprir seu objetivo.

A soldado sabrina durante as buscas em ubá “para encontrar o amor da vida de alguém”
CBMMG/Divulgação

Trabalho incessante, sem deixar de se emocionar

As buscas por Luciano estão a cargo do Pelotão de Emergências Ambientais e Respostas a Desastres (Pemad), do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, em Juiz de Fora. “Temos feito um trabalho incessante, mas é nossa missão”, afirma a soldado Sabrina Torres Silva, casada e mãe de Pedro, de 17, e Ana, que completou 7 ontem (6/3). “Havia pensado em ficar com ela, comemorar a data em família, mas nem tudo sai como planejamos. Há fatos inesperados, estamos num missão”, diz a integrante do pelotão especializado.

Professora do ensino fundamental e médio que trocou, há três anos, a sala de aula pela vida militar, Sabrina não deixa de se emocionar com quadros tão dramáticos como os vistos em Ubá. E, mesmo não conhecendo pessoalmente Edna, destaca a determinação e resistência dela para lutar contra a correnteza se segurando no poste. Ao remeter à cena, a soldado ressalta o valor das mulheres, numa mensagem a todas as brasileiras: “A gente pode ser forte, independente, muitas vezes com força maior do que conhece. A mulher pode ser o que quiser, estar no lugar que quiser”.

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Depois de um dia vasculhando rios e matas, sem sinal de Luciano Franklin Fernandes, Sabrina diz que a missão continua. Nesse caso, “para encontrar o amor da vida de alguém”. Os esforços das equipes se concentraram, na quinta-feira (5/3), ao longo do Rio Ubá, com buscas a pé, emprego de equipes do canil e uso de drones para apoio aéreo nas varreduras. Paralelamente, embarcações percorrem o Rio Xopotó e trechos na região do aeroporto, áreas consideradas críticas em razão da dinâmica das águas.

A psicóloga Fernanda, com doações arrecadadas para a zona da mata: “se conseguir ajudar uma família fico feliz”Arquivo pessoal

A psicóloga Fernanda, com doações arrecadadas para a zona da mata: “se conseguir ajudar uma família fico feliz”
Arquivo pessoal

Ajuda a quem mais precisa

A tragédia na Zona da Mata mineira, que atingiu Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa, deixando mortos, desaparecidos e milhares de famílias sem moradia, ainda comove o país. Famílias, organizações não governamentais, instituições religiosas, associações, comerciantes e moradores de condomínios, entre outros grupos, formam correntes de solidariedade com um só objetivo: ajudar. E, assim, chegam a quem mais precisa de roupas, calçados, alimentos, água potável, kit de higiene pessoal, material de limpeza e outros.

Em Belo Horizonte, tão logo soube da dramática situação, a psicóloga Fernanda Schröder Gonçalves, que trabalha na área de desenvolvimento humano, tomou a iniciativa de formar três frentes para recolher donativos. “Se conseguir ajudar uma família, fico feliz”, pensou, logo no primeiro dia, a moradora do Bairro Nova Suíça, na Região Oeste. Agora, com o bom resultado da ação, já conseguiu arrecadar o suficiente para ajudar centenas de pessoas.

Casada, mãe de Marina, de 6 anos, e Vitor, de 1 ano e 7 de meses, Fernanda começou a campanha fazendo contato, via grupo de WhatsApp, com familiares. Diante da receptividade altamente positiva, saiu a campo, ganhando adesão, para a campanha, do Colégio ICJ, onde Marina estuda, e dos moradores do seu condomínio. A terceira frente, em andamento, está em obter recursos, via Pix, para auxiliar quem precisa voltar a trabalhar. “Vamos comprar ferramentas, equipamentos, instrumentos, enfim, o que for possível para a pessoa manter seu serviço”, afirma.

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Na tarde de ontem, Fernanda e moradoras do seu prédio, que costumam se reunir às sextas-feiras, trocaram o bate-papo pela organização do material que seguirá, nos próximos dias, para a organização não governamental Mulher Tá On, em Juiz de Fora. De lá, os donativos serão distribuídos na cidade, a que mais sofreu com as enchentes, e nos outros dois municípios atingidos, Ubá e Matias Barbosa.

Todos os donativos recebidos se encontram no salão de festas do condomínio. “Conversei com o síndico e ele deu sinal verde”, revela a psicóloga, que nasceu em Curitiba (PR), foi criada em Juiz de Fora e reside em BH desde 2013. “É importante a gente se colocar no lugar do outro, ainda mais em momento de tanta dificuldade. Todos os donativos partem, na verdade, do nosso coração”.

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Iniciei minhas atividades como jornalista na década de 70. Trabalhei em alguns dos principais veículos nacionais, como O Estado de S. Paulo e Jornal de Brasil. Mas a maior parte da minha carreira foi construída no exterior, trabalhando para a emissora britânica BBC, em Londres, onde vivi durante mais de 16 anos. No retorno ao Brasil, criei um jornal, do qual fui editora até me voltar para a internet. O 50emais ganhou vida em agosto de 2010. Escolhi o Rio de Janeiro para viver esta terceira fase da existência.

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