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“Eles pensavam assim…”

Título de caderno de memórias, com muitas referências à Segunda Guerra Mundial, de turma de Direito do Rio de Janeiro anos 1940

07/08/2025
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Dona Ephigenia de Jesus Werneck, a quem pertencia o caderno de memórias dos anos de 1940,, entre dois de seus sete filhos, Gustavo(E), autor do texto abaixo, e Mário. Foto: Acervo familiar

50emais

Um artigo primoroso sobre as inquietações de jovens estudantes de Direito, no Rio de Janeiro, nos anos de 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, reunidas num velho caderno de memórias encostado, há tempos, num canto da estante.

No ano em que o mundo celebra os 80 anos do fim da Grande Guerra, o jornalista Gustavo Werneck, 70, filho da proprietária do caderno, advogada e educadora Ephigênia de Jesus Werneck, encontrou por acaso, durante uma limpeza, esse precioso documento.

E resumiu nesse excelente artigo os escritos da mãe (o pai dela lutou na guerra) e de colegas de classe, durante aquela década que abalou o mundo.

Leia o artigo de Gustavo Werneck publicado pelo Estado de Minas:

Foi nas férias, fazendo limpeza na estante dos livros que pertenceram a meus pais, que encontrei o que não estava procurando. Tira poeira daqui, passa o pano dali, e puxei, na parte mais alta, o caderno de capa de couro desenhada com o sol e três coqueiros. Desci da escada imediatamente e deixei o resto do serviço para depois. Nas minhas mãos, estava um registro das memórias de minha mãe, Ephigenia, no período de 1942 a 1947, quando estudou direito no Rio de Janeiro. Não colocava os olhos nesse caderno havia décadas, e fiquei emocionado e, claro, curioso, ao abri-lo, principalmente pelo título escrito com caneta-tinteiro e letras elegantes: “Eles pensavam assim…”

Reconheceria a caligrafia da minha mãe em qualquer lugar do planeta, pois ela também foi minha professora, e, de vez em quando, dizia que minha letra era meio feia, não havia me ensinado assim. Eu ria, pois era a mais pura verdade, os garranchos só foram piorando com o tempo. Lembrei disso ao dar uma folheada rápida, no maior cuidado para as páginas amarelecidas pelo tempo não despencarem. No começo, fiquei com receio de estar invadindo a “intimidade dos mortos”. Depois, respirei fundo e fui lendo com atenção os textos dos colegas e de alguns professores, boa parte fazendo referências à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em 2025, o conflito que ceifou cerca de 60 milhões de vidas completa oito décadas do seu término, e as palavras daqueles jovens do século passado me levaram a outra dimensão, a uma viagem no tempo sem hora para voltar.

Cada frase do caderno é de uma atualidade impressionante. Falam sobre “uma civilização sobre um montão de ruínas”, o que me conduziu às imagens da Faixa de Gaza em escombros, a cidades da Ucrânia dilacerada, à Síria tentando se reerguer. Havia naqueles jovens incertezas quanto ao futuro: “Por que tanta desarmonia e lutas tremendas, que fazem o sangue humano tingir a terra e o mar?” Num tempo em que o fascismo era uma realidade brutal, e não ameaça, os estudantes de direito temiam seus tentáculos por ser “a grande nódoa do século”.

Mas, como sempre, há saídas e esperança: “Enquanto podemos sorrir, nem tudo está perdido”, escreveu uma futura advogada. E ainda: “Fora da cultura e da liberdade não há salvação, nem para os indivíduos, nem para os povos”. Política, religião, amor, comportamento, futuro, sonhos, anseios da juventude, amizade e sentimentos fazem parte desse caderno de recordações alheias.

ESPÍRITO DO TEMPO Quando começou o curso de direito em 1942, aos 20 anos, minha mãe, mineira de Belo Horizonte, morava no Rio com o pai, José Lopes de Jesus, que era da Marinha do Brasil e atuou nas duas guerras – a Primeira, de 1914-1918. Ela, inclusive, tentou ser voluntária da Cruz Vermelha, conforme me contou certa vez, mas os estudos impediram esse propósito. Num recorte do extinto Jornal do Brasil, de 12 de novembro de 1982, encontrei o registro de que meu avô, o capitão de fragata José Lopes de Jesus, fora um dos sobreviventes de um navio afundado por submarinos alemães. Corria o ano de 1917, quando o Brasil entrou na então chamada Grande Guerra e meu avô era um marinheiro adolescente de 17 anos.

Caderno de Memórias: registro das memórias de minha mãe, Ephigenia, no período de 1942 a 1947, quando estudou direito no Rio de Janeiro. Foto: Gustavo Werneck

Em 16 de novembro de 1942, assim escreveu a estudante,  Rosamaria, colega da minha mãe, sobre os horrores da Segunda Guerra Mundial, o conflito mais sangrento e com maior número de mortes da história da humanidade: “Quando vemos a guerra que estraçalha corpos e almas, como se quisessem edificar uma nova civilização sobre um montão de ruínas, quando a fé e a crença, o amor à Pátria e à família são meras palavras para se dizerem em discursos, nós pensamos que ninguém mais se entende e que se fala um idioma de ódio e vingança. Mas ninguém nunca se entendeu verdadeiramente. São apenas desejos e ódios que vêm à tona como restos de naufrágio de uma alma.”

Sempre fui apaixonado por livros e filmes ambientados nas duas guerras mundiais. Mas ler esses manuscritos, e não ficcionais, me deixou com todos os sentidos aguçados: a visão de letras tão diferentes, algumas quase incompreensíveis; o tato, ao passar os dedos sobre as páginas; o olfato, ao sentir o cheiro do papel pálido e marcado por manchas amarronzadas, porém ainda suporte perfeito para tais lembranças. A audição veio da vontade de ouvir minha mãe contando as histórias, e o paladar, obviamente, do sabor de cada parágrafo, ideia, posicionamento, legado.

NÓDOA DO SÉCULO Naqueles tempos, em que o fascismo, encarnado em gênero, número e grau por Benito Mussolini (1883-1945), fazia o mundo tremer ao lado do nazismo de Adolf Hitler (1889-1945), uma também estudante, de quem não consegui “decifrar” o nome, registrou em letras garrafais: “O fascismo é a grande nódoa do século. Anula totalmente a personalidade humana. Não deixa o pobre raciocinar, caminhar para a frente, para a luz, para o amor. Quer que os ventres não cessem de fornecer carne para os canhões. ‘Pelos seus frutos, os conhecereis’. Ele forja as guerras. Não se envergonha de vilipendiar a honra dos povos livres. Invade nações pacíficas e laboriosas. Mata reféns inocentes como os antigos cordeiros. Fuzila sábios e heróis. Torna velhos, pelo terror e pela angústia, os corações dos meninos, que são novos como rebentos”.

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Em 17 de novembro de 1942, ano em que o Brasil entrou na Segunda Guerra – ao lado das nações aliadas (Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética) contra as forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) – o colega Hugo escreveu o seguinte, a respeito do título “Eles pensavam assim…”: “…é justo que digamos o que pensamos nós, mas é preciso dizer, agora, neste momento em que o mundo sofre profunda crise, alguma coisa que valha (…) pensamos que o valor das ações humanas não está nos seus resultados e, sim, nos seus fins e nos esforços para realizá-los”.

Título do Caderno escrito com caneta-tinteiro e letras elegante. Foto: Gustavo Werneck

SENTIDOS DA VIDA Fiquei imaginando aquela época, há mais de 80 anos, quando se escrevia a lápis e a caneta sobre a folha em branco, em que livros e professores eram, sem dúvida, as maiores fontes de conhecimento para os universitários, e as notícias chegavam nas ondas curtas do rádio e nos jornais impressos. Qual era o sentido da vida? Qual a ideia de felicidade? Que caminho seguir?

João pensava assim: “Vivemos eternamente insatisfeitos, procurando qualquer coisa para preencher o vazio doloroso que existe em nosso coração e nossa mente. Vivemos no temor contínuo da morte, e, o que é pior, no temor da dilacerante incerteza sobre o há do outro lado da vida. Procuramos religiões e, com elas, construímos muralhas, atrás das quais buscamos segurança e conforto.

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Infelizmente, essas muralhas são construídas sobre areia, e as ondas da dúvida estão constantemente arrebentando de encontro aos seus alicerces, deixando expostas as estruturas que tão cuidadosa e perseverantemente construímos”.

Rosamaria foi direto ao ponto. “Nós que ainda temos uma crença, e que na existência encontramos uma finalidade, sentimos que a felicidade está no bom momento que passávamos, num sorriso e num ‘Sonho de amor”, de Liszt (Franz Liszt, 1811-1886, compositor húngaro) ou num ‘Concerto’ de Tchaikovski (Piotr Tchaikovski, 1840-1893, compositor russo) (…) Quando não cremos mais que haja um espírito de humanidade, além de um desejo interesseiro de ser recompensado, dentro da intimidade das almas, nós sentimos como se fôssemos os únicos incompreendidos na face do mundo.”

Fiquei refletindo sobre o texto esperando uma saída, uma resposta para aquela futura advogada. E ela veio: “Se os homens pudessem entender o encanto de cada coisa, a vida seria digna de ser vivida. E a boa compreensão entre os povos talvez fosse uma palavra a riscar na lista das inatingíveis”.

Verdade incontestável. Foto: Gustavo Werneck

Com uma letra miúda, Ana foi na mesma toada. “Os homens têm desprezado os deveres de conservar a vida, a liberdade e propriedade do próximo, e não cultivar a veracidade e a fraternidade. Em seus corações, há o abismo insaciável do egoísmo e do domínio absoluto” (…) Ó se os homens compreendessem e sentissem o grande amor de Deus revelado na pessoa gloriosa de Cristo sobre a cruz, para trazer ao aflito e desesperado o conforto; ao humilhado e oprimido, a liberdade; ao faminto, sedento e triste, o alimento que dá vida, paz e alegria (…) Ele, o Redentor da humanidade, ensinou: ‘Amarás a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo’. Eis o único meio para trazer a felicidade ao mundo”.

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Mais adiante, Fábio arrematou. “Só o que se executa com amor e consciência, com fé e convicção, é justo e é perfeito. A comunhão entre o ideal e o trabalho constitui a forma mais elevada da vida e a única verdadeiramente digna de ser vivida”. Bem no final, encontrei uma frase que me permitiu fechar o livro, voltar à arrumação da estante e ir dormir, pois já era tarde da noite. “Um homem com sono não pensa”.

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Iniciei minhas atividades como jornalista na década de 70. Trabalhei em alguns dos principais veículos nacionais, como O Estado de S. Paulo e Jornal de Brasil. Mas a maior parte da minha carreira foi construída no exterior, trabalhando para a emissora britânica BBC, em Londres, onde vivi durante mais de 16 anos. No retorno ao Brasil, criei um jornal, do qual fui editora até me voltar para a internet. O 50emais ganhou vida em agosto de 2010. Escolhi o Rio de Janeiro para viver esta terceira fase da existência.

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