Enquanto setembro não chega

Por Maya Santana
Ela hoje vai trazer uma braçada de flores do campo para bendizer a vida

Ela hoje vai trazer uma braçada de flores do campo para bendizer a vida

Déa Januzzi –

Até chegar setembro, para que ela aprenda com a poeta Cecília Meireles e com as primaveras a deixar-se cortar toda, e voltar sempre inteira, terá que viver o mês de agosto com todos os seus fantasmas.

Enquanto setembro não chega, ela vai adubando o terreno fértil das palavras que formam seu jardim. Ela corta uma palavra sozinha, quase murcha, no meio do texto. Apara os galhos secos dos adjetivos em excesso, arranca as ervas daninhas da frustração, da melancolia. No seu canteiro, ela não precisa de palavras imprudentemente agrotóxicas, amargas e cruéis. Ela sabe que as palavras são como flores, precisam ser bem tratadas, com adubo certo, a dose perfeita, para revelar-se girassol e escancarar toda a sua beleza. Ou pode estar escondida no lodo, até se transformar na mais exuberante flor de lótus.

Ela não tem estufas para aquecer as palavras ou protegê-las da chuva de insetos. Não, ela não tem vasos para enfeitar palavras vãs, surradas, desgastadas. Não, ela não tem jarras de cristal para colocar flores de plástico e palavras decorativas.

De uma vez, ela arranca do seu jardim as verdades absolutas, as palavras machucadas pela língua pátria. Ela cria metáforas, brinca, ri do seu texto rabiscado, emendado, recoberto por novas palavras. Consulta o dicionário do Aurélio. Vai ao Houaiss eletrônico e acha muitas palavras desconhecidas, estranhas, aterradoras, alheias ao resto da frase, sem concordância com o parágrafo acima.

Ela então rega a poesia que ainda insiste em sobreviver no deserto dos seus sonhos. Revira a terra em busca de suas raízes mais profundas. Com o ancinho de jardim, cava os seus desejos mais ardentes, até encontrar a semente de uma única esperança.

Pede ajuda ao seu filho que passa por perto cheio de folhas novas, de idéias verdejantes, que florescem em qualquer lugar da casa. Basta a primeira palavra, para que nasçam conversas longas, que são capazes de resistir às tempestades, à chuva de granizo, aos pesticidas de um mundo adulto envenenado.

Basta um único grão de diálogo para que o jardim secreto do seu filho volte a germinar. Não tem canteiro mais bem cuidado do que esse, do que o de uma mãe que entende a linguagem do filho, sem preconceito, sem censura, sem ser dona da verdade. Da mãe que aprende com o filho a ver a Lua cheia que corta o céu e abriga as mudas que começam a surgir no coração.

Até que agosto termine, ela vai trocando sementes de vida com o filho, misturando com uma porção de areia do mar, raios de Sol, outra de vento e liberdade. Não, as mães não sabem medir palavras. São como sempre-vivas, que se fecham à noite quando o filho ainda não chegou, mas se abrem em viço e cor a cada manhã.

Até chegar setembro, ela vai cutucando as suas feridas, soterradas nas entranhas da terra.Vai cavando um túnel no seu jardim secreto, até chegar à fonte que vai regar tudo em volta. Ou até descobrir a água mais pura de sua própria mina, que abastecerá as novas mudas. Com seu jeito de flor, ela, às vezes, se esconde entre os espinhos. Transmuta-se em rosas rubras, sem fios de sangue ou de dor, sem cicatrizes, sem marcas.

Mas ela hoje precisa de ervas aromáticas, para perfumar o seu texto, tirar toda a sujeira que ficou grudada nas margens do caderno. Hoje, ela quer um jardim de angélicas, para perfumar os bancos das igrejas com seus amores desfeitos. Ela hoje vai trazer uma braçada de flores do campo para bendizer a vida, que insiste em germinar no canto esquerdo da página. Hoje, ela precisa apenas de um pedaço de papel de pão, para escrever versos desencontrados. Ou, quem sabe, um rolo de papel higiênico para desenrolar poemas escritos de madrugada, à luz de velas, em papel tão diáfano e frágil, que não resiste ao tempo.

Enquanto setembro não chega, ela vai precisar de papéis de cartas, perfumados de paixão. Ela vai abrir um certo livro e encontrar uma flor morta, seca, mas que ainda vive de amor.


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