
Ana Maria Cavalcanti
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“Enquanto você está aqui”, título do livro da jornalista Camila Appel, que acaba de ser lançado, em São Paulo. é um estudo muito corajoso sobre a morte, esse assunto que ninguém gosta de falar, embora estejamos todos caminhando para lá. Quando jovem, a morte nem passa pela nossa cabeça. E, na velhice, mesmo assustados com a proximidade do fim, evitamos o assunto.
Camila fala da morte em todas as 172 páginas do livro, de fácil leitura, resultado de muita pesquisa.
A motivação para escrever “Enquanto você está aqui” veio da mãe, a dramaturga Leilah Assumpção, 82 anos, que vive acamada, depois de sofrer um Acidente Vascular Cerebral, AVC. Leilah, autora conhecida de várias peças de teatro, entre elas “ Fala baixo senão eu grito”, fica deitada, vendo TV a maior parte do tempo.
Em um diálogo delicado, terno, a filha faz uma série de perguntas à mãe. Por exemplo, se ela quer morrer em casa ou no hospital ou se tem alguém que gostaria que não comparecesse a seu funeral.
Camila acredita que tratar a morte como tabu faz mal muito mal. É só quando uma pessoa querida se vai que nos damos conta desse despreparo.
Li o livro de uma tacada só. Achei desafiador. Confesso que me senti um pouco triste, já que tenho mais passado do que futuro. Mas acredito que o livro é exatamente para isso, para ajudar a gente a enfrentar o medo da morte.

Nas muitas pesquisas que fez, Camila viu de perto como se realiza uma necropsia. Queria saber o que acontece com nosso corpo quando morremos.
Cremação ou enterro? Veja os dados que a autora levantou: no Brasil somente de 10% a 12% das pessoas são cremadas enquanto nos Estados Unidos a taxa é de 70% e no Japão 99,5%.
É muito importante que a família converse com a pessoa que está próxima do fim para saber, entre outras coisas, qual roupa quer usar; quem pode vestí-la;, caixão aberto ou fechado?
O que se deve fazer nos momentos finais de uma pessoa quando ela sente muita dor? No Brasil, há o estigma em relaçaõ ao uso de morfina para esses casos. Com mais pesquisa, Camila descobriu que comparado com outros países, no Brasil, o uso de morfina é 20 vezes menor do que a média mundial.
Pessoalmente, já tomei morfina duas vezes: quando fui internada em um hospital em Londres, onde vivi por muitos anos. Eu sentia muitas dores e me aplicaram morfina. Foi foi um verdadeiro bálsamo para meu corpo tão sofrido.
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Mais e mais pessoas estão optando pela morte com dia marcado. Estou falando da eutanásia e suicídio assistido. A diferença entre os dois procedimentos é que na eutanásia um profissional da saúde é quem aplica a injeção letal. Já no suicídio assistido é a própria pessoa quem faz isso.
Em alguns países, os dois procedimentos são legalizados. No Brasil, são proibidos. Camila mostra , com informações de um artigo da revista britânica The Economist , que, na maioria dos casos, quando uma pessoa quer colocar um ponto final na vida, a razão é a falta de autonomia e dignidade. Èm outras palavras, torna-se dependente de outras pessoas para andar, comer, ir ao banheiro, tomar banho.
Há um aspecto do livro que provavelmente a maioria de nós já viveu: o sentimento de culpa quando alguém querido nos deixa. A culpa nos leva a perguntar: por que não ajudei mais, por que não conversei mais, abracei mais? Pessoalmente sinto essa culpa com relação á meu irmão que morreu 10 anos atrás. “ eu podia ter ajudado mais, conversado mais, dado mais atenção a ele.”
Recomendo “Enquanto Você Está Aqui” pelas valiosas informações . O livro nos ajuda a ver com mais humanidade o fim de nossas vidas. Um convite para conversas, confissões, abraços, perdão. Isso não apressa a morte, diz Camila, isso nos ensina a viver melhor até o fim.

É surpreendente que a autora com apenas 44 anos tenha escrito uma obra de tal porte. Mais que isso, ela tem dedicado sua carreira de jornalista a escrever sobre temas relacionados com a morte. E criou, há alguns anos, um blog na Folha de São Paulo, “ A morte sem Tabu”. Conhece?
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Além do jornalismo impresso, Camila fez documentários para a TV. Um deles foi sobre João de Deus, o médium conhecido mundialmente por fazer cirurgias espirituais. O que não se sabia, Camila mostra em seu documentário, é que João de Deus abusou sexualmente de várias mulheres. Hoje ele está preso. Pegou quase 500 anos de cadeia.
Outro trabalho importante foi o documentário sobre Anita Harley , a principal herdeira de uma gigante do varejo, as Casas Pernambucanas. Viva, mas em coma há 10 anos, ela não tem condições de opinar sobre um valioso patrimônio de 2 bilhões de reais. O documentário esta no GloboPlay.
Veja o trailer:
No lançamento de “Enquanto Você está aqui”, na Livraria da Vila, o jornalista Pedro Bial, com quem Camila já trabalhou, foi quem fez a apresentação do livro. Um dos casos que ele contou é que quando a mãe dele, que estava em estado terminal, quis acabar com a vida, numa clínica na Suiça, onde a eutanásia é legalizada. Mas, na hora de embarcar, mudou de idéia. Considerou que ainda podia aguentar as dores que sentia.
“Enquanto Você está aqui”, da Fósforo Editora, custa 79.90 reais.
Super Recomendo!
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