Entre o céu e o inferno

Por Maya Santana
"Anjos e demônios disputam o mesmo lugar dentro da gente . Onde há sombra há luz"

“Anjos e demônios disputam o mesmo lugar dentro da gente . Onde há sombra há luz”

Déa Januzzi

O meu jeito de rezar é outro . Não vou à missa nem a cultos . Não frequento igrejas nem templos nem mosteiros . As igrejas da minha infância estão com as portas fechadas. Não há mais o mistério da fé .     O meu jeito de rezar é outro . Não é em latim nem dá para ficar ouvindo sermões ou exorcizando demônios que moram confortavelmente, sem nenhum constrangimento , dentro da gente . Nem dá para separar céu e inferno . Anjos e demônios disputam o mesmo lugar dentro da gente . Onde há sombra há luz .

   A minha bíblia é outra , mas o “ Senhor é meu pastor e nada me pode faltar ”. Minha religião é universal e também tem outro mantra budista , sem tradução em português , que invoca a compaixão : “Omani pade hum”. Não confesso mais os meus pecados nem em celebração comunitária , porque eles são muitos e podem transformar os meus dias em abismos . Não acredito em céu nem em inferno , mas nas labaredas de algumas pessoas infernais, que tentam queimar as nossas esperanças e boas intenções .

   Peço perdão todo dia , limpo o veneno da mágoa e da ingratidão . Peço misericórdia para os filhos que negam mil vezes seus pais velhos , que acham que internar no asilo é mais fácil do que ter de encarar a decrepitude do corpo , o complicado trabalho de ver a pessoa próxima da degradação física . Eles não sabem que o espírito continua intacto , sem rugas e sem ranger , sem dor nos ossos .  Eles não entendem que o espírito continua etéreo , límpido e transparente , onipotente . Confesso que deve ser mais fácil internar os pais no asilo do que acalentar a velhice.

   O meu jeito de rezar é outro : é aceitar a velhice da mãe e o gênio indomável do filho . Aprendi a rezar , a professar a minha fé com pessoas que não freqüentam igrejas nem templos , mas que estão dispostas a conviver , a reconhecer os erros , a perdoar , a assumir todos os pecados cometidos, sem hipocrisia .

    Minha oração mais contundente é quando olho para a minha mãe e vislumbro a eternidade , quando penso no meu irmão que morreu e entendo a incompetência dos homens que se dizem senhores da vida . Quando penso que o pior lugar para se curar doença é num hospital . Que Deus nos livre dos hospitais macabros e dos centros de terapia intensiva que são corredores da morte e não da vida .

  Quando vejo parentes de todos os clãs hibernando na Sibéria de suas vidas , mergulhados no martírio do desamor , sem tempo para uma gentileza sequer , peço misericórdia , Senhor .  

     Meu jeito de rezar é assim . Pai nosso que estais no céu , o que fizestes com a ternura ? Perdoai as nossas inumeráveis ofensas , assim como vós nos tem perdoado. Pai nosso que criastes a imperfeição , o meu jeito de rezar é carregar a cruz de todos os dias . O meu jeito de rezar é reconhecer que , no meio das trevas , há a luz de novos amigos como José Augusto , de Sete Lagoas , que sempre está livre para ofertar palavras limpas e doces , mesmo que tenha que ser letra em formato 16, devido a um glaucoma , que não o deixa cego para a beleza , porque ele continua vendo com os olhos da amizade e do respeito . Está sempre pronto para decifrar os mistérios da vida .

  A leitora Sônia Sérgio, de Nova Lima , autora do livro Abatido em pleno vôo também   reza junto comigo . Ela não repete a ladainha monótona desse tempo , mas sabe que a vida é efêmera .  Posso rezar em silêncio , meditar , ter o sublime desapego oriental , mesmo que lá fora o barulho seja infernal, demoníaco. Posso rezar com o doutor Célio de Castro que me ensinou ética fora do púlpito da igreja . Posso dizer amém para o pedagogo Antonio Carlos da Costa que rezou junto comigo livrai-nos dos detratores do Estatuto da Criança e do Adolescente ( ECA ), que insistem em não compreender essa lei maior . Aprendi a rezar com Helena Lopes, que também sabe o cântico dos cânticos , e consegue retribuir com oferendas de flores , vinhos , cartões e gentilezas . Os meus velhos amigos também sabem os mesmos salmos que eu , pois têm o dom de arder . Não têm lugares-comuns no pensamento , não me julgam porque escrevo com as vísceras expostas.

  Aprendi a rezar sem freqüentar igrejas , templos ou mosteiros , mas tenho amigos salesianos , jesuítas , franciscanos , monges e terapeutas holísticos . Eles me ensinaram que não adianta ficar na igreja rezando sem parar , se na próxima esquina o monstro do preconceito se revela. Meu jeito de rezar é outro , Ave Maria, que não é feita só de graça , mas também de pecados e de desejos . Ave , Maria, que é mulher , mãe e teve que sofrer pelos pecados do mundo .

Déa Januzzi é jornalista e escritora. Esta crônica foi publicada originalmente no jornal Estado de Minas.


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6 Comentários

maria aparecida 8 de maio de 2014 - 00:36

sim , aprender a rezar com nossas imperfeições, ilusões, boa vontade, lucidez, esperanças, carências, faz de conta,,,,,,,,,,,,,

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lisa santana 1 de março de 2014 - 02:08

Déa, adoro sua coragem, sua exposição, sua oração. Obrigada.

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Déa Januzzi 23 de fevereiro de 2014 - 23:51

Que a emoção continue a nos unir, obrigada Elza Cataldo. E a você, Dirce, um abraço em forma de oração!!!!

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Elza Cataldo 23 de fevereiro de 2014 - 21:32

Bendito seja o blog da Maya que nos permite compartilhar seu texto, Déa. Pleno de vida e riscos. Escrever também é uma forma de rezar.

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Dirce Saleh 23 de fevereiro de 2014 - 14:21

Januzzi, bom dia. Li , ávida de curiosidade, desejo e a cada palavra ,frase, parágrafo deixou me deslumbrada.
Sua crônica é de um realismo exorbitante. Sério e de uma sensibilidade incrível.
Que libertação apresenta, e nos presentei com tamanha coragem. Pois diante esse mundo ainda estou entre o inferno e o céu, mas a vontade de desprender me disso circunda meus dias , e me atormenta. que adianta ficar assim se “o monstro do preconceito se revela”(Januzzi) em tudo e em todos.Seja no homem, seja na aplicação de leis maravilhosas e questiono para que lei se a lei de Deus é tão verdadeira.Deveria ser única univesal e cumprida na sua totalidade O homem nos fere e nos arrata Seu texto passou me certeza e agora é realmente acabar de construir em meus principios essa verdade que grita e me escandaliza. Já oro assim, apesar que tem hora que ainda sou pega , em pensamentos enraizados, em princípios que não são mais minhas bases.Obrigada amiga. Parabéns,Jins Dirce Saleh

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Déa Januzzi 22 de fevereiro de 2014 - 22:59

Nossa< Maya, obrigada, preciso urgentemente voltar a escrever. Beijoooosss

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