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Um belo artigo sobre o envelhecer, sobre o ocaso da vida, escrito por Juraciara Vieira Cardoso, Professora da Universidade Federal de Minas Gerais, doutora em Filosofia do Direito.
“Ainda sou eu – só que em outro corpo,” título original do texto, fala das mudanças internas e externas que sofremos ao longo da existência. E a autora se detém no processo de envelhecimento que, para ela, “é um tornar-se íntimo da ausência e, ainda assim, permanecer inteiro.”
“O grande Rubem Alves escreveu, certa vez, que as coisas mais bonitas da vida são aquelas que possuem um leve gosto de perda. E a própria existência tem esse gosto de perda: o corpo que muda é uma espécie de ensaio, onde vamos aprendendo a exercitar a difícil arte do desapego,” escreve.
Leia o artigo completo, publicado no jornal Estado de Minas:
Na maioria das vezes, encaro o processo de envelhecimento de maneira natural. Entretanto, há alguns momentos em que me deparo com algumas perdas, consideradas menores, mas que, ainda assim, me causam inquietação. Me refiro ao fato de ver a pele ir ganhando rugas e perdendo o viço; de sentir que o corpo, antes cheio de volumes e formas, vai se redesenhando; e mais uma incontável possibilidade de exemplos que vão, pouco a pouco, transformando minha relação com o meu corpo.
É um fato a transitoriedade do corpo e que o essencial está além de toda a forma, mas é também um fato que o corpo é invólucro e linguagem. E é por meio dele que nos relacionamos, nos expressamos e nos fazemos presentes no mundo.
O grande Rubem Alves escreveu, certa vez, que as coisas mais bonitas da vida são aquelas que possuem um leve gosto de perda. E a própria existência tem esse gosto de perda: o corpo que muda é uma espécie de ensaio, onde vamos aprendendo a exercitar a difícil arte do desapego.
Acredito que são essas pequenas perdas, no final de tudo e das contas, que nos preparam para as perdas mais profundas que o processo de envelhecimento acarreta, antecipando, por exemplo, o luto de papéis, de pessoas e de possibilidades, que o tempo inevitavelmente nos trará.
O processo de envelhecimento é um tornar-se íntimo da ausência e, ainda assim, permanecer inteiro. É aprender a conviver com o vazio de forma serena, sem negarmos a falta, mas também sem nos afogarmos nela. É admitir que o corpo muda – não há o que ser feito – mas que nós permanecemos internamente os mesmos, e que é esse sentido de integridade que nos dá sentido enquanto sujeitos. Ainda que em corpos diferentes, em nós vive o bebê, a criança, o adolescente, o adulto e o ser em processo de envelhecimento – todos coexistindo continuamente.
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Não se trata de insistir em ser quem já fomos, mas de aprendermos a integrar tudo o que fomos num corpo que se transforma desde o dia em que nascemos. Acolher essas transformações é parte do caminho do ser humano que compreende que é feito, também, daquilo que já deixou de ser.
Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito
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