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Envelhecer é a arte de deixar o tempo fluir e ir junto

Por Maya Santana

 Metade das peripécias profissionais só apareceu na minha vida já entrando nos 50 anos

Elisa: Metade das peripécias profissionais só apareceu na minha vida já entrando nos 50 anos

Elisa Santana

Debruçada sobre a janela do meu apartamento ouvi duas vizinhas mais velhas que eu conversando. Uma no primeiro andar, outra no prédio ao lado. Não prestei atenção exatamente ao que falavam, mas atentei ao fato de que riam muito. Me peguei rindo sozinha da alegria da risada delas. Tive vontade de me intrometer. Quase sem querer, me ví pensando que ali no meu prédio, e no vizinho também, nós éramos quase todas mulheres mais velhas. Moro num prédio de 5 apartamentos e 4 deles são habitados por mulheres com mais de 50 anos. Aliás, as idades variam de 51 a 65 anos. Eu mesma, já entrei na casa dos 58.

Somos mulheres ótimas. Estamos quase sempre nos saudando com bom dia efusivo, fazemos brincadeira quando o dia tá pesado. Ás vezes estamos mais fechadas, mas nenhuma carranca que a outra não mereça e não entenda. Há um grande respeito entre nós. Somos mulheres mais velhas e vivendo bem o que agora está presente na nossa vida, e que eu chamo de 3º round, que é o envelhecer.

Eu só percebi que eu começava uma nova etapa na minha vida, e isto depois dos 50, quando eu tomei consciência que eu, a qualquer momento, já podia morrer. E não me pergunte porque esta sensação me assaltou. Tenho a impressão que ela assalta todo mundo que passa dos 50 e que medita sobre a vida. É inexorável. Depois de certa idade, apesar de acharmos que não devíamos ser feitos para morrer, descobrimos que irremediavelmente somos mortais. Mas ao pensar, a idéia não me afligiu. Até porque, engraçado, não sou uma pessoa que espera o envelhecer lastimando e, por enquanto, não me entristeço com ele. Sou ativíssima. Sou atriz e estou ensaiando uma peça que logo estreará, professora de teatro, adoro escrever; lancei um livro de poemas, ando compondo e cantando minhas músicas, gravei um CD e ainda sou mãe, cuido de mim, da casa, do supermercado, de plantas, de dois gatos…Não é pouco.

Metade das peripécias profissionais só apareceu na minha vida já entrando nos 50 anos. E comecei transformando em poemas a dor de separações, de perdas, de solidão… Depois que sobrevivi, tenho me esforçado para que o viver vire fichinha. Todo dia é dia de transformar bomba de Hiroshima em Flor de Lótus. Costumo dizer que a vida é linda, o viver é que requer alegria, trabalho, ciência, arte e sabedoria. Viver é fácil para quem? Viver é foda, não é não?.

E nisto inclui o envelhecer. Mas a vida me ajuda a viver. Ela me serve de inspiração. É lindo tomar café, olhando pela janela a árvore em frente ao meu apartamento e ver passar e cantar rolinhas, bem-te- vis, sabiás, beija-flores, todos nidificando. Afinal é primavera. E um jeito bom de me equilibrar é observar que a natureza fora, ajuda a natureza de dentro. Cada tempo é um tempo de reencantamento. Envelhecer para mim neste momento é outra primavera. Outras flores brotam.

Não acredito que eu sofra mais agora que na infância ou adolescência. Aliás, sou mais segura agora, sem a influência e oscilação dos hormônios. Sou mais livre, mais inteira, mais dona de mim. Confesso ainda, que me ajudam os amigos,meu trabalho, a aposta no amor, os estudos antroposóficos, a homeopatia, os florais, o religare sempre.

Envelhecer, para mim, é a arte de deixar o tempo fluir e ir junto, aproveitando o presente que é a vida e transformando o tempo em presente. Em presença. Sempre penso: Já que tenho que envelhecer, escolho ser feliz. Votos que precisam ser renovados todos os dias, quando acordo e vejo que outro dia começa.

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19 Comentários

lisa Santana 7 de janeiro de 2018 - 16:48

Ei “Agarzinha” – era assim que te ouvia ser chamada – como vai? Que prazer saber que você gostou dos meus escrevinhados. Tive a grata surpresa de ter Lumena em uma das minhas cantorias no Suricato e me lembro dela comprando o CD e o livro para te dar de presente. Acabo de entrar nos meus 60 anos super bem vividos e e espero viver um tantão também ainda “bem vividos”…rsrs… E te saber super bem com a vida é lindo. Obrigada por aparecer por aqui com boas palavras. Bjs.

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Agar Teixeira Araújo 6 de janeiro de 2018 - 19:41

Lisa, ganhei de presente de Natal de Lumena, seu livro e seu CD . Através deles pude conhecer sua arte,tudo que brota do seu coração. Me fez viajar no tempo, quantas lembranças. Agora me deparo com esta cronica sobre o envelhecer e vejo quão nova você é,em relação a mim. Sou do tempo de Nenez, rss… Não precisa se preocupar ainda com este tal de “envelhecer”. Eu ainda não sei o que é isso, graças a Deus. Continui nos brindando com seus escritos, amei ler cada poema. Bjs Agar

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Eliana Holtz 5 de janeiro de 2018 - 10:55

Lindo texto, sensível na medida, forte o bastante, nem muito e nem pouco rumo ao inevitável.

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Luzia Werneck 10 de outubro de 2016 - 19:59

Lisa… que belezura de estrada. Fiquei – aqui – imaginando você rindo de si mesma e das jovialidades do envelhecer.É minha querida amiga de infância,adolescência,juventude e de envelhecer – a vida segue como um rio que – esbarra aqui e acolá.Transborda e esvazia.Silencia e barulha.O envelhecer é ser-se inteira de pedaços,de momentos.Envelhecer e estar pleno de esvaziamentos que não devem ser preenchidos.O envelhecer nos traz uma leveza diferente da alegria da infância,do proibido da adolescência,do viço da juventude e ruma para onde não imaginamos.Envelhe-ser é isso -simples assim – é seguir o fluxo da vida e se deixar levar….

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CAROL 10 de outubro de 2016 - 14:58

Que lindo Lisa! Espero envelhecer assim, com essa maturidade e essa poesia.beijos

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Lisa Santana 10 de outubro de 2016 - 15:45

Obrigada Carol. Tudo é puro esforço, pq nada é fácil. Tô aqui, na luta…rs…bjo.

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Marta Lucia 10 de outubro de 2016 - 07:59

Lindo texto!!!!Que ele me ajude a envelhecer!

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Antonio f reis 3 de novembro de 2015 - 16:30

É isso ai nega lisa………..bjs

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Edna maria 2 de novembro de 2015 - 19:06

envelhecer com arte é envelhecer aprendendo a cada dia!aproveitando o lindo presente que é a vida e envelhecendo feliz!

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lisa santana 2 de novembro de 2015 - 12:30

Bjs, bjs gratos, Elza.

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Catharina Reis 2 de novembro de 2015 - 12:03

SABER ENVELHECER É UMA GRANDE ARTE …..
DEVERÍAMOS APRENDER DESDE O DIA DO NASCIMENTO ….MUITOS DOS NOSSOS SONHOS E IDEAIS ,
REALIZADOS OU NÃO , TAMBEM SENTEM O PESO DO ENVELHECIMENTO …….
NÃO SÓ A MEMÓRIA NÃO É MAIS A MESMA ,MAS TODO O VIÇO DE NOSSA PELE E O BRILHO DE NOSSO OLHAR , NÃO É MAIS O MESMO ….
NOS SENTIMOS MAIS AMADURECIDAS SIM …. MAIS SÁBIAS …MAIS INDEPENDENTES …. MAS COMO É DIFÍCIL SENTIR QUE ESTAMOS ENVELHECENDO ….
DEVERÍAMOS APRENDER A ENVELHECER COMO SE APRENDE A ANDAR …NATURALMENTE , SEM TEMOR SEM MÁGOAS ….. SIMPLESMENTE ACEITANDO ……
MAS , COMO É DIFÍCIL !

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Elza Cataldo 1 de novembro de 2015 - 16:59

Lisa, que bom receber um presente seu em forma de texto. Sua boa energia, sua sabedoria e seu talento fazem de você uma pessoa muito especial. É sempre muito bom escutar sua voz: falada, cantada e escrita.

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nenez 1 de novembro de 2015 - 10:51

Que bom este texto! Tem muito do que vivo e do que penso, embora aos 69 anos a velhice seja um pouquinho diferente. Parabéns Lisa!

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lisa santana 1 de novembro de 2015 - 11:33

Nenez, conta pra nós. Como é envelhecer aos 69 anos? Quero muito saber.

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lisa santana 1 de novembro de 2015 - 10:39

Déa, Ivone, Márcio que bom que gostaram do que escrevinhei! Agradeço o carinhoso abraço, Marcinho. Fico feliz.
Déa, minha flor de Amarula…rsrs…quisera eu puder te ensinar a arte do viver! Quisera eu. Acho que conversar a gente pode e muito, claro. Mas o viver, eu sempre acredito que é de cada um. Sempre penso que se a gente pergunta “com o coração” e escuta de verdade, a gente acaba recebendo as respostas do que é melhor pra gente. Neste mundo que aposta demais no que está fora, imagético e surdo ao extremo, fica difícil para aprofundarmos em nós mesmos. Andamos cegos, surdos e jurando que estamos vendo tudo e que tudo é péssimo.Poderia aqui te dizer mil coisas, mas corro o risco de cair na pieguice e não te ajudar em nada. Hora destas conversamos, minha querida. bjs, bjs

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Márcio 1 de novembro de 2015 - 15:43

Lisa,
“Sempre penso que se a gente pergunta “com o coração” e escuta de verdade, a gente acaba recebendo as respostas do que é melhor pra gente.”
Isso – no que acredito totalmente, com o coração -resume você, doce, simples, intensa, profunda, linda…!
Grande, enorme, imenso abraço para você, com o meu bem querer, todo o meu afeto!

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Márcio 31 de outubro de 2015 - 20:31

Lisa,
O útilmo parágrafo da sua crônica sintetiza para mim a beleza singela, do dia a dia, com a qual você escreve.
Gosto muito da doçura, da informalidade, do não pretensioso do que você diz, lindamente.
Gosto muito do seu texto simples e despojado, que fala dos momentos simples e despojados da vida, da vida como ela é também.
Continue a escrever assim, por favor.
Um grande e terno abraço para você.

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Ivone Guedes 31 de outubro de 2015 - 11:36

Lindo texto! Me sinto dessa forma, estou aprendendo a viver cada dia, é uma fase mais harmoniosa com a gente mesmo.

Responder
Déa Januzzi 31 de outubro de 2015 - 09:56

Lindo texto, Lisa, envelhecer assim é muito bom, preciso aprender e conversar mais com você. beijos. Déa. Ensina-me Lisa!!!!!

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