
Márcia Lage
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Envelhecer é sair de uma auto estrada e entrar numa via secundária, repleta de quebra-molas. Sem faixa amarela ou sinal de advertência, você é obrigado a desacelerar para ultrapassar com segurança os obstáculos que encontra pelo caminho. Dos 70 você reduz bruscamente para 40, para 30, para 20 quilômetros por hora. O pé no freio, a atenção redobrada. Há perigo na pista.
O carro começa a dar defeito. De manhã, demora a pegar. Esquenta nos engarrafamentos. O pneu esvazia inexplicavelmente. A bateria arria. A direção desalinha. Todos os componentes exigem manutenção constante. Às vezes, é necessário até trocar o motor. Porque não é possivel trocar de modelo. Cada um vem com o seu. E é para a vida toda.
Esse mês, dois amigos tiveram que frear bruscamente num desses quebra-molas. Um sofreu infarto e aguarda, em hospital público, o check-up necessário para ver que peças terá que trocar. O defeito no motor cardíaco é leve. Talvez alguns stents. E o pé mais leve no acelerador a partir do tratamento.
O outro teve uma dor profunda no abdômen, que irradiava para as costas. Tomou chás, remédio para gazes, supondo uma intoxicação alimentar. Nada melhorou. No Pronto-socorro desconfiaram de uma pedra nos rins. Ou de alguma infecção no pâncreas. Está no pit-stop para avaliação. Com grande torcida para que volte logo à pista e complete sua prova.
Um outro amigo já trocou um rim. Vive nos hospitais, se avaliando frequentemente. Cada dia um susto. O coração dispara, a insulina falha, as pernas ficam inchadas, o cansaço se apropria do corpo. E ele segue vivendo, entre consultas e remédios, como um carro cubano milagrosamente cumprindo seu propósito de rodar.
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Pessoas que tiveram câncer e que se submeteram aos mais torturante tratamentos continuam rodando. Com sequelas que não permitem que elas possam dizer que estão curadas. Apenas que escaparam do desastre e que o mecânico trabalha para reparar os estragos na máquina danificada.
O mais importante desses carros sinistrados, como se diz nos seguros, é que eles não são abandonados. Nem pelos donos, nem pelos mecânicos. Eles se tornam bens de valor incalculável, pelo tempo de uso e pela exclusividade dos modelos. Recusam-se a virar sucata.
Num setembro amarelo de campanha contra o suicídio, a resistência dessas pessoas é admirável. Encaram com coragem suas doenças, fazem seus tratamentos com paciência e celebram cada minuto vivido como um milagre. São um exemplo para os que pensam em desistir da viagem, às vezes sem passar por nenhuma revisão.
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