fbpx

Envelhecimento é doença?

Por Maya Santana

O envelhecimento deve ser visto como um processo natural da vida

O envelhecimento deve ser visto como um processo natural da vida

Elisa Santana –

“A busca desesperada da imortalidade levou o envelhecimento a ser classificado assim. E não há nada de mal nisso.” O título e esta citação foram tirados de um artigo publicado na seção Saúde/QI da revista Carta Capital de novembro. Fiquei estarrecida. Ao continuar lendo o artigo, vi que médicos americanos sugerem que o envelhecimento seja incluído como doença na próxima edição do Código Internacional de Doenças(CID). Código este utilizado para padronizar no mundo todos os diagnósticos dados pelos médicos. O artigo ainda afirma que “se o CID considerar a velhice como condição tratável, permitirá que “novos negócios” sejam regulamentados, e programas preventivos possam ser criados por organizações governamentais, trazendo benefícios para os idosos e economia para as fontes pagadoras de saúde”

Confesso que fiquei perplexa. Como assim? Quando foi que velhice passou a ser doença? Dependendo de como se envelhece, se requer cuidados especiais. Mas daí oficializar um processo natural da vida como “doença” vai uma distância muito grande. Entendi que querem oficializar a velhice como um negócio. E pensei: mau negócio, sobretudo para os velhos. Para mim, já começa mal uma decisão tomada com base na doença e não no doente. Transformar a velhice em doença me soa como o botox para manter a juventude, o silicone para manter em pé o bumbum, os seios, o braço, a perna…Só que neste caso, entra escolha. Na velhice, não.

Em culturas antigas, envelhecer era sinônimo de sabedoria. Nas culturas ágrafas, entre os índios, os velhos eram detentores da memória da tribo, responsáveis pela formação dos jovens e pela preservação da cultura e de seu povo. Cada um deles era considerado um livro, portanto, uma das suas riquezas da comunidade. Em absoluto, não havia nada de errado com a velhice.

Numa sociedade construída sobre a base do que dá lucro, do que só tem valor se comprado ou vendido, do que pode ser transformado em moeda, juventude é valor, velhice não. Pois ela é memória, experiências, saberes que não são produzidos para gerar a matéria como bem visível, mas como forças imateriais. Em nome de uma modernidade, de um progresso, estamos correndo atrás de um super homem capaz de se manter sempre jovem, na tentativa de evitar o sofrimento, de vencer a morte. Estamos deixando transparecer o pavor que se tornou sermos humanos. Estamos nos achando maiores e melhores que a natureza, nossa mais sábia companheira.

Claro que na velhice se precisa de algum remédio. Assim como na infância, na puberdade… Então, não seria melhor estimular a prevenção? Estimular as pessoas a viverem melhor, para envelhecerem melhor? Morrerem melhor? Para ouvir e incentivar um tempo holístico que anda por aí, onde tudo está ligado ao todo, mostrando que a doença não existe isolada do sujeito?

Não dá para vivermos de médico em médico pedindo que ele cuide nós, porque não nos conhecemos, não conseguimos nos cuidar sozinhos e não sabemos porque ao ficarmos velhos, tudo dói. Se tivermos a sorte de termos um bom médico por perto, ele nos sinalizará e nos incentivará a sermos nosso próprio dono, a nos conhecermos melhor, a nos ouvirmos, a termos não uma vida de velhice, mas viver plenamente um tempo de sabedoria, o terceiro ato da peça. Tive a sorte de conviver com uma senhora amada e linda chamada Dayse, que viveu até os 93 anos, mulher de um excelente médico. E ela contava que o marido antes de morrer falava: – Velha, num fica indo a médico, eles sempre vão achar alguma coisa que você não tem.

A velhice é o resultado de uma vida inteira. Então, independentemente do que a gente viveu, o melhor é sair, fazer exercícios físicos, conhecer novas pessoas, ir ao teatro, ao cinema, viajar, rir muito… Caso contrário, preparemos: nosso suado dinheirinho virará consultas, comprimidos, receitas, bolsa de água quente, cirurgias ( elas dão um dinheirão para médicos, hospitais…) e uma vida triste. Aí sim, envelhecimento vira doença e um rentoso negócio. Não para o velho, claro.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário





Utilizamos cookies essenciais de acordo com a nossa Política de Privacidade e ao continuar navegando, você concorda com estas condições. Aceitar Leia mais