Envelhecimento e felicidade na cultura brasileira

Por Maya Santana
Perdas e ganhos que o envelhecimento traz

As perdas e os ganhos que o passar dos anos traz

Mirian Goldenberg

Há muitos anos, venho realizando pesquisas sobre os desejos e as preocupações das mulheres brasileiras. Em 2008, comcei a estudar o envelhecimento feminino. Tenho entrevistado mulheres brasileiras entre 50 e 90 anos. O que mais tem me chamado a atenção são duas ideias muito presentes nas falas das pesquisadas: a das perdas e a dos ganhos com envelhecimento.

Quando falam das perdas, elas destacam os problemas de saúde, menopausa, as dificuldades com a família e as mudanças no corpo, especialmente a facilidade para engordar. Aquelas que estão sozinhas dizem que gostariam de ter um parceiro e que acham muito difícil encontrar alguém com o passar dos anos. Revelam também que têm medo de serem ignoradas ou de não serem mais respeitadas por estarem mais velhas.

Felizmente, apareceu muito forte a ideia dos ganhos com o envelhecimento. Para elas, mais importante do que as perdas são as conquistas que só são possíveis quando se envelhece. Entre os principais ganhos, elas apontaram a liberdade associada a mudanças positivas, conquistas, descobertas, amadurecimento, sabedoria, aceitação e cuidado para consigo. Uma entrevistada  afirmou: ‘Agora cuido muito mais de mim, estou mais atenta para as relações que vivo, procuro ser mais feliz. Já casei, tive filhos, trabalhei muito. Agora é hora de cuidar de mim mesma. Decidi que iria estudar, fazer ginástica, viajar, fazer tudo o que sempre desejei, mas não podia, pois tinha de cuidar dos filhos, do marido, trabalhar. Agora é o momento mais feliz da minha vida’.

Comparando o discurso das brasileiras pesquisadas com o de algumas mulheres que entrevistei na Alemanha, pude perceber algumas diferenças interessantes. A ênfase na decadência do corpo e na falta de um parceiro é uma característica mais presente na fala das brasileiras. As alemãs enfatizaram a riqueza do momento em que estão vivendo, em termos profissionais, intelectuais e culturais. O corpo, para elas, não é tão importante, a aparência jovem não é valorizada e sim a realização profissional, a saúde e a qualidade de vida.

Em um país em que se valoriza tanto a juventude, a magreza e a boa forma, como o Brasil, o medo de envelhecer se torna maior. Muitas brasileiras, entretanto, descobrem inúmeros prazeres com envelhecimento. Aquelas que estão casadas sentem-se felizes por poder aproveitar, junto com o marido, uma fase de maior liberdade, com mais tempo para programas culturais, viagens, passeios, restaurantes, festas, etc. Aquelas que estão viúvas, separadas ou solteiras, procuram usufruir das amizades que fizeram durante a vida. Elas se sentem no auge da vida, entusiasmadas com projetos profissionais, cursos, viagens, teatro, cinema, aulas de dança, etc.

Casadas ou não, as mulheres mais velhas me disseram: ‘É a primeira vez na vida que posso ser eu mesma. Posso priorizar meus desejos sem me preocupar com a opinião dos outros’. Elas revelam, assim, que, muito mais do que as perdas, a possibilidade de ‘serem elas mesmas’ é o principal ganho para aquelas que sabem viver o envelhecimento buscando ser mais livres, verdadeiras e felizes”.

Mirian Goldenberg é antropóloga e professora da UFRJ.


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3 Comentários

Déa Januzzi 22 de fevereiro de 2013 - 20:10

Essa Mirian Goldenbeerg é demais!

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Marlene Singer 22 de fevereiro de 2013 - 16:21

Artigo maravilhoso. Parabéns!!!!!!!!!!!!!!!!

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admin 22 de fevereiro de 2013 - 17:45

Ei, Marlene. Volte sempre ao 50emais! Grande abraço, Maya

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