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Para especialista, é preciso aprender a envelhecer

Por Maya Santana

Alexandra Kalache é um dos maiores especialistas em envelhecimento

Alexandra Kalache, o grande especialista em envelhecimento

Dr Alexandre Kalache, médico, é talvez o maior especialista em envelhecimento do Brasil. Morou muitos e muitos anos no exterior, ocupou e ocupa cargos importantes em órgãos internacionais e é ele próprio um quase septuagenário. Por isso, não hesitei um minuto em postar aqui essa bela entrevista que ele deu ao repórter Gustavo Falleiros, do Correio Brasiliense. Todo mundo deveria ler e refletir sobre o que ele fala.

Leia “Aprender a Envelhecer:

O médico gerontologista Alexandre Kalache, 68 anos, é um desses brasileiros cuja trajetória acompanhamos com orgulho. Presidente do Centro Internacional de Longevidade (CIL – Brasil), conselheiro sênior da Academia de Medicina de Nova York e embaixador global da HelpAge International, foi também diretor do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde) até 2007. Tornou-se referência numa área de pesquisa que não para de expandir, assim como a média etária da população (o que preocupa os governos de diversos países). Mas, para o especialista, a velhice não deve ser temida: deve ser vivida com arte e ciência, em um processo constante de adequação física e social. Por isso, o ideal é nunca se aposentar. Essas e outras ideias ele defende na entrevista abaixo, concedida nos bastidores VIII Fórum da Longevidade, em São Paulo, e depois completada por telefone.

Perceber-se velho

Quando a gente pergunta para as pessoas a idade que elas esperam morrer, é sempre acima dos 80, dos 90 anos. As pessoas estão querendo viver cada vez mais longe, mas não estão pensando na velhice. Elas estão pensando que vão chegar lá igual passarinho, que está voando, aí, em pleno voo, tem um ataque cardíaco e puff! A ficha não cai. A gente ainda tem uma cultura muito de idolatria da juventude. O que é belo é o jovem. E, se ficar velho, tem que ficar no aposento. A palavra (aposentadoria) em português é até discriminatória: botar no aposento, fora de vista, em exclusão.

Rede de proteção
Como a gente ainda tem muito estigma, muita dificuldade de enfrentar o envelhecimento a nível pessoal, a gente projeta isso na sociedade. E uma das dificuldades é o preconceito contra a institucionalização (dos cuidados com a terceira idade), quando a família brasileira não é a que eu cresci quando era garoto. É uma família fragmentada. A gente ainda coloca o ônus na mulher, para que ela trabalhe, crie os filhos, cuide dos idosos, pague a aposentadoria, dê conta de tudo. Quando, na verdade, a gente tem é que “desestigmatizar” a institucionalização, melhorar o nível das residências, dos abrigos, para que deixe de ser um tabu, e que a gente enfrente. Por exemplo, eu tenho um irmão que já se casou quatro vezes. Minha mãe tem 95 anos e tem Alzheimer. Se ela dependesse só dele, qual das noras ia cuidar dela? A primeira se foi há tanto tempo que não pertence mais ao ambiente familiar. A segunda foi um divórcio complicado. A terceira morreu. E a quarta entrou na família há três anos, já encontrou minha mãe demenciada. Qual é a história de vida, a lealdade, o compromisso?

Trabalhar só faz bem

Trabalhar só faz bem

Trabalhar sempre
O trabalho perfeito para o idoso é, primeiro, aquele para o qual ele se preparou através de educação continuada, para que ele esteja sempre energizado e se renovando, com base na experiência. Segundo, é aquele que permite se adaptar a condições físicas diferentes daquelas dos 25 anos. Eu te falo claramente: não tenho mais a energia física, a força ou a velocidade que tinha aos 25. Mas tenho a experiência. Então, qual é o trabalho ideal para mim? É aquele que eu possa oferecer com base na experiência, mas sem esperar que eu dê três plantões por semana. Não tenho esse pique hoje, mas tenho pique para sair pelo mundo viajando — cheguei da Austrália ontem e estou aqui, dando conta do recado. O que eu faço hoje não poderia fazer há 20, 30 anos. E vice-versa. Então você tem que se adequar, mas o fundamental para manter a empregabilidade é ter saúde e educação continuada. Se eu não tivesse aprendido alguma coisa nos últimos anos, você não estaria me fazendo perguntas, pois eu não teria o que dizer. Essas duas coisas permitem a participação integral na sociedade.

Revolução da longevidade
Nós estamos atravessando um período sem precedentes na história da humanidade. Para te dar uma ideia: nasci no Brasil em 1945, quando a expectativa de vida era de 43 anos. Hoje é 75 — são 32 anos a mais de vida. Enfatizo “de vida” porque não são 32 anos de velhice. E essa expectativa maior passa a ter um impacto em todas as etapas do curso de vida. Não é só para quem já chegou lá. Você tem que estar ciente, sendo jovem, de que sua expectativa é de viver muito mais que os seus pais, que dirá dos seus avós. Mas a gente ainda mantém padrões e valores de quando a vida era muito mais curta. O grupo da população que mais está aumentando no mundo todo é de 58 anos ou mais. A população como um todo, neste século, vai aumentar 3,7 vezes. E a população com mais de 85 vai aumentar 23 vezes. Isso é uma revolução. Estamos falando do futuro imediato de quem é adulto hoje. Então do ponto de vista demográfico está claro, mas, do ponto de vista do cuidado, fica mais claro ainda. Por isso, precisamos desenvolver uma cultura de cuidado como resposta à revolução da longevidade.

Quarta idade

A quarta idade é diferente da terceira idade? É, muito. Você pode prevenir tudo o que for prevenível. Pode tratar tudo o que for tratável, mas vai continuar com uma parcela importante desse grupo de indivíduos com 85 anos ou mais que vai ter ou problemas cognitivos (sobretudo, doença de Alzheimer) ou sofrer fragilidade biológica. Por exemplo, a pessoa tem um derrame. Você pode fazer tudo para que ela se recupere, mas muitos vão seguir anos numa dependência grande ou total de quem lhes cuide. Os anos a mais de vida que o paciente tiver serão de cuidados. Clique aqui para ler mais.

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2 Comentários

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Adriana Carvalho Breguez 21 de maio de 2014 - 20:48

Ótima matéria!

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