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Eu cansei de ouvir conceitos sobre envelhecer bem

Por Maya Santana
Se eu deixar de fumar, parar de tomar vinho,  levar uma vida equilibrada, sem dívidas, planejada, vou viver mais?

Se eu levar uma vida equilibrada, sem dívidas, planejada, ouvir música sempre, ler, malhar o cérebro com atividades para a memória, vou viver muito?

Déa Januzzi –

Se eu deixar de fumar, parar de tomar vinho, praticar atividade física regularmente. Se levar uma vida equilibrada, sem dívidas, planejada, com viagens pelo menos uma vez por ano, se tiver contato com a natureza, se viver perto do mar, se minha alimentação constar de orgânicos e sucos verdes, se eu não colocar frituras nem embutidos nem carnes no meu prato. Se virar vegana, conversar com Deus em linha direta, negociar com Ele tempo de vida, se eu fizer acupuntura, massagens para desenferrujar o corpo, se ouvir música sempre, ler, malhar o cérebro com atividades para a memória, vou viver muito?

Certamente, os médicos e especialistas em envelhecimento vão responder que sim. Este é o caminho do envelhecimento ativo, que garante uma vida longa e saudável. Mas vou dizer para vocês: cansei de ouvir conceitos sobre envelhecer bem, que se faça isso e aquilo, que é preciso evitar um tanto de coisas que mudam conforme a época. Cansei de ver pessoas escrevendo livros com receitas físicas ou psicológicas sobre o terceiro tempo da vida, que, hoje, dizem as estatísticas demográficas, podem levar aos 100 ou mais anos.

Não entendo, porém, quando as notícias divulgam a morte da atriz e estrela de primeira grandeza, Marília Pera, aos 72 anos. Quando meu amigo, mestre, jornalista e escritor Roberto Drummond morre, de repente, do coração antes dos 70, apesar de ter parado de fumar há anos, de beber moderadamente, de fazer ginástica, de ter uma vida produtiva e criativa, de ter chegado ao sucesso com a minissérie global “Hilda Furacão” e de um sem número de livros que venderam muito e agradaram ao leitor.

Gostaria de entender como é que um jornalista de 64 anos, que morava numa cidade de interior, com dois filhos ainda pequenos, de nome Marco Otávio, o Marão, morre de câncer tão cedo? Gostaria muito de ter uma fórmula, uma receita, mas parece que a vida tem seus mistérios. Não é receita de bolo. Nem de especialistas nem de manuais e regras de viver bem.

Gostaria muito de entender a vida, que não está em compêndios nem em livros de academia. Para mim, que não sei quanto tempo de vida tenho, tudo deve partir do prazer e da alegria. Pois vida para mim é compartilhamento, é o cuidado com o outro, é dar bom dia ao vizinho, ao porteiro do prédio. É conversar e aprender com a faxineira do prédio. Para mim, vida é se esbaldar no japonês comendo sushis e sashimis, é beber vinho como quem comunga com Deus, é encontrar o Irmão Raimundo Rabelo Mesquita, na Cantina do Lucas. Aos 83 anos, ele me convida para comemorar o Natal antecipado tomando vinho ao meio-dia e comendo um macarrão à parisiense com muito creme de leite. Com um detalhe: ele veio lá da Inspetoria Dom Bosco, no Bairro Dom Cabral, de ônibus. E voltou no mesmo transporte, depois de tomar vinho, comer, conversar, rir e contar coisas de Deus. Nós dois sempre fomos assim. Depois de anos como fonte de reportagens, Mesquita e eu nos tornamos amigos de fé e não deixamos de comemorar o Natal, de trocar ideias e até falar sobre a fragilidade da vida.

Viver para mim é estar com pouco dinheiro numa sexta-feira à noite, mas sair com a minha irmã Kátia para um desses bares do centro da cidade e contar as notas e moedas para ver quantas cervejas podemos tomar. E ver um cara na mesa ao lado mandar torpedos para a nossa mesa. De papel, acreditam? Devidamente escrito a mão e dobrado, para dizer que quer encontrar de novo, porque “somos simpáticas e charmosas e encantadoras.” No fim do torpedo, o telefone dele, entregue em mãos da minha irmã.

Depois, voltar para casa rindo de tudo o que aconteceu, à meia-noite, de ônibus, com a chuva caindo sobre nossas cabeças. Viver para mim é ir ao Sítio Sertãozinho, da minha amiga da montanha e entrar na piscina para movimentar o corpo dentro da água. É saber dessa amiga preciosa que “as nuvens passam, mas o céu fica”. Ter a certeza de que o Salmo 104, versículo 15, é profético. “O vinho que alegra o coração do homem, e o azeite que faz reluzir o seu rosto e o pão que fortalece o coração…” Para mim, só vale a pena viver, pouco ou muito, dessa maneira.

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4 Comentários

roberta 14 de dezembro de 2015 - 00:09

Déa querida, que belezura de texto! Só não sabia que o Marão se foi… Já trabalhamos juntos e gostava muito dele. É isso, bj carinhoso

Responder
Genoveva 6 de dezembro de 2015 - 10:40

Dea,
Bom demais sempre encontrar em suas palavras tudo aquilo que pensamos, sentimos e saber que não estamos sozinhos…mas em tão boa companhia!!!!
Carinho de Genô

Responder
Magdala Ferreira Guedes 6 de dezembro de 2015 - 07:12

Esta é a Déa que conheço.
Irreverente, gosta e paga o preço de andar na contra mão ,mas vive e sabe também dar risada depois de chorar um pouquinho,dizendo que a barra pesou.
Segue assim : vivendo e sabendo curtir cada momento de profundo encontro e alegria que a vida nos trás.
O resto,deixa prá lá: Deus,é que contabiliza meus créditos em sua cadernetina gasta pelo tempo.
É assim Déa segue alegrando e enchendo de poesia a vida de quem tem o prazer de partilhar com ela.
Um pouco trapezista,um pouco saltimbanco , inesperada…
Esta é Déa,minha amiga de fé e de coração.
Será que vai dar tempo Déa:
De irmos à Sicília?
De tomarmos juntas o chá da tarde no vagão ?
Bjs amada amiga!

Responder
Gabiru 5 de dezembro de 2015 - 22:03

“… e até falar sobre a fragilidade da vida.” Déa e seus apaixonantes sentidos. Sem perceber, minha mãe me fez mulher.O machismo cultural me impede de parir, apenas louvar aquilo que as amigas compartilham além da frágil vida: – “Entre o nascer e o morrer, vive-se”!
GJS

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